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Tristeza X Depressão

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Por Anna Paula Luz Flores , Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/04536

A tristeza é um estado afetivo desconfortável vivido como um sentimento de pesar, de dor psíquica e moral, geralmente relacionado a algo que contraria o que um indivíduo acredita almejar, estando relacionado a alguma situação específica. Ela pode produzir sentimento de impotência, vontade de chorar, expectativa negativa quanto a eventos futuros, entre outros aspectos. A tristeza dá colorido à existência humana, sendo, portanto, um acontecimento normal.

Considerado saudável e até importante, a tristeza é um sentimento momentâneo. Ajuda na elaboração das perdas ou sofrimentos ocasionais, uma vez que as pessoas atingidas pela ocorrência de perdas, do emprego ou de entes queridos, atravessam uma fase de sofrimento e angústia, que pode se prolongar por um determinado período de tempo, mas a tendência é que esse quadro vá se atenuando e gradativamente a vida vai retomando o ritmo normal.

Já a depressão, por outro lado, é um estado crônico onde a pessoa se mostra constantemente sem vontade para nada, desmotivada, triste, incapaz de sentir prazer mesmo em coisas que anteriormente gostava. Mostra-se negativista e desesperançosa em relação ao futuro. Pode ocorrer sem que haja relação direta com algum episódio na vida da pessoa. A depressão é um transtorno grave, que pode prejudicar seriamente quem sofre dela. Dentre os sinais mais comuns da depressão estão cansaço, falta de energia, desânimo e desmotivação, dificuldades com concentração e memória, alterações de sono e apetite, baixa autoestima e perda da auto-confiança.

No entanto, se a tristeza aumenta de intensidade e começam a surgir sentimentos de apatia, indiferença, desesperança, falta de perspectivas ou prazer pela vida, pode estar se tornando um quadro depressivo de maior relevância. Os sintomas podem aparecer ou desaparecer de maneira sutil e quase imperceptível, mas é importante saber que eles podem voltar. A depressão é doença séria e assim deve ser tratada.

Os sintomas podem se manifestar de uma forma branda, e é comum o paciente procurar um clínico, acreditando estar com alguma doença mais grave. Outros, simplesmente acreditam ser apenas mais uma “fase ruim” e não procuram ajuda, agravando ainda mais o problema. Indivíduos apresentando quadros leves, raramente procuram  tratamento.

O que se convencionou chamar de depressão, por sua vez, é um estado patológico no qual a vida afetiva perde, em boa parte, sua plasticidade, tem características neuroquímicas importantes e não depende de um evento gatilho para se manifestar. Enquanto a tristeza, que necessariamente tem sua causa relacionada a um ou mais episódios, não impede que alguém viva outras emoções quando o contexto se altera, a depressão costuma causar sentimentos sombrios a maior parte do tempo, e os que a experimentam têm grande dificuldade para recuperar o prazer, a alegria e outros afetos. Ao contrário do que se possa pensar, essa não é uma doença moderna. Hipócrates, considerado o pai da Medicina, descreveu seis doenças mentais, dentre elas a depressão, há aproximadamente 400 AC.

Em poucas palavras, a tristeza passa enquanto a depressão persiste. A tristeza profunda que uma pessoa vivencia ao perder um ente querido, por exemplo, não é uma depressão. O luto é uma resposta natural, pode continuar por um ou dois anos e mesmo assim, não deve ser confundido com depressão. São vários os tipos e subtipos de depressão (ou estados depressivos) e, embora a tristeza esteja entre os principais indicadores da depressão, nem todos os pacientes deprimidos manifestam essa emoção, mas especialmente a perda de energia (cansaço) e da capacidade de experimentar prazer além do desinteresse pela vida.

Na medida em que a pessoa for capaz de exteriorizar sua tristeza, provavelmente se sentirá mais aliviada e até amparada, desde que o faça junto de pessoas de sua confiança ou de profissionais especializados. Já quando alguém acredita que um familiar ou amigo está apenas triste e não identifica tratar-se de um quadro depressivo, fazendo comentários do tipo “Olha à tua volta, tens uma família fantástica, um emprego extraordinário…”, procurando incentivá-lo, ignora que pode não estar sendo adequado às necessidades daquele que sofre, pois a depressão é uma doença que pode implicar o desinteresse por tudo aquilo que antes era gerador de alegria e entusiasmo. Porque, por mais que o paciente que está deprimido se esforce, a força de vontade não é suficiente para resolver a situação.

Isso pode ocorrer porque, para quem está de fora e nunca lidou com esta perturbação pode ser muito angustiante e até mesmo irritante perceber que a pessoa deprimida não tem vontade de fazer nada, não sai de casa e/ou passa o dia dormindo. Esta anedonia (ausência da capacidade para sentir prazer) é uma das características da doença que mais frequentemente se manifesta.

Entretanto, há um exagero. As pessoas não podem mais ficar tristes. Crises e os lutos são grandes oportunidades de transformação, de inventividade, desenvolvimento. Se você não tem tempo do luto, as pessoas tornam-se descartáveis. Como viver sem perdas? O importante é dar um destino criativo para elas.

As pesquisas mostram que uma psicoterapia, aliada a medicação, funciona melhor do que só o remédio. Isso é consenso em psiquiatria também. No entanto, existe uma predileção por sucesso rápido. Costuma-se dizer que a psicoterapia é demorada, mas o que ocorre é que entra-se em um processo de desenvolvimento e, se o tratamento psicoterápico for adequado, o paciente sente os benefícios já a partir das primeiras sessões.