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Tratar é recordar para elaborar

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Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

Diante de um mundo tão dinâmico em que parecemos mais no futuro do que no presente nos perguntamos: Para que mesmo relembrar os traumas do passado? As coisas todas à nossa volta parecem instantâneas, muitas vezes bruscas e imediatas. Cabe ao psiquismo, elaborar essa demanda, digerir e transformar mesmo que por vezes de forma não bem sucedida.

Vivemos um turbilhão de estímulos internos e externos continuamente, com mais ou menos tensões e estresse. Um trânsito caótico, assaltos, catástrofes, cenas de violência com traumas dos mais variados tipos, posturas perversas impunes, perda de entes queridos, causam um impacto que podem paralisar ou bloquear a cada um para experiências futuras, prejudicando o enfrentamento mais adequado e criativo da realidade. É comum surgirem comportamentos evitativos, agressivos, coleções de medos e angústias acumuladas, muitas vezes por toda uma vida. Não raro tais conflitos surgem deslocados para animais, viagens de avião, elevadores, grupos sociais… Mas enquanto permanecem projetados fora do aparelho psíquico (mente), como chamou Freud (pai da Psicanálise), o conflito não poderá ser elaborado, pois o elevador ou o avião pouco podem fazer para resolver o problema. Muitas vezes de forma incubada em tumores ou qualquer outro tipo de dor, também os conflitos tentam alguma representação via corpo, como um sábio dito popular comunica: “o que a boca cala o corpo fala” e assim teremos mais um sintoma que esconde em si o verdadeiro conflito.

Desde a época de Freud, Ferenzi, Dolto… com a noção de campo de afetação e “espaço afetivo” existente entre os sujeitos, nas relações primordiais, inauguramos a capacidade de percepção do mundo a nossa volta. Quando a capacidade de absorção dessa realidade é extrapolada, tem-se um evento traumático que nos afasta de nós mesmos, não permitindo que essa percepção se ajuste a realidade observada. Predomina a tendência a destruir, separar e congelar, assim como um tendão ou um músculo do corpo que sofreu trauma e não poderá mais desempenhar a atividade que normalmente lhe é exigida, pois está rompido.

Sem sermos avisados, nosso inconsciente busca expressão e realização de desejos obstinadamente. Por sua vez o ego buscará sua realização baseado em crenças criadas de acordo representações pessoais de experiências vividas. Um trauma de violência doméstica, por exemplo, poderá estar permeado por prazer e satisfação falsos, que moverão a reprodução de situações semelhantes para a busca da satisfação possível, mas principalmente pela necessidade de elaboração do conteúdo traumático. Haverá uma tendência natural de repetição compulsiva de novas situações que envolvam a mesma excitação emocional, para que desta vez haja um processamento satisfatório do conteúdo não elaborado até que haja coerência interna, comparados a uma acomodação de dados armazenados num computador que continua em “loading” até que conclua seu processamento. Essas memórias não ficam soltas, mas associam-se àquelas que já existiam antes mesmo do que conscientemente recordamos, sejam de abandono ou  desamparo, por exemplo.

Quando os traumas são reeditados sem serem processados, vivemos uma vida em loading, intensificam-se também as dores da alma, do ser como um todo em angústia e opressão, pois não existe uma satisfação real, mas sim uma falsa realização ou mesmo incompleta.  Por isso a importância do tratamento psicoterápico para criar condições adequadas de cura. Assim como não se pode esperar que uma ferida grande sare naturalmente, por produzir infecção generalizada ao corpo, se faz necessário criar condições para tratar os traumas psíquicos também. Os microrganismos do corpo ferido precisam ser  reconhecidos nos exames e isolados por medicação, pois não deixarão de existir, mas poderão ficar temporariamente inoperantes ou neutralizados, até que a recuperação, ou um novo ordenamento aconteça. Nessas condições, somente a relação recriada e especializada paciente-terapeuta, poderá conter e acolher adequadamente uma demanda tão especifica. Mesmo o ser humano não conseguindo lidar bem com o que é abstrato e subjetivo, e muitas vezes recorrendo a formas mágicas de solução de problemas, a ciência ainda é a ferramenta mais evoluída que conhecemos. Um trauma físico, precisa de uma intervenção médica para ser solucionada, muitas vezes com técnicas de urgência e emergência. Igualmente o trauma psíquico, não é curado em conversas com amigos, com familiares, embora possam permanecer assim neutralizados com o afeto recebido, mas que logo tendem a emergir.

No sofrimento encontramos não somente o veneno como o antídoto para a cura, para isso somente um especialista capacitado (psicoterapeuta), poderá identificar e dosar o que é necessário para sua recuperação. Assim como o médico recorre a clinica e a exames para identificar as causas de um sintoma, o psicólogo irá lançar mão de seu olhar clinico e em alguns casos de seus exames (testes e técnicas psicológicas – avaliação psicológica), para então iniciar um plano de tratamento específico para seu paciente, muitas vezes contando com o uso de medicação, após encaminhamento feito ao psiquiatra, em vistas a estabilizar um quadro clínico apresentado.