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Se o encontro virtual levar a lugar nenhum, prefira a realidade.

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Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

Entre psicólogos, antropólogos e filósofos, não são poucos aqueles que afirmam o homem como um ser naturalmente gregário. Entendem que, movidos por forças internas ou pressionados por convenções sociais, somos impelidos a buscar companhia para vivermos a vida. Os argumentos são os mais variados: a união faz a força, é disso que depende a sobrevivência da espécie, um critério de normalidade ou  simplesmente porque para alguns a solidão dói tanto a ponto de ser insuportável.

Também não são recentes os debates sobre a proliferação de redes sociais e os questionamentos sobre o quanto ela aproxima ou afasta as pessoas. Em uma sociedade regida por aparências, o número de amigos no Facebook ou a quantidade de matchs no Tinder indicam popularidade e sucesso nas interações sociais. Estar só, ao contrário, revela fracasso, é sinônimo de anormalidade e esquisitices.

Cada vez mais, raros são aqueles que não despendem algum tempo de seus dias para acessar as redes, mesmo que com a desculpa de encontrar velhos amigos. Até aí, nenhum problema, afinal, o advento da tecnologia reformulou conceitos e formas de viver. É preciso se incluir e se adaptar aos novos tempos.

A questão toda começa a assumir ares dramáticos quando as redes sociais passam a ser o cenário exclusivo das interações e substituem as relações reais. Assim, abre-se mão de um exercício precioso para desenvolver habilidades com relacionamentos verdadeiros – afinal é preciso praticar e sentir. Habilidades que um relacionamento à distância não oportuniza, como é o caso de seduzir olhando nos olhos de outra pessoa, reconhecer uma respiração ofegante de ansiedade, perder o medo do sorriso nervoso, ficar sem palavras, reconhecer a cumplicidade ou sentir o toque da pele.

Atualmente, olhares não encontram mais do que a tela dos smartphones podem exibir. Olhos fixos sobre a tela “sensível” onde o ideal, na maioria das vezes, não corresponde ao real. Esta é uma inversão perigosa, a relação virtual pode tornar-se o formato verdadeiro de relação possível para uma pessoa.

Por mais que a tecnologia tenha se tornado um veículo para encontros e redefinido formas para eles, nossa natureza animal não foi modificada em sua essência e ainda hoje o que inaugura nossa humanidade é o que registramos das trocas pessoais que estabelecemos com outros seres humanos. Na forma de contato presencial aprendemos que se relacionar é esbarrar em limites e experimentar expectativas. Algumas vezes somos atendidos em nossos desejos, mas em outras, acabamos por ter que lidar com frustrações. Não há como escapar. Esta é a vida real.

O contato visual define parâmetros e embora a alma possa se alimentar de ilusões, um corpo precisa sentir outro corpo. Amor precisa de presença, amizade se constrói com trocas, é isto que nos conecta com a vida. Conexões fugazes na internet atenuam nossas responsabilidades e comprometimentos com as relações. Os laços se configuram frágeis e muitas vezes espúrios.

As escolhas são baseadas em um perfil genérico. Vivemos a era da objetividade em que o tempo necessário para aprofundamentos e aproximações é interpretado como dificuldade em saber o que se quer. Afinal, com o anteparo da virtualidade nunca foi tão fácil superar as inibições. As pessoas estão mais audaciosas e destemidas na comunicação intelectual ou sentimental, sentem-se imunes aos julgamentos, não precisam cruzar olhares, a crítica alheia é facilmente superada. Se algo desagradar, basta desconectar, bloquear ou deletar. Mas isto também pode significar que etapas para um relacionamento estão sendo puladas e, se por um lado são poucas exigências para um relacionamento na rede, por outro também pode ser pouco o retorno.

Não podemos nos tornar reféns de nossas criações, as redes sociais são veículos. Servem para dar acesso, conectividade, mas se isto significa abrir mão de critérios, subestimar sentimentos e características pessoais ou escolher qualquer amor por medo da solidão, então será a sentença para um aprisionamento sutil e gradual.

Descobrir-se pode ser o primeiro passo para um encontro real com outra pessoa. Antes de tudo é preciso ser boa companhia para si, pois, saber ficar só não significa não necessitar de alguém.

Atreva-se no plano real, no encontro presencial, o risco de sofrer decepções é da mesma forma também o risco da surpresa positiva!