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Resiliência – quando a dor faz crescer

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Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

Não é incomum voltarmos nossa atenção para pessoas ou comunidades que diante de acontecimentos trágicos demonstram excepcional capacidade de recuperação. Histórias de vidas que precocemente lidam com adversidades e privações ou, vidas que repentinamente são solapadas por alguma intercorrência catastrófica e surpreendentemente se refazem transformando o infortúnio em possibilidade de superação.

Em 1807, Thomas Young, um físico, empregava o termo resiliência para caracterizar a capacidade de um objeto sofrer pressão ou impacto e recuperar sua forma original. A palavra deriva do latim, o verbo resilio significa saltar para trás e recuperar-se. Por analogia a estas definições, também a psicologia contemporânea passou a empregar esta palavra no que se refere à capacidade de psicoadaptação, não só de indivíduos como também de grupos em situações traumáticas.

A resiliência indica como uma pessoa lida com experiências adversas, desafiadoras ou mesmo, com as inevitáveis situações de crise ao longo da vida: rupturas, conflitos, doenças, decepções, lutos ou mudanças. Revela o sentido que estas pessoas atribuem as suas vivências, o quanto são capazes de se recuperar de um trauma com flexibilidade, elasticidade, criatividade e, ao fim, conseguirem reconstruir. Portanto, resiliência tem relação com os recursos saudáveis da pessoa frente a situações de vulnerabilidade, resumindo-se na arte de navegar em torrentes.

Este tema nos remete invariavelmente a outro conceito, o de trauma. Palavra de origem grega que significa ferida ou ferimento de cunho doloroso. No caso, me refiro a trauma da ordem psíquica ou física. Ambas, segundo o psicanalista Boris Cyrulnik (2006), em seu livro – Falar de amor à beira do abismo – produzem uma espécie de necrose. Segundo ele, “todo traumatizado é obrigado a mudar, senão fica morto”. A mudança é justamente aquilo que as pessoas resilientes são capazes de promover para não sucumbirem, mas para tanto, muitas vezes, é necessário enfrentar as resistências, pois existem aqueles que sobrevivem aos traumas, porém, sem mudanças permanecem submersos à dor, evitativos, ambivalentes, apegados ou desorganizados. A resistência impede a resiliência. Aqueles que, genuinamente, superam suas feridas experimentam o prazer de viver o melhor do possível, transformam o dilaceramento em força, vergonha em orgulho e  atribuem novos sentidos ao sofrimento.

Não é possível quantificar a intensidade emocional de um evento traumático, isto tem relação direta com a percepção individual e intrapsíquica de cada pessoa, seus recursos internos, o contexto em que vivem e as características de funcionamento que foram se compondo ao longo de seu desenvolvimento. Genética, idade, fase do ciclo vital, experiência e história de vida, todos esses aspectos são levados em conta quando se investiga a capacidade de resiliência.

No processo psicoterapêutico, o trauma não poderá ser apagado nem modificado, contudo, trabalha-se no sentido de reelaborar as consequências do impacto.

A psicoterapia psicanalítica não se limita a trabalhar apenas com as situações restritas ao trauma. Leva em conta as fragilidades psíquicas que se apresentam ao longo de todo ciclo da vida, bem como os recursos pessoais que aparecem no processo que promove o autoconhecimento e contato com as emoções negadas ou reprimidas. Trabalha fundamentalmente com o investimento em mudanças e com a capacidade de buscar ajuda.