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Por Luciana Pandolfo Camaratta, Psicóloga – CRP 07/05918

A criança que não aprende a  ter limites,  cresce com uma deformação da percepção do outro e do mundo. Somente importa-se com o seu querer, mostra-se eternamente insatisfeita  , pronta para brigar o tempo todo. Aqui encontramos crianças que apresentam diversos graus de  dificuldade , desde aquelas que mostram alguma desobediência e prejuízos no desenvolvimento, até quadros mais graves como o distúrbio desafiador e opositor e perturbação de conduta. A criança difícil não escuta, não obedece e costuma reagir de forma desorganizada e destruidora. Tudo isto faz com que ela, pais e educadores, mergulhem em um ciclo de sofrimento, onde o vínculo  vai sofrendo prejuízos.

O desenvolvimento social, a aquisição de padrões de comportamento, a limitação da impulsividade dependem de aprendizagem. Esta por sua vez, depende da interferência adequada do adulto que envolve algum conhecimento de psicologia e principalmente de si mesmo.

Inicialmente precisamos pensar no desenvolvimento da criança. A internalização de normas é um processo lento. A criança vive em nome do prazer e do desejo. Muitas vezes conhece a regra,  mas ainda não desenvolveu o mecanismo de controle. A censura interna será formada, exatamente através da intervenção do adulto que fará o confronto desejo x realidade. A criança é egocêntrica, tem a percepção de que o mundo, gira ao seu redor. O adulto precisa mostrar, que existe o seu desejo e o desejo do outro, para que assim resolva seu egocentrismo. Está também desenvolvendo sua autonomia, querendo descobrir e desenvolver habilidades, apresentando por vezes, comportamentos inadequados ou até perigosos. Esta é uma tarefa árdua e por vezes difícil para o adulto, que precisa ter clareza para decidir sobre permissões e proibições .

Dizer SIM sempre não é proveitoso! Estamos privando a criança de desenvolver recursos para enfrentar a vida. O limite ensina a tolerar frustrações, que  preparam para enfrentar as futuras dificuldades  , certamente maiores e mais difíceis. Ensina a lutar pelo que quer ao invés de desistir, quando não houver quem faça imediatamente por ela. Ensina a esperar e contentar-se com o que tem e extrair prazer disto. O limite ensina a pensar, cria uma distância entre o sentimento e a ação, possibilitando a escolha de uma forma adequada de ação. O limite organiza a conduta , ensina a tolerar a frustração e adiar a gratificação.

Não podemos prever todas as situações. Vale então detalhar, alguns aspectos importantes para um limite eficaz. O limite precisa despertar “certa culpa”. A criança precisa perceber que desagradou. A culpa desencadeia o pensamento que por sua vez ,vai gerando um controle gradativo. A censura , a desaprovação dos pais, dói muito mais que a palmada. Esta é a dor que a criança precisa sentir. A culpa irá funcionar como advertência para não repetir o ato que provocou desaprovação. Para não perder o amor, aprende a renunciar algumas coisas.

Valorizar e incentivar atitudes positivas, também é um limite! O elogio, o carinho conduz a criança a agir de forma adequada, também pela necessidade de manter o amor. Algumas vezes, a criança chama mais atenção naquilo que incomoda. Se o elogio não é tão marcante quanto à reprovação, tende a agir errado para obter o ganho emocional de ser olhado. Provavelmente não saiba como comportar-se, uma vez que conhece o erro e não o acerto. É mostrado somente como não fazer !  Fazer de forma adequada pode não despertar  , reconhecimento e valorização nos adultos.  Fica em conflito, desorganizando a conduta , pois se age errado teme perder o amor, se age adequadamente não desperta o amor! “Fazer certo” deixa a criança no vazio!

As crianças que tem permissão para serem destrutivas, tornam-se muito agitadas. Experimentam um excesso de culpa, percebem-se destruidoras e esperam o contra ataque. A criança apenas descarrega sua raiva no momento da frustração e deixa permanentemente em si, sentimentos muito angustiantes. Percebe-se má e destruidora e junto a isto, aparece um constante medo de perder o amor  ,visto desagradar tanto. Ao sentir-se mais poderosa do que aqueles que cuidam dela, fica assustada e insegura, pois passa a duvidar da condição dos adultos de cuidarem dela  e percebe-se incapaz de fazer isto sozinha. Se bateu ou machucou alguém, quebrou algo ; deverá ser levado a pensar em uma forma de corrigir-se e desculpar-se, evitando assim, o excesso de culpa e o abalo da auto estima.

Quando a criança manifesta um comportamento inadequado ,está tentando pedir ajuda, para a solução de algo que não da conta sozinha. Tolerar a frustração, adiar a gratificação e reparar o erro cometido, são importantes características de um limite eficaz. Esta tarefa nem sempre é fácil de ser executada e pode envolver a elaboração de conteúdos inconscientes ativos e intensos, em todos os envolvidos na situação. Ajuda especializada poderá ser necessária. Avaliação, orientação à pais e educadores e a psicoterapia , são recursos para solução destas dificuldades.