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O real e o virtual – novos tempos

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Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Outro dia assisti uma reportagem na TV que me fez pensar. Numa escola de uma pequena cidade no interior do estado os pais se queixaram à direção que os filhos estavam com notas muito baixas. A direção e os professores já haviam conversado sobre o assunto e queriam proibir o uso de celular, tablet e notebook na escola. Concluíram que a tecnologia estava distraindo os alunos e prejudicando seu rendimento. Os pais concordaram e assim foi feito. Para surpresa e descontentamento dos alunos a proibição aconteceu.

Passado um tempo, quando foi feita a reportagem, as notas dos alunos realmente haviam melhorado. Os alunos, apesar de não gostarem da proibição, disseram que se comunicaram mais, conversando, jogando, brincando, enfim, o clima na escola ficou mais alegre e barulhento. Os professores e pais estavam satisfeitos e com a certeza de que a tecnologia dentro da escola atrapalhava o aprendizado e rendimento dos alunos.

Será que a tecnologia atrapalha o aprendizado e inibe a comunicação? Porque esta escola precisou eliminar aquilo que é a cara do jovem atual? Porque não optou por usar a tecnologia a seu favor e em benefício dos alunos?

A maneira de se comunicar mudou, a maneira de aprender também está mudando. O aluno não precisa mais ficar sentado numa sala de aula ouvindo e copiando. Ele pode participar procurar, criar! Ele pode ser ativo na busca do saber! Ele pode fazer trabalhos com seus colegas sem precisar se deslocar, conversar com o professor ou com amigos que estão do outro lado do mundo, visitar museus, ler livros e entrar em bibliotecas.

Um movimento geral de virtualização afeta hoje não apenas a informação e a comunicação, mas também os corpos… A virtualização atinge mesmo as modalidades do estar junto, a constituição do “nós”: comunidades virtuais.” (Pierre Lèvy)

Não podemos negar o inevitável. Nossas crianças aderiram a tecnologia e não tem volta. A virtualização é uma realidade e precisamos nos adaptar a ela. É comum vermos em creches a conexão com a internet, ou seja, os pais podem de casa ou do trabalho, acompanhar seu filho. Muitas escolas já estão usando o tablet como material escolar obrigatório. O celular serve para fazer pesquisa em sala de aula. Muitos de nós estamos tentando acompanhar estes jovens em sua habilidade e destreza com mais ou menos dificuldade. Além de a tecnologia ser tão nova na nossa vida aprender com os jovens também é algo novo.

É frequente vermos crianças e jovens com um celular ou um tablet nas mãos. Eles jogam, conversam com seus pares, namoram, combinam encontros virtuais e reais. Alguns pais se incomodam e outros não se importam e até gostam, pois ficam com a sensação de segurança; os filhos não estão na rua e nem “em má companhia”.

“Virtual significa a pura e simples ausência de existência…O real seria da ordem do “tenho”, enquanto o virtual seria da ordem do “terás”, ou da ilusão…” (Pierre Lèvy)

Não obstante, muitos jovens se queixam que não conversam em casa, que se sentem sós, que os pais estão sempre ocupados e não tem tempo pra eles. Os pais por sua vez se queixam que os filhos não saem da internet, não conversam com eles, ficam fechados em seus quartos. Na era da comunicação, falta comunicação. E esse é o cuidado que os pais precisam ter. Ficar atentos às reais necessidades dos filhos, saber o que está acontecendo em suas vidas, não aceitar um não passivamente. Quando a dificuldade se torna grande demais pode pedir ajuda. A terapia psicanalítica é um espaço onde pais e filhos podem aprender a se comunicar.

Na escola e na família, professores e pais precisam se esforçar para acompanhar as mudanças e não ignorá-las e achar que podem simplesmente eliminá-la. Isso já não é mais possível. Mas sim, aprender a usar as novas ferramentas de forma saudável e criativa.

 

Pierre Lévy, cientista francês,  é filósofo, sociólogo e pesquisador em ciência da informação e da comunicação e estuda o impacto da Internet na sociedade, as humanidades digitais e o virtual.