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O que realmente precisa saber uma criança na primeira infância?

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Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

Atualmente, parece que vivemos num mundo onde o ter, o ser e o saber fazem parte de uma competição. Mães e pais acabam por crer que seus filhos precisam sempre saber/ter mais do que os filhos dos outros, e essa se tornou a medida da normalidade. Saber mais é sinônimo de estar mais adequado ao mundo, e consequentemente mais propício ao sucesso.

As crianças são cada vez mais exigidas, cada dia se acrescenta uma nova atividade necessária na rotina. Cada sinal de “atraso” é motivo de desespero para pais. As cobranças da atualidade escravizam ao mesmo tempo em que normatizam. Espera se que todas as crianças tenham o mesmo padrão de funcionamento, desejando que essa padronização também sirva para valorizar as diferenças, desde que iguais. Ou seja, há uma confusão de valores, uma desorganização das regras e uma cobrança tão ambígua quanto ambivalente. E enlouquecedora por ser inatingível. As diferenças são desvalorizadas, porém, ao mesmo tempo, mencionadas como prova do desempenho, que mensura o desenvolvimento.

Essa exigência desmedida, disfarçada de estímulo, pode provocar a sensação de nunca ser suficiente, nunca dar conta das expectativas. Ocasionar insegurança, medos, ansiedade e baixa autoestima. Isso pode acontecer tanto nas crianças quanto nos pais. Situações corriqueiras, falhas ou tropeços podem se tornar traumáticos frente a todas essas exigências desse novo mundo de comparações. As crianças podem desenvolver patologias graves como depressão e até mesmo transtornos como déficit de atenção e hiperatividade, pois os estímulos são tantos e as cobranças demasiadamente intensas.

A primeira infância é o momento quando as primeiras sensações e experiências são vividas pela criança. Essa é a fase do chamado narcisismo primário, quando a criança se percebe no mundo, fundamental para a construção da individualidade.  Nesse momento, o comportamento dos pais e mães é o modelo para a criança e a construção de sua individualidade está muito dependente do que os pais e mães sentem, pensam, enxergam e falam a seu respeito. Na primeira infância a um esforço da criança muito intenso em ser aquilo que imagina que seus pais esperam que ela seja.

Essas vivências, somadas a componentes da genética e a historia da família de cada criança, são as responsáveis pela formação da personalidade. Nessa etapa do desenvolvimento, os sentimentos começam a ser codificados, os valores são registrados no inconsciente da criança e são estruturantes para o desenvolvimento futuro do caráter de cada individuo.

Os pais, presos a esse mundo de padrões de desempenho reguladores podem ter a capacidade de enxergar as potencialidades de seus filhos prejudicadas. Tomam como normalidade o que os filhos dos outros fazem e podem desprezar ou desvalorizar características importantes do seu próprio filho. E por vezes, essa busca pela perfeição, pode gerar insegurança também no desempenho da função materna e paterna, deixando pais e mães inseguros frente aos seus papéis e tomadas de decisão.

Respeitar a individualidade de cada criança, de cada família é fundamental para o crescimento emocional saudável dela. Olhar e enxergar as diferenças de uma criança é fundamental para desenvolvimento positivo de sua autoestima.

Por vezes, se faz necessário uma intervenção psicoterapêutica tanto para auxiliar os pais e mães a respeitarem o ritmo de cada criança, tanto para tratar eventuais transtornos causados pelo descompasso do que se espera que a criança faça e do que é possível que ela faça. Muitas vezes, a indicação pode ser o atendimento familiar ou orientação aos pais e mães. A psicoterapia da criança se faz necessária se já houver algum prejuízo no seu desenvolvimento.