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No meio disso tudo…

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Por Fernanda F. da Costa GarciaPsicóloga – CRP 07/14007

Que estamos vivendo um momento impar todos já sabemos. Momentos como estes, onde não temos registro de comportamento ou defesas emocionais, faz com tenhamos que nos reinventar e buscarmos novas maneiras de lidar com situações extremas e nos adaptarmos a elas. É comum acompanharmos nas redes sociais e grupos entre amigos um desabafo por estar tudo muito pesado, tudo muito diferente, tudo muito. O que é novo não tem registro em nosso cérebro, então o que resta é sentirmos. Respeitarmos o que estamos sentindo e nos conectarmos com o que somos e podemos ser.

Quando ficamos inseguros buscamos os nossos referenciais simbólicos, nossas lembranças familiares e de família. É uma busca narcísica importante, uma maneira de nos voltarmos para nossas origens e o que andava esquecido no turbilhão de afazeres diários. Uma dessas lembranças é a comida. A alimentação saudável. O que seria uma alimentação saudável? Vemos muitas musas fitness dando receitas de comidas, o que comer e não comer. Esquecemos que o que é saudável está no sentir. Percebermos nossa fome, nossa saciedade e escutarmos nosso corpo que é tão inteligente e sabe do que precisamos.

É comum na clínica se ouvir relatos de um comer transtornado entre pacientes com esta dificuldade, mas neste momento até mesmo quem não tem um comer compulsivo está preocupado com sua alimentação e sua forma de comer. Os transtornos alimentares estão relacionados a períodos arcaicos de nossas vidas, períodos primitivos em que a relação mãe-bebê dita afetos, pensamentos e desejos futuros. A alimentação é o primeiro contato entre esta nova mãe e este bebê que estão se conhecendo e se reconhecendo. Com isso, é comum que misturemos nossos sentimentos com os alimentos e com a fome que sentimos. Acredito que mais do que uma alimentação saudável, podemos pensar em uma fome saudável. Colocar os sentimentos no lugar certo, sabermos o que é fome, o que é medo, insegurança, cansaço, tristeza e alegria.

Para conseguirmos pensar precisamos estar dispostos a sentirmos e até mesmo brigarmos de forma silenciosacom lembranças, pessoas e dores internas que nos atormentam e nos obstruem o pensamento. Roland Barthes (1977), teórico francês, relata que o Saber e o Sabor vêm da mesma origem em latim e, explica que é o gosto das palavras que faz o saber profundo e fecundo. Ou seja, quando colocamos em palavras na terapia e organizamos o nosso saber o pensamento flui e se organiza da maneira que cada um consegue. Se não conseguimos ter sabor no saber o pensamento fica obstruído. Somos um ser só com o corpo e as emoções interligadas e que buscam um no outro apoio para suas dores e sabores. Precisamos comer para viver, pensarmos e nos relacionarmos, mesmo distante, mas com afeto.