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EMDR: um novo enfoque na elaboração de traumas e ansiedades

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Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

É comum que cada pessoa depare-se com caminhos, escolhas, desafios e obstáculos ao longo de sua vida. A cada memória armazenada dessas vivências é esperado que se vá atribuindo significados, criando pontos de conexão com outras experiências prévias.

Experiências emocionais constituem-se em pontos importantes na vida de cada pessoa por sensibilizarem, trazerem momentos de alegria e satisfação, marcando descobertas e aprendizagens importantes. Enquanto outras experiências emocionais são armazenadas em nossa memória com um cunho desagradável e perturbador, não ocorrendo adequadamente o processamento da informação da experiência nem a diminuição da percepção perturbadora e do sofrimento emocional. Estas experiências são revividas, sem controle e involuntariamente, no presente.

Quando é vivida alguma perda significativa, uma catástrofe, alguma experiência de violência, não se considera um trauma emocional, no entanto, sabe-se que a vulnerabilidade frente às próprias emoções será maior do que em outros momentos da vida. Para que essa experiência negativa não venha a condicionar a vida dessa pessoa, seu bem estar e iniciar sintomas de estresse pós traumático, é importante que se inicie o quanto antes um acompanhamento com um especialista capacitado, pois a intensidade do evento estressor poderá bloquear, fazer essa pessoa evitar situações corriqueiras de sua vida, bem como reagir com emoções descontroladas e desadaptadas em suas vivencias atuais. Esse bloqueio do processamento da informação vivida impede a ligação do evento traumático a recursos capazes de lidar com essas emoções desagradáveis.

O EMDR (Eye Movement Desensitizatization and Reprocessing), tradução em inglês de Dessensibilização e Reprocessamento através e Movimentos Oculares é uma técnica inovadora que age tanto como Psicoterapia quanto como parte integrante de processos psicoterápicos clássicos, beneficiando portadores de estresse pós traumático, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico e alguns tipos de depressão, ajudando a promover melhoria de desempenho profissional, artístico e criativo, principalmente por desbloquear essas falhas que ocorrem no processamento saudável dos eventos traumáticos, as vezes graves, ou mesmos corriqueiros.

O EMDR foi criado pela psicóloga Francine Shapiro em 1987, na Califórnia – EUA ao descobrir que movimentos oculares rápidos poderiam ajudar a curar a carga negativa vinculada as lembranças traumáticas, no sentido de permitir uma mudança da percepção dessas memórias difíceis. O método trabalha a memória traumática, (pensamentos, sentimentos, imagens visuais e sensações corporais), através da estimulação bilateral dos hemisférios cerebrais (direito e esquerdo), no qual o resultado consiste numa dessensibilização e reprocessamento emocional do trauma. Essa técnica consiste numa reestruturação cognitiva capaz de promover novas elaborações e significados mais adaptativos, com técnicas de auto-controle em protocolos validados cientificamente, que respeitam a individualidade de cada pessoa e as suas necessidades.

 Os transtornos relacionados a traumas e a estressores, nessa abordagem são especialmente beneficiados pelo trabalho de elaboração de traumas e reconsolidação de memórias adaptativas com enfoque psiconeurobiológico que promove. Acredita-se que quando um trauma ocorre, fica bloqueado no sistema nervoso central impossibilitando a sua elaboração natural. Esses estímulos bilaterais parecem reproduzir e estimular uma capacidade natural e intrínseca do sistema neurofisiológico humano para processar experiências emocionais e adaptar insights adaptativos, recriando um estado semelhante ao sonho que ocorre no sono REM (Movimento Rápido dos olhos). Com a intervenção a pessoa consegue ter uma sensação de maior distanciamento da memória e por isso consegue reunir mais recursos para reavaliar a experiência, que passa a ter seu próprio parecer sobre o que aconteceu, independente do de outras pessoas ou mesmo de seu terapeuta.

O EMDR não provoca amnésia dos eventos perturbadores, apenas modifica e transforma a forma como a pessoa experencia a memória traumática ao promover a construção narrativa mais coerente, capaz de permitir a resolução de conflitos emocionais resultantes de memórias passadas. Esse método é indicado para situações de luto, pensamentos intrusivos, fobias e dores crônicas, por exemplo. Esse método possibilita que afetos e cognições mais positivos se difundam pelas memórias associadas, por toda a rede neural, levando a comportamentos espontâneos mais adequados.