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E a vida do psicoterapeuta?

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Por Rafaela Haas Oliveira Zanini, Psicóloga – CRP 07/14351

Um tratamento psicoterápico consiste na procura de ajuda por uma pessoa que está empenhada em encontrar alívio para suas angustias. Encontramos, então, um paciente que fala sobre sua vida, suas dores, seus medos para um terapeuta que o escuta e se propõem a ajudá-lo.

É muito comum no início de um tratamento, o paciente perguntar sobre a idade do terapeuta, se é casado ou se tem filhos, por exemplo. Alguns perguntam logo nas primeiras sessões, outros demoram um pouco mais. Com o decorrer, o interesse ou a curiosidade sobre a vida deste profissional vai tendo mais espaço nas sessões. Em psicoterapia de orientação psicanalítica, trabalha-se com uma postura neutra. Mas neutralidade não significa falta de espontaneidade ou ausência de emoção, mas sim uma postura profissional. Um terapeuta deve manter-se neutro quanto a valores religiosos, políticos, morais. Deve abster-se de conselhos neste sentido. Mantém sua vida pessoal em sigilo, sem compartilhar seus problemas particulares. A manutenção de um anonimato traz benefícios para o processo e propicia que o paciente possa falar livremente sobre si.

Então, ao invés de responder ou “matar a curiosidade” do paciente, é importante entender o significado das perguntas.  Respondê-las acaba com a possibilidade de compreender uma série de significados que poderiam acrescentar no tratamento.  É desta forma que o paciente terá oportunidade de manifestar suas fantasias (o que imagina sobre) que poderão ajudá-lo a entender muitos de seus conflitos.

Não é objetivo aqui discutir aspectos técnicos sobre a atitude do terapeuta num processo psicoterápico. Mas sim pensar sobre uma série de questionamentos por parte do paciente sobre a vida de seu terapeuta e muitas vezes uma incompreensão sobre o real motivo que o faz não expor sua vida pessoal. É compreensível que temos duas pessoas dentro de uma sala, uma que fala de sua vida e outra que o escuta. O terapeuta não esta ali para falar de si, mas porque não responder a uma simples pergunta: você tem filhos? Na verdade, não existe problema em responder, mas acrescentaria em que neste tratamento saber esta informação?

Esta é a pergunta que sempre me faço ou faço ao meu paciente numa sessão. Se a resposta acrescenta no tratamento daquele paciente, eu a respondo. Se não, mantenho minha postura de compreender este interesse, entender o momento desta curiosidade dentro do seu tratamento. Porque se falamos muito da vida do terapeuta, deixamos de falar sobre o que traz o paciente para a sessão e podemos entrar numa tentativa de “fuga”.

Entretanto, neutralidade e  anonimato absoluto são impossíveis de serem alcançados e mantidos até porque muitas dessas informações são passadas involuntariamente. Manifestações espontâneas ocorrem, como um suspiro, uma expressão facial, um tom de voz, uma demonstração de afeto. Neutralidade não precisa significar rigidez de comportamento. A forma do terapeuta se vestir, por exemplo, fala muito sobre ele. Pensando assim, um paciente sabe muito sobre seu terapeuta.

Existem situações que pedem algum dado de realidade.  O afastamento repentino do terapeuta, por exemplo, pode trazer a necessidade de explicação sobre o que aconteceu em sua vida particular. Talvez não caiba aqui somente analisar fantasias do que se passou. Não explicar para o paciente algo sobre o motivo deste afastamento pode ser prejudicial para o processo. Acho sempre importante analisar cada caso, cada paciente e entender se vem para acrescentar ou se a explicação vem para invadir. Volto a dizer, se acrescenta, acredito que algum dado de realidade possa ser bem vindo. Acredito que tenham questões que por respeito um paciente merece saber.

Ou seja, é por respeito e proteção que um terapeuta não fala sobre sua vida. Mas pode ser por respeito e proteção deste vínculo que um terapeuta possa algo sobre sua vida.