Artigos

COMO LIDAR COM O TRAUMA DIFUSO?

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no email
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no telegram
Compartilhar no print

Diante de um mundo ameaçador, onde a sociedade se observa fragilizada, não apenas pelos retrocessos nos movimentos sociais democráticos, observamos um maior nível de enfraquecimento com as guerras de identidades. Em geral um grupo se une e se organiza em seus interesses por busca de direitos ou simplesmente privilégios, muitas vezes busca proteção aos ataques sofridos, ou mesmo ataca.

Segundo as ciências neurológicas, as reações de fuga, luta ou paralisia, são despertadas a partir do medo normalmente. Pensando aqui nossa atual sociedade, fragilizada em seus processos sociais democráticos, acabamos por nos deparar com um trauma constante e difuso, que acaba afetando no sujeito, um complexo sentimento de ameaças, como por exemplo, eventos terroristas, ou a própria pandemia mundial.

Roland Chemama vem nos falar do clima de guerra trazido pelo trauma difuso a partir dos atentados terroristas de 2015 na França, em seu livro em co autoria com Christian Hoffmann, “Trauma na civilização”. No qual buscam entender não a causa do terrorismo, mas as conseqüências geradas do trauma as pessoas feridas com esses eventos.

Em breves linhas o trauma para Lacan, consiste num contato com o termo por ele chamado “real”, o inassimilável, que não permite simbolizar por não se acessar o circuito das metáforas, para criar referências. Freud, para além da concepção da teoria inicial do trauma nos estudos da histeria, fala mais tarde da teoria do fantasma, dos traumatismos de guerra quanto à dificuldade de representar e colocar em cena o que aconteceu. Reporta-nos as questões de repetição, na pulsão de morte, dos atentados suicidas, ao entender que esse também se origina a partir de fenômenos traumáticos vividos anteriormente. Ferrenzi, por outro lado, fala da paralisia causada na origem dos traumas, equivalentes ao choque físico e mesmo o coma, capaz de travar os pensamentos daquele que é atingido pela agressão.

Em geral a pessoa consegue resistir ao que a agride ou então passa a anestesiar-se não sentindo mais nada, ou mesmo cindir, desenvolvendo quadros mais graves de sofrimento mental. O que passa no trauma e as saídas possíveis a essas vivências aterradoras são questionamentos que interessam aos psicanalistas, para que não seja apenas a reação de um grupo que se organiza contra o outro em binarismos para “o diferente”, sendo que todos possam contar a favor da democracia e não contra ela.

O clima de guerra de identidades vivido atualmente, nos remete muitas vezes a perda da espontaneidade em alguns casos ou mesmo ao seu excesso, em que um grupo não respeita a verdade do outro, caracterizando ou a paralisia por um lado ou a agressão por outro. A paralisia permite que a dor continue adoecendo, quando ativos sem ataque, talvez se possa buscar o que verdadeiramente liberte daquilo que escraviza. Somente uma analise pessoal, para além das massas cegas doutrinadas, se possa apropriar-se de si mesmo com a finalidade de entender o próprio lugar no mundo, em detrimento de deixar-se a deriva, paralisado ou guerreando contra as próprias sombras.