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Atores da violência

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Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Era sexta feira e eu me dirigia para casa. Final da semana e eu pensava no aconchego do meu lar, na companhia agradável dos familiares e amigos, no descanso merecido. Ao ligar o rádio do carro, passei a ouvir notícias que num primeiro momento me deixaram confusa: bombas estourando do lado de fora de um estádio de futebol em Paris durante um jogo amistoso entre França e Alemanha. Imaginei que seriam torcedores, mas as notícias continuaram e falavam em tiroteio em restaurante, homem bomba, local onde acontecia um show de rock, invadido e pessoas sendo mantidas reféns. Logo cheguei em casa e  meus familiares estavam em frente à TV , chocados com as notícias diretamente de Paris. Todos sabem o que aconteceu.

Diante de fatos tão violentos, tão surpreendentes, fomos inundados por inúmeros sentimentos: susto, medo, tristeza, impotência, raiva, … Nos perguntamos “O que está acontecendo com as pessoas? Que mundo é este? Tanto desenvolvimento tecnológico, pessoas vivendo 100 anos, e ainda acontecem barbáries como essa?”

Num artigo de 1915, durante a primeiro Guerra Mundial, Freud faz uma reflexão: “o indivíduo que não é ele próprio um combatente – e dessa forma um dente da gigantesca engrenagem da guerra  –  sente-se atônito  em sua orientação e inibido em seus poderes e atividades.” Ou seja, nos sentimos impotentes diante do fato e sem saber o que fazer ou o que pensar.

No dia seguinte passamos a receber as informações sobre os atentados, porque e quem causou tudo isso. E tivemos a informação que foi o EI – Estado Islâmico. Quem são eles? Um grupo de pessoas que usa a religião para cometer atrocidades. Vivem de forma primitiva, num regime ditatorial, onde as mulheres são tratadas como escravas, sem nenhuma liberdade. Para arregimentar jovens para seu grupo fazem uso de propaganda enganosa, via internet, com promessas de um mundo perfeito.  Muitos destes jovens são de origem islâmica que se criaram em outros países. Estão voltando para o lugar de onde seus pais ou avós saíram um dia em busca de uma vida melhor.

O que faz estes jovens acreditarem nesta utopia? Será que não conseguiram se adaptar, não conseguiram se integrar na nova cultura, sentem-se diferentes, desvalorizados, é tanta a insatisfação que acreditam em voltar às origens como solução…? Não sei a resposta e mais uma vez me valho de Freud em 1915: “Já dissemos a nós mesmos, sem dúvida, que as guerras jamais podem cessar enquanto as nações viverem sob condições tão amplamente diferentes, enquanto o valor da vida individual for tão diversamente apreciado entre elas e enquanto as animosidades que as dividem representarem forças motrizes tão poderosas na mente.” Cem anos depois as diferenças continuam imensas, os povos parecem se distanciar cada vez mais.

Também foi noticiado que estavam acontecendo em alguns países da Europa, manifestações contra a entrada de estrangeiros, alguns falando em fechar fronteiras, demonstrações de ódio racial e descriminação.

Se num momento ficamos chocados com a violência dos atentados, em outro nos chocamos com a violência da reação das pessoas dos países ditos civilizados. Conforme refere Freud, se pensamos que o desenvolvimento, a educação e a civilidade vai “erradicar” as tendências agressivas e “más” do ser humano nos enganamos. Não existe erradicação do mal. Ele pode ressurgir a qualquer momento e com toda sua força. Porque na verdade temos as duas tendências: de ser bom e de ser mal, de amar e  odiar, na mesma pessoa. E ambos são essenciais.

A transformação dos “maus” instintos acontece pela necessidade humana de amor, ou seja, precisamos ser amados (pela mãe, pelo pai, …) e pela educação, aprendendo a obedecer as leis para sermos aceitos na sociedade. Podemos então pensar que estes jovens suicidas que cometeram os atentados não tinham o que esperar da vida?

Uma situação extrema como estes atentados pode provocar uma regressão na civilidade de algumas pessoas que pode ser restaurada quando as ameaças cessarem. Será o caso dos manifestantes revoltados com os atentados?

Porque eu trouxe este assunto? Porque fiquei pensando nos pais destes jovens suicidas e no que eles não conseguiram ver em seus filhos. Pais que provavelmente abandonaram sua pátria em busca de uma vida melhor para sua família. Talvez, sem perceber, tenham colocado dentro dos filhos sua dor, tristeza, sua amargura.

E aqui, na nossa realidade, que também sofremos com a violência, o medo e a insegurança, quantos pais não conseguem enxergar seus filhos, suas dores, suas angustias? Já pararam para pensar na importância de olhar, falar, acolher, amar? Que tempo dedicam a isso?