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Adolescência normal ou patológica?

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Por Anna Paula Luz Flores , Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/04536

Mais do que em qualquer outro período da vida, a questão do normal e do patológico se apresenta de forma mais tênue na adolescência. A variedade dos comportamentos, a dificuldade em estabelecer certos limites e uma identidade mais madura, o papel da família e do ambiente social, são alguns dos tantos eixos de ajustamento no desenvolvimento que tendem a gerar muitas incertezas nesta etapa da vida.

Devemos considerar que o adolescente é um ser em desenvolvimento e o que poderá ser “anormal” em uma etapa, em outra deve ser compreendido como esperado. Perceber o que é o normal e o que é patológico não é difícil quando as alterações comportamentais e psíquicas estão muito exacerbadas ou são de longa duração, no entanto, todo o comportamento deve ser interpretado por si próprio e posteriormente confrontado com o conjunto de comportamentos do sujeito analisando a harmonia, a fluidez desses grupos de comportamentos ou pelo contrário a dissonância e a rigidez. O que seria considerado problemático na vida adulta é plenamente aceitável nesta fase de desenvolvimento

A adolescência é um momento repleto de mudanças, de transformações subjetivas, corporais e relacionais. Pode ser considerada um período de crise, momento de profundas mutações, incertezas e questionamentos. A busca por identidade pessoal norteia o comportamento adolescente e sentimentos de confusão e solidão fazem parte desta etapa.

A transição da infância para a adolescência marca uma real perda para a família, a perda da criança. Não apenas o adolescente sofre modificações e deixa de sentir-se criança, como também os pais que estavam acostumados a lidar com o filho pequeno, se deparam com um filho crescido, com desejos e vontades próprias. Normalmente este período coincide com reavaliações de projetos de vida dos pais, tanto no campo pessoal, como conjugal e profissional. Isso possibilita o estabelecimento de novas relações que podem ser tanto conflituosas como abrir a possibilidade para reformulações.

Portanto, assim como os jovens, as famílias também podem ser acometidas de sentimentos de incertezas e sofrem com as mudanças desta etapa do ciclo vital. Muitas transformações físicas e psicológicas estão em plena evolução e tanto os pais quanto os adolescentes vivenciam mudanças biológicas e lutos emocionais. A participação dos pais nessa fase da vida é de suma importância cabendo a eles a modulação das atitudes do adolescente que apresenta um limite entre o saudável e o patológico. É importante também o enfrentamento de conflitos entre gerações para que se possa compartilhar esse trajeto com os adolescentes sempre respeitando a busca pela independência que é característica nessa fase.

Por isso, a avaliação e o diagnóstico na idade de crescimento sempre apresentaram grandes dificuldades. Do ponto de vista diagnóstico não é possível transferir os quadros clínicos e sintomas psicopatológicos dos adultos para a idade de crescimento, a não ser nos casos de patologias em estágio inicial que apresentam uma forte estabilidade ao longo do tempo, como os distúrbios de caráter autista. Além disso, o significado psicopatológico de alguns sintomas clínicos varia e assume diferentes funções e sentidos ao longo do tempo e pode, com o passar dos anos, haver uma descontinuidade da sintomatologia presente na idade de crescimento. Por outro lado, os quadros evolutivos manifestados por crianças podem apresentar uma linha de continuidade no âmbito dos processos psicopatológicos que os apoiam.

Considerando diagnósticos específicos estreitamente ligados ao processo de crescimento, algumas manifestações aparecem apenas nessa fase e são próprias da interação de causas específicas que se reúnem para determinar um comportamento condizente com a fase de desenvolvimento, como a impulsividade na adolescência. É possível concluir que existem aspectos da adaptação na idade de crescimento que podem parecer patológicos, mas na realidade são expressões da alternância dos processos nas várias fases do desenvolvimento saudável.

Para definir os caminhos que resultam na psicopatologia é fundamental considerar a influência tanto dos fatores de risco quanto dos de proteção (que promovem a adaptação e reduzem o impacto do estresse). Ambos podem ser próprios do indivíduo ou estar ligados ao contexto em que ele vive e intervir em vários momentos no decorrer do desenvolvimento. Os aspectos mais relevantes da nova perspectiva introduzida pela psicopatologia do desenvolvimento são a consideração do ambiente social no qual a criança cresce e os aspectos evolutivos que caracterizam a expressão sintomatológica em cada faixa etária.

Por isso, o processo diagnóstico exige que, além de uma análise feita com base nas queixas, na história de vida do paciente e nos comportamentos manifestos, seja realizado um estudo profundo sobre o percurso do desenvolvimento, o funcionamento do sistema familiar, as características dos pais, os modelos de interação que influem na constituição e amadurecimento do indivíduo. É preciso levar em conta também os aspectos ligados à afetividade, à linguagem, à cognição, às habilidades motoras e sensoriais.

Levando em consideração que o adolescente tem de enfrentar no seu dia-a-dia muitas exigências no que diz respeito à relação consigo próprio, com o corpo, com os amigos e com a sua família e que tais exigências funcionam como pressões e fazem com que ele viva sentimentos e emoções extraordinariamente fortes e potencialmente desorganizadoras, a psicoterapia entra para facilitar a reflexão sobre o processo de mudança físico-emocional que enfrentam. Ajuda no auto-conhecimento, na gestão dos conflitos, permitindo que tome decisões pessoais e profissionais de forma mais consciente e adulta.

O trabalho do psicoterapeuta oferece um espaço “neutro” com uma escuta específica e atenta de um profissional especializado, para que o adolescente possa se sentir a vontade para falar de suas angústias, desejos, anseios, medos, ideias e dúvidas buscando compreender questões que normalmente surgem nesta fase do desenvolvimento. A psicoterapia abre espaço para o adolescente pensar sobre essa nova condição de existir e para sentir-se acompanhado neste momento de tantas mudanças, o que pode possibilitar um amadurecimento e desenvolvimento pessoal.