Por Carolina Rodrigues Azevedo, Psicóloga – CRP 07/19699

Todo momento crítico demanda de nós adaptações, nem sempre fáceis. Esses dias ouvi, acerca do momento de pandemia em que vivemos e de suas consequências (sobretudo negativas), que “estamos todos no mesmo mar, mas em barcos diferentes”, reeditando o popular consolo “estamos todos no mesmo barco”.
Dizem os conhecedores náuticos que em tempos de tormenta é melhor navegar a favor do vento e das ondas. Porém, em mar muito agitado, deve-se fazer o contrário, ir contra as ondas, em ângulos específicos.
Reflito sobre o isolamento social ao qual estamos submetidos também como uma parada estratégica para podermos avançar em outra direção. Está posto o convite para olharmos pro interior do “barco”, a fim de conhecermos nossa estrutura e os equipamentos que temos disponíveis.
No cenário em que vivemos é tempo de olharmos pra dentro de casa, pra dentro dos armários, pra dentro de nós. É tempo que falta pra todos os desejos e expectativas que tínhamos planejados. É tempo que sobra pra mexer e organizar as gavetas, repensando o que é essencial e essência.
É tempo de poder nos (re)conectarmos com nós mesmos, mas também com aqueles e com aquilo que nos é vital. É tempo de desapegarmos das vestes que já não nos servem mais, de passarmos adiante, de nos doarmos mais pro outro. É tempo de nos descobrirmos em nós mesmos, de sentirmos o impacto de estar em nossa própria companhia, de nos (re)inventarmos, de entrarmos em contato com nossas habilidades (muitas vezes deixadas de lado no dia-a-dia) e de podermos tolerar nossos limites. É tempo de pedir ajuda também, de nos reconhecermos em nossas fragilidades, ansiedades e medos.
Quando o mar está muito agitado, a orientação dada aos navegadores é que só fiquem fora da cabine as pessoas indispensáveis ao seu comando e, assim mesmo, equipadas com coletes salva-vidas e outros itens de segurança. Não existe perigo maior do que cair no mar durante uma tempestade!
Para o momento em que vivemos também é necessário cautela e controle. É preciso que estejamos conscientes da realidade que nos é imposta e dos mais variados riscos que corremos, mas sem deixar com que isso nos impeça de seguir adiante.
No mau tempo, mesmo se o barco estiver ancorado, o motor ligado poderá ser útil para compensar a intensidade do vento e das ondas na âncora. O mesmo vale para os dias atuais, quanto mais estivermos “ligados” a nossos pensamentos e sentimentos nesse contexto, mais teremos recursos disponíveis para lidar com esta condição um tanto quanto nebulosa.