Por Raquel Schwartz Henkin, Psicóloga – CRP 07/22781

O que faz com que um evento seja traumático para uma pessoa e não para a outra, que foi a ele igualmente submetida? Diante da mesma situação adversa, pessoas podem apresentar reações completamente diferentes. Nesse exato momento, por exemplo, o mundo todo está passando por uma pandemia, mas ela está impactando cada país, cidade e comunidade de formas extremamente distintas. A pergunta “o que faz com que isso aconteça?” seria facilmente respondida pela maioria das pessoas: acúmulo de riquezas, estrutura sanitária, existência de um sistema de saúde eficiente, comportamento da população, entre outros fatores. Do mesmo modo que toda a estrutura e experiências de uma nação influenciam na forma como ela será afetada por uma pandemia, existem inúmeros fatores idiossincráticos que fazem com que cada indivíduo lide de formas diferentes com as adversidades da vida.
Durante esse período de crise, observamos algumas pessoas se reinventando, criando novas formas de trabalhar, de morar, de comer, de se exercitar, enquanto outras se encontram paralisadas diante do medo e da incerteza, sem conseguirem se recuperar da sensação de que tiveram seu “tapete puxado”. Isso faz pensar que as situações não são necessariamente traumáticas em si, mas potencialmente traumáticas. A perda de um ente querido, um acidente, o rompimento de um relacionamento, uma doença grave, a presença de um vírus que ameaça a nossa vida; todas essas são situações que podem vir a ser traumatizantes. Se o indivíduo irá viver dessa forma ou não, dependerá de diversos fatores. Suas vivências anteriores, o grau de maturidade do seu “eu”, sua capacidade de elaboração, a flexibilidade dos seus recursos psíquicos, entre outros.
Recordo-me de um filme chamado “My Life”, de 1993, que conta a história de um homem que descobriu um câncer já em estágio avançado e precisou lutar contra a doença, ao mesmo tempo em que acompanhava a gestação da sua esposa. A triste história passa a ser bela e emocionante quando este homem, diante da morte iminente e da terrível perspectiva de não viver até o nascimento do filho, se defronta com seus aspectos mais frágeis a ponto de recordar memórias traumáticas da sua infância, o que permitiu que se reconectasse com os pais, com os quais manteve uma relação distante e de muitas mágoas durante grande parte da sua vida. Talvez esse homem tenha precisado deparar-se com a sua impotência para que pudesse voltar a viver psiquicamente, mesmo que a beira da morte. A doença, com seu enorme potencial traumático, para ele foi transformadora.
Encontramo-nos diante de um mundo em transformação, sendo acometidos por mudanças drásticas, as quais não planejamos nem desejamos. Assim como não é possível quantificar os efeitos socioeconômicos dessa pandemia, os efeitos psíquicos e emocionais também não são previsíveis nem serão iguais para todos. Situações como a que estamos passando despertam emoções únicas e poderosas, gerando impactos diferentes em cada pessoa, pois são somadas ao momento de vida, a crises pessoais e a estrutura emocional de cada um para lidar com o temor do desconhecido.

A realidade precisa ser encarada na sua dureza e as emoções precisam ser vividas, sentidas, mas também pensadas. A negação, que utilizamos diante da impossibilidade de lidar com a dor da realidade, de nada ajuda na elaboração, pelo contrário, é um prato cheio para a constituição do trauma. A esperança se encontra no desejo de viver e de sobreviver a este e a outros momentos difíceis. E que ela nos impulsione a pensar em caminhos alternativos, estratégias para seguir buscando sentido para o que está sendo vivido e, quem sabe, na melhor das hipóteses, promova transformação.