Por Larissa Mendonça Lütkemeyer – Psicóloga,  CRP 07/16189

A relação do homem com o trabalho, desde a revolução industrial, vem se intensificando cada vez mais. Em 1936, Charles Chaplin já retratava essa relação no clássico “Tempos Modernos”. No filme, o personagem de Chaplin adoece devido à exaustão ocasionada pelo excesso de trabalho em circunstâncias que não levavam em consideração suas condições físicas ou psicológicas.A exigência do melhor desempenho no menor tempo possível e a pressão pelo resultado já se faziam presentes.

Muitos anos se passaram desde então. Mas como será que nos relacionamos com o trabalho nos dias de hoje?Quantas horas do nosso dia dedicamos ao nosso emprego ou ocupação? E em que condições (físicas e psicológicas) realizamos o nosso trabalho? Você já pensou sobre isso?

A exigência social por desempenho e resultado segue muito em alta. O uso do celular, da internet e das redes sociais diminuiu muito as fronteiras entre a vida pessoal e a vida profissional. Com a possibilidade de estarmos 24 horas conectados com o mundo, não é incomum vermos alguém respondendo mensagens de trabalho muito além do seu horário de expediente. Isso, muitas vezes, pode fazer com que não consigamos desligar a mente dos afazeres relacionados às obrigações laborais e, assim, vamos aumentando o número de horas dedicadas ao trabalho e, consequentemente, diminuindo as horas disponíveis para outras atividades: de lazer, de descanso e de interação social.

Cada um de nós tem o seu limite pessoal e particular do que é aceitável ou inaceitável, do que faz bem ou mal para si, e reage de uma forma ao transpor esse limiar. Ultrapassar seus limites, dizendo sim quando deveria dizer não, trabalhando muito, dormindo pouco, alimentando-se mal, tendo pouca interação social e poucos momentos de lazer, pode levar a uma sobrecarga física e psíquica que pode resultar, literalmente, num transtorno: a Síndrome de Burnout (burnout em inglês significa queimar-se por completo ou esgotamento).

Em 1974, o psicanalista alemão Herbert Freudenberger criou o termo “burnout” para descrever os sintomas que ele mesmo sofria. Foi a primeira descrição da Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional, caracterizada pelo estado de tensão emocional e estresse crônico provocados por condições de trabalho desgastantes. Em 1999, o Ministério da Saúde brasileiro incluiu o burnout na lista de doenças relacionadas ao trabalho e, no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) atual, ele está relacionado aos transtornos mentais e do comportamento relacionados com o trabalho.*

Na prática, quem sofre dessa síndrome refere um esgotamento físico e mental, uma exaustão, um cansaço que não passa com folgas, férias ou atestados médicos, uma sensação de esvaziamento, de ter passado dos limites e não ter recursos físicos ou emocionais para sair dessa condição, falta de perspectivas e sensação de ineficácia. Além disso, dificuldades de concentração, dores de cabeça e musculares, alteração dos batimentos cardíacos, problemas gastrointestinais, insônia, alterações do apetite, alterações repentinas de humor, isolamento, negatividade, desesperança, sentimentos de fracasso, incompetência e insegurança, são outros sintomas também relacionados. Eles podem surgir de forma leve, mas tendem a piorar com o passar dos dias.

Profissionais que trabalham longe da família, lidam com situações estressantes e de perigo ou têm o rendimento avaliado por produtividade são os que têm maior probabilidade de desenvolver a doença. Não por acaso, alguns dos profissionais que mais sofrem com esse problema são agentes da segurança, controladores de voo, profissionais da saúde, bancários, executivos, professores, jornalistas, motoristas de ônibus, atendentes de telemarketing, entre outros. Além da sobrecarga ou frustração com o trabalho, características como perfeccionismo, necessidade de se mostrar indispensável e ser reconhecido por seus feitos para se sentir satisfeito, podem também aumentar o perigo para desenvolver o problema.

Se você se identifica com alguns desses sintomas, é preciso procurar um psicólogo ou um psiquiatra e relatar o seu sofrimento com detalhes.Assim, o profissional poderá fazer o diagnóstico e, a partir daí, promover o tratamento adequado: com psicoterapia e, se necessário, medicação para controlar os sintomas, quando muito intensos. Na psicoterapia encontramos acolhimento e a possibilidade de conhecer melhor nossos limites e jeitos de encarar e reagir ao trabalho e à vida em geral. Isso permitirá adquirir uma sensibilidade para perceber o problema e criar estratégias para não cruzar essa fronteira novamente, podendo, então,traçar novos planos para o futuro.

Trabalhar para viver e não viver para trabalhar, ter uma vida saudável, permitindo-se ter hobbies, momentos de lazer e interação com família e amigos, são atitudes importantes para modificar a relação com o trabalho e minimizar o impacto negativo que ele pode ter na sua vida. Além disso, aprender a perdoar seus erros e impor alguns limites para si mesmo e para os outros também é fundamental.

*Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde do Brasil (OPAS Brasil), a partir de 2022, estará incluído no CID-11 como um fenômeno ocupacional, com a seguinte definição: “Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho; e redução da eficácia profissional”.

Fontes: Organização Pan-Americana de Saúde do Brasil (OPAS Brasil), Ministério da Saúde, Revista Saúde, PEBMED.