Por Letícia Schmitz, Psicóloga – CRP 07/18830

Certa vez, durante um atendimento, um paciente questionou como eu lembrava de tantos detalhes, de assuntos que já havíamos conversado em sessões anteriores sem ter anotado nada durante a sessão. Comentei que a mente é a ferramenta de trabalho de um psicoterapeuta e que ficam guardadas as informações mais importantes ditas em uma sessão.

Em outra ocasião, outro paciente fez uma pergunta um tanto pessoal, a qual ele gostaria muito que tivesse sido respondida, ao que eu, antes de pensar em responder, fui tentando investigar os motivos da pergunta, as fantasias que o paciente tinha a respeito daquele assunto, os sentimentos que foram despertados para gerar tal questionamento.

Esses são alguns dos exemplos de demonstram a importância dos psicoterapeutas que utilizam da abordagem psicanalítica em seus atendimentos se manterem neutros, ou seja, como um espelho que reflete a imagem dos pacientes e não como pessoas que dão opiniões, conselhos ou até mesmo dicas e sugestões do que fazer em determinadas situações.

O paciente quando em tratamento, vai utilizar da pessoa do terapeuta para projetar sentimentos e vivências que passou ao longo da vida naquela relação, que chamamos de relação transferencial. Se o terapeuta conta sobre a sua vida, divide situações que acontecem com ele, sem que dê espaço para serem conversadas as fantasias do paciente, ele não está contribuindo para que os sentimentos do paciente possam ser (re)vividos. Assim como, se o terapeuta seleciona assuntos (como p.ex. fazendo anotações na frente do paciente) é como se o profissional demonstrasse o que acredita ser mais relevante naquele discurso, enquanto que esta classificação só pode ser do paciente e de mais ninguém.

Da mesma forma, se o terapeuta demonstra opinião, crítica, julgamento moral ou expressa algum tipo de concordância com o paciente, isso pode impedir que o paciente consiga pensar a respeito de si mesmo, refletir sobre o que é necessário, como se ele obtivesse uma resposta pronta, e com isso, a autonomia que o paciente pode adquirir fique ameaçada.

Freud em seus escritos de 1912 já expressava aos aspirantes sobre as recomendações neste tipo de tratamento. Deste modo, a psicoterapia de orientação analítica é conduzida desta maneira para proporcionar ao paciente maior autonomia, maior espaço de reflexão a respeito de seus sentimentos e comportamentos. Então, se em algum momento o terapeuta se abster de responder algo ao seu paciente, isso não significa que ele não queira responder, mas sim que ele está trabalhando com seu paciente para compreender o significado da pergunta e o que a resposta pode influenciar na vida deste paciente, se isso o ajudará na compreensão de seus conflitos ou não e este deve ser um dos indicativos para que haja uma resposta por parte do terapeuta, sempre visando o benefício do paciente.