Por Keylla Jung, Psicóloga – CRP 07/07683

Em uma das muitas versões sobre a origem de Eros, diz-se que antes de ser representado como um deus do Olimpo, seu surgimento é descrito como uma das primeiras criações das forças naturais que fizeram nascer o mundo. Por conta dele, os seres se aproximaram. Eros é força que liga, une, mistura, cria, anima, dá variedade às espécies, ou, em uma única palavra – é o Amor.

Na narrativa de Ovídio, Metamorfoses, Eros é filho de Afrodite e Ares. Sua mãe, preocupada pelo fato de seu filho permanecer como criança que nunca crescia, comentou com a deusa da prudência, Métis, que, por sua vez, lhe sugeriu ter outro filho e assim dar um irmão a Eros. Algum tempo depois nasceu Anteros, antítese de Eros. Aquele, tão forte quanto o irmão, tem em sua força o poder de separar, desagregar, romper e confrontar. Foi nos limites marcados entre um e outro que Eros passou a crescer e deixou de ser criança. A presença de Anteros, e, tudo que nele era diferente de Eros, serviu para colocar ordem e limites ao Amor. Este, que pode ser inconsequente como uma criança, sabe que ao atingir os corações com suas flechas, é capaz de fazer surgir intensos sentimentos de desejo e bem querer, mas não sabe que Amor também pode fazer doer.

Conforme nos conta o mito de Eros, para que pudesse se desenvolver e amadurecer foi preciso a presença de Anteros, ou anti-Eros, um outro diferente dele, um companheiro para aprender a compartilhar e conviver. Assim, ainda hoje, o Amor, quando se sente sozinho e carente, busca um outro para preencher seu vazio. É força que precisa ser correspondida para prosperar, pois Eros não cresce quando está só.

Anteros ficou conhecido como o deus do amor retribuído, mas também como aquele que pune o amor não correspondido, ou o vingador daqueles que desprezam Eros. Algum tempo depois de seu nascimento, Anteros foi dado a um pescador para ser criado e, quando partiu, Eros novamente se viu só e sem limites, voltando a ser criança que nunca mais cresceu.

O que nos narram os mitos se atualiza na contemporaneidade. Os deuses, suas características e interações, se apóiam em uma linguagem vigente para falar de maneira peculiar a respeito do viver humano. Hoje, essas alegorias estão repaginadas com ares de modernidade. Somos constituídos por corpo, mente e relações. Somos onipotentemente movidos por forças que buscam a satisfação, mas que também evitam o desprazer e então, convenientemente, passamos a considerar o que está fora de nós. Nascemos acreditando que a força de nossos desejos é suficiente para nos realizar, porém, tal qual ocorreu com Eros, Anteros se faz necessário em nossas vidas. A força da realidade, do limite e do outro marca fronteiras que nos ensinam sobre a alteridade, o respeito e as diferenças. O amor é uma experiência que infere um encontro de no mínimo dois. O eu e o corpo, na relação autoerótica; o eu e o outro, na relação interpessoal; o mundo interno e a realidade externa, na constituição psíquica; o indivíduo e o coletivo, nas relações políticas.

A mesma força que une também gera atrofia sem a força que a contrasta. Não fosse o desempenho de Anteros o ser humano estaria condenado por seu narcisismo a uma existência torpe ou onírica. Nesse sentido, não seria equivocado considerar que, na linguagem dos sentimentos, o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. O anti-Eros ensina a consideração pelo diferente provocando o rompimento com a ilusão. A presença de Anteros obriga Eros a reconhecer que até mesmo ao todo poderoso Amor impõe-se a insuficiência. A completude não está em Eros, mas no reconhecimento do que lhe falta, pois, Amor sem limites não é benesse. Ao contrário, é força que sufoca, anula e até mesmo mata.

Por fim, é sempre prudente lembrar que a presença de Anteros não é garantida. A qualquer momento ele pode partir e deixar o presunçoso Eros entregue à eterna e inconsequente infantil maneira de amar.