Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

Vivemos hoje uma onda de embriaguez que influencia pensamentos, sentimentos e comportamentos a partir de uma mídia digital que não filtra, apenas replica sem questionamentos.  Aantes acalorada reflexão sobre os fenômenos, geradora de uma capacidade de pensar ampliada, está cada vez mais cedendo lugar para conclusões prontas e discursos fechados.

O mal estar na cultura é um texto de fundamental importância nesta reflexão, escrito pelo pai da psicanálise, no século XX enquanto importante interprete da humanidade e seu mundo contemporâneo.Publicado em 1930, essa obra traz a reflexão de um Freud nos altos dos seus 73 anos, já mais pessimista, revelando ser a ciência tão ilusória quando a religião. Freud nos fala de uma cultura capaz de nos distinguir de nossa natureza animalesca, embora seja capaz de gerar “mal estar”, denotando a desproteção que ela também revela. É interessante que esse termo também se aproxima de outro, a partir de um ensaio escrito em 1919, chamado “O estranho” e que destacado pelo próprio Freud nos causa um mal estar do secreto desvelado. Assim como a mídia digital que parece provocar essa sensação de total descortinação,numa época em que é possível deixar vir à luz até mesmo o que nos era secreto.

Antes o que era mediatizado pela comunicação, atualmente tem sido replicado em vias diretas e infelizmente a violência e agressão também estão sendo expressas assim. Aquele que recebia passivamente a informação pelo rádio ou televisão, atualmente repassa essa informação ou mesmo a cria individualmente via redes sociais, sem precisar do grupo para expressá-la, enquanto “influenciador digital”. Antigos modos de viver a política, por exemplo, são substituídos por mais um modelo de consumo.  As eleições são definidas por curtidas em redes sociais, que desvelam esse estranho e esse familiar, no qual somos controlados via algoritmos.

Assistimos especialistas falando cada vez mais do cuidado em postergar o quanto possível as telas digitais no desenvolvimento das crianças (smatphones, televisão, tablets), pois empobrecem o olhar tão necessário, impedindo a interação e o diálogo do vínculo. Em um passar de dedos via toutch scream,pinçamos uma imagem e a transformamos no que desejamos, assim como descartamos um anúncio de youtube. O outro é igualmente dominado e ignorado na medida em que nos frustra. O ser humano se configura em novos tempos, excluindo de sua vida aquilo que o incomoda tendo a possibilidade de se afastar daquilo que não quer interagir.

Cada vez mais vemos relacionamentos digitais, onde as vídeo chamadas trazem em si uma ilusão da interação e da presença, os grupos de whatsapp parecem criar um constante encontro desencontrado,em que palavras fora de contexto são lançadas num movimento superficial que mescla entre“interprete-me se puder” ao“é assim que é”. Palavras já não tem mais um endereçamento, mas são soltas a serviço do individual.  O olho no olho, que somente se possibilita pela câmera, também é a prova de um desencontro ou encontro narcísico.Para o desentendimento e o vendaval de ofensas é um curto passo. “a exposição destrói a interioridade”gerando tensão nas relações e no comportamento.Tu és “assim”, deverias ser “assado”. Ideia que decorre do “não sei lidar com esse dado”.  Somos nós que estamos virando robôs a serviço do mercado e da ciência que já nos configurou assim? Quando não detectamos o que nos é familiar surtamos, entramos em colapso como as máquinas? Que mal estar tão grande é este pelo qual somos tomados hoje em dia? Onde está nossa subjetividade para além de todo esse controle, essa gaiola na qual a mídia digital parece nos colocar?