Por Camila Trevisol Fernandes, Psicóloga – CRP 07/23581

A vivência de violência doméstica no âmbito familiar tem um efeito devastador no desenvolvimento emocional das crianças, podendo acarretar em consequências para toda a vida. Entende-se por violência, toda ação ou omissão capaz de provocar lesões, danos e transtornos que afetam o bem-estar do indivíduo.

A violência não necessita ser contra a criança, mas também pode vir devido à exposição do indivíduo como testemunha da agressão dos seus genitores. Os problemas verificados são semelhantes àqueles observados em crianças que foram vítimas diretas de abuso físico e emocional.

O lugar onde deveria ser um espaço afetivo, amoroso e de cuidados com a criança, também se torna palco de medo, tensão e desamparo. A infância é uma fase da vida extremamente importante para o desenvolvimento físico, psíquico, emocional e social dos indivíduos. A família tem um papel fundamental e influenciará na sua formação da personalidade, na qualidade de vida, na construção dos seus valores, nas suas ideias sobre si mesmas, sobre o outro e sobre o mundo em que vive.

Cada um vai experimentar e compreender a violência de modo singular, de acordo como percebe a realidade e interage com ela. Porém, diversos fatores podem interferir na compreensão desse impacto psicológico, como a idade, gênero, frequência, severidade dos conflitos, formas de expressão da violência e suporte familiar e social.

Um lar onde há um clima de tensão e de conflito iminente pode trazer implicações que vão desde marcas físicas, psicológicas, emocionais, cognitivas e comportamentais, além de problemas como baixo desempenho escolar, dificuldade de relacionamentos interpessoais e sociais. Acredita-se que quanto mais a criança for exposta aos conflitos, e quanto mais intensa for à violência testemunhada, piores serão as suas consequências.

O trauma da violência pode ocorrer em dois tempos, o primeiro é o trauma propriamente dito e o segundo é o não reconhecimento por um terceiro, a quem a vítima pede auxilio, necessitando de cuidados, apoio, proteção e solução.

As crianças podem experimentar sentimentos depressivos, ansiedade, desamparo, medo, insegurança e vergonha. Em decorrência, podem apresentar atitudes de vigilância e comportamentos de irritabilidade e agressividade. Além disso, as vítimas da violência podem ter dificuldade para manter uma visão integrada das pessoas e buscar uma forma incessante de proteção e segurança.

As experiências consideradas traumáticas vividas ao longo do desenvolvimento, podem cair no silêncio, mas nunca no esquecimento. Esses sentimentos decorrentes do trauma necessitam de expressão, permanecendo atuantes e manifestando-se de outras formas, como sintomas, inibições, angústias e somatizações.

Os eventos traumáticos tornam-se parte da identidade do indivíduo, ocasionando efeitos na personalidade através da busca de uma nova construção de sentidos para o que foi vivido. Na vida adulta, muitas vezes, a vergonha pode tornar-se uma das impossibilidades de falar ou mesmo pensar sobre os acontecimentos, mantendo como uma forma de sofrimento psíquico e físico.

Por fim, a violência doméstica deve ser abordada não somente como um problema intrapsíquico, mas também considera-lo no contexto familiar, social e cultural. No futuro, na ausência de uma intervenção e elaboração, muitas vezes a vítima pode reagir diante de situações de agressões, como algo normal da vida, podendo reeditar a violência de forma ativa ou passiva, ou seja, como agressor ou novamente como vítima.