Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

É muito comum em escolas de educação infantil, mais especificamente nas que educam crianças com menos de quatro anos, que aconteçam situações de difícil manejo, como mordidas, agressividade e choro. Alguns professores observam que as situações escapam do que é esperado ao desenvolvimento saudável, percebem o sofrimento exagerado da criança.

 

Mas existe a crença de que “crianças tão pequenas não tem problemas”, ou seja, não haveria porque levar uma criança em idade pré-escolar para uma avaliação psicológica.

Infelizmente, em razão deste equivoco, muitas situações se agravam e os sintomas chegam intensificados aos consultórios.

Situações tornam-se muito complexas, às vezes diagnósticos demoram a serem feitos e perde-se um tempo valioso para o tratamento daquela criança.

 

Claro que o desenvolvimento infantil tem suas particularidades e as crianças em idade pré-escolar são sempre muito intensas e dinâmicas. Estão explorando o mundo. Tem interesses e curiosidades por tudo que há a sua volta. A grande interação com o mundo começa com a boca, inicialmente separando o que constituí o “eu” do que aquilo que constituí o “outro”. A criança tem o seu primeiro contato com o mundo pelo seio materno (quando amamentada dessa forma) ou pela mamadeira.

Ambos produzem satisfação e prazer.

Através dessa relação de prazer vai “experimentando” o mundo, levando tudo a boca, na tentativa de conhecer, saborear o mundo. Essa é a famosa “fase oral”, pois o órgão que produz prazer é a boca, sugando, fazendo bolhas, babando, emitindo sons, e por vezes mordendo.

 

Desde o nascimento existem impulsos agressivos e outros amorosos. À medida que o relacionamento com as primeiras figuras (geralmente os pais) vai se constituindo, o bebê passa a construir vínculos afetivos e a iniciar o desenvolvimento de seu relacionamento interpessoal. Esse primeiro contato se dá desde os primeiros dias e é ali que o bebê começa a conhecer o mundo e alicerçar sua personalidade. Sendo assim, é muito importante que ele se sinta amparado e protegido nesses primeiros dias, pois, do contrario, haverá consequências mais tarde. Esse serão os primeiros modelos identificatórios para o bebê.

A criança pequena tem dificuldade em dominar suas emoções, sejam elas agressivas, de frustração, raiva, amor, fome, entre outras. Então, quando não sabem o que fazer, choram, brigam, mordem, gritam… A psicanálise pontua que ao nascer somos comandados por uma estrutura psíquica que chama “id”. Essa instancia psíquica representa os impulsos, instintos, e desejos mais primitivos (fome, por exemplo). E exige atenção instantânea: não consegue tolerar a frustração. Pensando num bebê bem pequeno, quando ele sente frio, por exemplo, chora. Não consegue ser acalmado apenas com a promessa de que será atendido. Precisa ser atendido naquele instante e, só assim, se acalma.

Com o passar do tempo, e as interações sociais, vai se estruturando uma segunda instancia: o “ego”. Uma das suas funções é auxiliar o individuo a suportar as frustrações, os desejos não atendidos prontamente ou adiados.

À medida que a criança cresce e já domina algumas palavras normalmente, pode se tranquilizar se algum adulto nomeia o que está deixando ela aflita (ou seja, conversa com ela sobre o que pode estar acontecendo: “será que a fulana está chorando porque a fralda está suja? vou olhar a fralda da fulana”, etc).

O choro é relacionado a uma reação boa, pois é a forma que aprenderam de chamar alguém para atendê-los. É como se estivessem dizendo: “eu estou tentando lidar com isso, mas não estou conseguindo”. Por isso devemos evitar aquelas ideias pré-concebidas e tentar entender o que aquele bebê está querendo comunicar naquele momento. Alguns autores enfatizam que estar junto e observar os bebês é uma boa forma de conhecê-los, o brincar junto, estar atento as pequenas realizações, dar atenção em todos os momentos e não apenas na hora de impôr limites, é uma forma de deixar as crianças pequenas tranquilas. O acolhimento é a melhor alternativa para diminuir o choro dos pequenos.

Frequentes estudos em psicologia apontam que a agressividade é resultado de vários fatores, entre ele: a intensidade da raiva sentida no momento, o grau de frustração ambiental a que foi submetida aquela criança desde o nascimento, os reforços que recebem pelo comportamento agressivo, a imitação de outros comportamentos agressivos, o nível de ansiedade e culpa associados a agressão.

Há indícios suficientes de que a agressão é uma reação predominante, senão inevitável, à frustração. Quanto maior o nível de frustração, maior será a resposta agressiva. O entendimento da criança sobre o que pode frustra-la é bastante diferente do adulto, por isso é preciso evitar conclusões precipitadas e olhar cada criança de forma individual, pois cada um tem seu tempo, sua forma de reação.

O engodo de que permitir que a criança se defenda de uma agressão, uma mordida, mordendo o colega que a mordeu, por exemplo, é muito perigoso. Essa permissividade diante da agressão pode ser comparada a uma recompensa. Não se deve deixar que uma criança bata, morda, chute ou agrida de qualquer forma outra criança, ou mesmo um adulto. A melhor forma de ajuda-la é sendo firme e claro, porém carinhoso, com ela. É preciso compreender que aquela reação foi um impulso motivado pela raiva, mas isso em nada significa ser permissivo com a atitude ou agir de forma agressiva com a criança.

Deve-se sempre esta atento sobre o motivo que pode ter gerado a agressividade pois alguns momentos de instabilidade emocional fazem parte do desenvolvimento, porem o descontrole na maior parte do tempo ou excesso de agressividade são indicativos de que a criança não esta conseguindo lidar de forma positiva com alguma questão do seu desenvolvimento. Assim com a criança que nunca demonstra nenhum tipo de reação ou brabeza, que esta sempre tolerando todas as situações também merece atenção especial. Tais sinais podem indicar uma apatia ou falta de interação, sintomas comuns na depressão.

Todas essas questões devem ser pensadas e avaliadas por um profissional da área psi, que poder indicar o melhor tratamento.