Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

A transição para a maternidade constitui-se numa experiência deveras complexa para a mulher, pois envolve aspectos fisiológicos, neurológicos, afetivos, sociais e relacionais. Desde o período de gestação até o nascimento, inúmeras são as expectativas em relação ao bebê e o papel da mãe: “Serei capaz de cuidá-lo? Serei uma boa mãe? Como será a minha vida após a maternidade? Meu filho se desenvolverá de forma saudável?”

Durante os nove meses de gestação a mulher se prepara para a chegada do filho, mas quando o nascimento ocorre prematuramente, ou seja, antes de completar 37 semanas, não só a gestação é interrompida, mas, também, a gravidez psíquica. Esta brusca interrupção gera consequências emocionais importantes, tais como angústia de separação e perda, culpa, ansiedade e medo, principalmente pela possibilidade de sequelas ou óbito de seu bebê.

O nascimento de um bebê prematuro provoca um severo golpe à auto-estima da mãe, às suas capacidades de maternagem e ao seu papel feminino. A maioria dessas mães vivenciam um importante sentimento de culpa. A culpa surge pela interrupção da gravidez e por não poderem levar o bebê saudável para casa, associa-se a este fato a impossibilidade de visitá-lo logo após o parto, tendo que deixá-los aos cuidados dos profissionais do hospital.

Como o bebê prematuro é rapidamente afastado de suas mães logo após ao parto, elas podem experimentar uma sensação de vazio, uma espécie de amputação. E, durante essa separação, imaginam as piores evoluções possíveis: que o bebê está morrendo ou então que é anormal. Em situações favoráveis, este rompimento no relacionamento começa a diminuir já no primeiro encontro entre a mãe e o bebê. Mas apenas quando a mãe pode tocar e manipular seu filho é que o relacionamento é revitalizado podendo ela, finalmente, experimentar sentimentos maternos.

A experiência da prematuridade representa uma crise e necessita passar um processo de elaboração, cabendo aos profissionais da saúde ajudarem e facilitarem a transição para a maternidade. O apoio psicossocial à mãe do bebê prematuro também deve fazer parte da ação da equipe multidisciplinar do hospital. O contato materno precisa ser estimulado desde o início pela equipe para que se estabeleça o apego e a mãe consiga se vincular ao seu bebê e atender as necessidades dele.

Felizmente, atualmente, em muitas unidades de tratamento intensivo neonatal grupos de pais de prematuros são formados encontrando-se semanalmente para conversarem e trocarem experiências. Esses encontros propiciam, além de apoio, um alívio considerável a esses pais por poderem expressar seus sentimentos, angústias e receios mais íntimos. Pesquisas apontam que os participantes destes grupos visitam seus bebês mais frequentemente que os demais pais. Eles, inclusive, conseguem olhar, tocar e falar mais com seus bebês. Além disso, as mães emocionalmente apoiadas conseguem apresentar um maior envolvimento com seus filhos durante a amamentação.

E por último, mais do que informações ou conselhos, as mães precisam mesmo de recursos do ambiente que estimulem a confiança nelas mesmas e em seu papel de cuidadoras. Elas precisam fundamentalmente ser ajudadas a entrarem em sintonia com seus bebês e, uma vez que estejam sintonizadas com eles, elas saberão, exatamente, o que fazer para que eles se desenvolvam favoravelmente.