Por Larissa Mendonça Lütkemeyer CRP 07/16189

A maternidade costuma ser muito sonhada por grande parte das mulheres. A maioria delas idealiza esse momento e imagina seu bebê lindo e sorridente nos braços, despertando nelas somente os melhores sentimentos. Atualmente, na era das redes sociais, essas fantasias são ainda reforçadas pelas diversas postagens de mães felizes e contentes com seus rebentos fofinhos e tranquilos, afinal, poucos postam nas redes suas dificuldades e angústias. Porém, de fato, já durante a gestação é comum surgirem, junto com as expectativas, diversos sentimentos, alguns deles contraditórios inclusive. Ser mãe é mesmo uma das maiores realizações na vida de uma mulher e um momento de imensa felicidade, mas não é só…

A realidade pós-parto costuma ser bem diferente desse sonho ideal, principalmente nos primeiros dias e semanas após o parto. A gestação e o puerpério (período que tem início logo após o parto e se estende até a sexta ou oitava semana pós-parto) são períodos de muitas mudanças físicas e emocionais. Além das alterações que seu corpo sofre para gerar o bebê e depois para retornar ao estado pré-gestacional, também são necessárias muitas adaptações a situações novas. Agora surgem necessidades que antes não existiam, existe um ser que depende totalmente de suas percepções, decisões e atitudes e tudo isso impacta fortemente no estado emocional da nova mãe. Sentir-se mais sensível e vulnerável é muito comum nessa fase, assim como ter dúvidas e inseguranças, principalmente a respeito da sua capacidade para dar conta da nova vida e das necessidades do seu filho. Afinal, não é fácil se sentir controlada pelas constantes exigências desse pequeno ser que não lhe dá descanso, ter sua relação com o companheiro atravessada por um terceiro recém-chegado e pensar que sua vida provavelmente nunca mais será como antes. Em meio a tantas mudanças, novidades e adaptações um sentimento de solidão também pode aparecer de forma intensa.

É nesse contexto que pode manifestar-se a tristeza materna, ou Baby Blues. O Baby Blues é um estado que pode surgir nos primeiros dias após o nascimento do bebê e pode durar em torno de duas semanas. Nesse período é possível que existam momentos em que a mulher se sinta radiante e logo em seguida muito sentimental, chateada e chorando sem motivo. Algumas características do baby blues são: maior sensibilidade emocional, constante vontade de chorar, insegurança, impaciência, ansiedade, comentários autodepreciativos (como não ser capaz de cuidar do bebê), e ainda insônia e mudanças bruscas de humor. No entanto, esse estado não impede que ela realize suas atividades de rotina ou os cuidados com o bebê.

Diferentemente do baby blues, a Depressão Pós-Parto tem intensidade e duração maiores, podendo surgir logo após o parto, a saída do hospital ou ainda a qualquer momento durante o primeiro ano do bebê, repentinamente ou se desenvolvendo gradualmente. É caracterizada por uma tristeza intensa, desmotivação diante da vida, sensação de não ter forças para encarar a rotina e as tarefas do dia a dia, irritabilidade, choro frequente, sentimento de desamparo e desesperança, desinteresse sexual, ansiedade, sentimentos de incapacidade para lidar com situações novas. Em casos mais extremos, a mãe pode chegar até a rejeitar seu bebê. Logo, a depressão pós-parto é uma condição grave e que exige atenção profissional. O ideal é que, além do seu obstetra, a mãe seja atendida por um psicólogo e por um psiquiatra, caso haja necessidade de usar medicação para controlar os sintomas depressivos.

É importante termos consciência de que o estado emocional da mãe, tanto durante a gestação, quanto após o nascimento influencia diretamente no estado emocional do bebê e na relação que ambos vão estabelecer. Portanto, se a mãe está muito deprimida, se sentindo incapaz e demasiadamente insegura, certamente essa relação será abalada, gerando mais insegurança no bebê, que vai manifestar seu incômodo de alguma forma, podendo desde tornar-se mais choroso e irritadiço, até somatizar suas emoções através de sintomas corporais, como febres ou alergias, por exemplo. Essa relação mãe-bebê, claro, pode ser melhorada ao longo do tempo, mas as experiências inicias estabelecem marcas importantes no psiquismo da criança, que podem influenciar futuramente no seu modo de sentir e reagir aos acontecimentos posteriores. Assim, é essencial que a mãe atente para os seus sentimentos e cuide das suas emoções, antes e durante a gestação e após o nascimento do filho.

Para ajudar a mulher a enfrentar esse período naturalmente complicado e que exige tantas adaptações, é primordial que ela tenha uma rede de apoio com a qual possa contar. Antigamente, quando as mulheres tinham como principal atribuição cuidar dos filhos e do lar, elas contavam com a disponibilidade de suas mães, irmãs, tias e outras mulheres próximas para lhes auxiliar. Isso proporcionava um sentimento de acolhimento e de que não estavam sozinhas para lidar com todas as suas angústias, inseguranças e dúvidas. Hoje, essa realidade é bem diferente, a maior parte das mulheres trabalha fora, o que diminui muito esse respaldo dado à nova mãe. No entanto, esse apoio dos familiares, amigos mais próximos e, principalmente do companheiro, se faz muitíssimo importante, contribuindo positivamente para o aumento da segurança e confiança da mãe e diminuindo as chances de ela desenvolver sintomas mais graves.

Podemos concluir que tornar-se mãe não é um processo fácil. Ao mesmo tempo que é uma realização pessoal e promove muita felicidade, também gera frustrações e ansiedades, além de tantos outros sentimentos, variáveis em frequência e intensidade. Nesse cenário, a psicoterapia mostra-se como uma ferramenta positiva de auxílio para a mulher/gestante na preparação para a maternidade, na vivência desse período tão intenso que é o puerpério e na experiência diária da maternagem.