Por Larissa Mendonça Lütkemeyer CRP 07/16189

O que vem à nossa mente quando pensamos em CULPA? Partindo de uma rápida busca no Dicionário Online de Português, entre outras definições, culpa é a “responsabilidade por uma ação que ocasiona dano ou prejuízo a outra pessoa” ou o “sentimento doloroso de quem se arrependeu de suas ações”.

Podemos definir a culpa como a reprovação consciente ou inconsciente que a pessoa faz de um ato ou comportamento dela própria no passado. Associada a uma atitude que gera reprovação, a culpa desencadeia um novo sentimento de frustração pela percepção da contradição entre como fizemos e como deveríamos ter feito. Essa censura, desperta inconscientemente a necessidade de autopunição, no intuito de aliviar o sofrimento.

Freud, o “pai da psicanálise”, conceitua o sentimento de culpa como o resultado de uma tensão entre o ego e o superego, que se manifesta como uma necessidade de castigo. Para ele, “mau” é tudo aquilo que nos faz sentir ameaçados com a perda do amor. E, se perdemos o amor de outra pessoa da qual dependemos, deixamos de estar protegidos dos perigos e ainda ficamos expostos à manifestação da sua superioridade na forma de punição. No seu entendimento, inicialmente, a culpa viria do medo da perda do amor e a evitação do mau estaria vinculada ao medo de ser descoberto pela autoridade externa. Mais tarde, quando essa autoridade é internalizada, dando origem à instância psíquica que chamamos de superego, não existe mais diferença entre fazer o mau e desejar o mau, pois não se consegue esconder do superego os desejos proibidos. Assim, o superego assume sua característica sádica, atormentando o ego com o mesmo sentimento de ansiedade. Com a instauração do superego, somente a renúncia à satisfação do desejo já não é suficientemente libertador, então o sentimento de culpa se instala.

Assim, posteriormente, surge o medo do superego, esse agente crítico, tornando a punição uma manifestação instintiva por parte do ego que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico. Nesse caso, a agressividade que seria destinada para fora, é voltada para dentro de si mesmo. Apareceria então o sentimento de não ser bom o suficiente e, portanto, merecedor de castigo. Esse sentimento inconsciente de culpa e punição provoca, através da compulsão repetitiva, situações adversas, que darão motivos para queixas.

As clássicas cenas de filmes em que alguém sofre uma decepção e devora um pote de sorvete com o objetivo de compensar a sua frustração, pode servir como um exemplo desse mecanismo. Atitudes de procrastinação ou somatizações, como um mal-estar, uma dor de cabeça ou de estômago, também podem estar a serviço do superego punitivo. Se acompanhada de sentimentos de remorso, vergonha e medo de repetir o mesmo comportamento, a culpa pode originar uma sensação de que se está aprisionado, como se não houvesse saída. Nesse caso, a pessoa pode seguir vivendo como se a situação geradora da culpa fosse eterna, segundo a ideia inconsciente de que todo culpado merece punição, portanto, nunca podendo desculpar-se e infligindo-se o castigo da auto recriminação. Quando esses sentimentos persistem por muito tempo e mobilizam uma sensação constante de desprazer com a vida, surge a depressão.

Já a psicanalista Melanie Klein postula que, no desenvolvimento primitivo, a mãe é percebida de forma parcial, ou seja, ideal ou perigosa, boa ou má, conforme a resposta que manifesta em relação às necessidades do bebê. A satisfação das necessidades básicas gera um sentimento de segurança, que aumenta a gratificação em si e se transforma em parte importante da satisfação de receber amor. Pouco mais tarde, quando o bebê adquire condições para introjetar a mãe como pessoal total, ou seja, perceber que a mãe que gratifica é a mesma que também frustra, surge um conflito entre amor e ódio (pulsões agressivas) direcionados para o mesmo objeto (mãe). Esse conflito seria o gerador do sentimento de culpa e da necessidade de reparação. Assim, dá-se a tentativa de controlar os impulsos agressivos e os objetos, com o intuito de prevenir a frustração, impedir a agressão e o consequente perigo para os objetos amados. Em resumo, para Klein a culpa viria da fantasia agressiva e voraz de destruição da mãe frustradora e ativaria o impulso de curar esses danos imaginários e repará-la.

Esse impulso de reparação, quando atenuada a pressão do superego, geralmente, consegue afastar os sentimentos de desespero suscitados pelo sentimento de culpa, fazendo com que prevaleça a esperança. Nesse caso, o amor e o desejo de reparação da criança são inconscientemente estendidos a novos objetos de amor, portanto, a reparação consolida a possibilidade infantil de aceitar amor e incorporar a bondade proveniente do meio externo, exercendo, assim, uma influência positiva sobre o desenvolvimento humano. A reparação então, seria uma forma de elaborar a culpa e reconstruir a relação com os objetos atacados em fantasia e introjetados, de forma que a reparação dos objetos também seria uma reparação de si mesmo.

Essa perspectiva põe em evidência a existência de uma saída para o ciclo ação – reprovação – punição. Através dessas atitudes reparadoras, podemos encontrar novamente a satisfação consigo mesmo e a esperança “de dias melhores”.

De acordo com as definições de Freud e Klein acima, podemos entender que os processos inconscientes influenciam nossas ações e a forma como percebemos o mundo ao nosso redor. Em última análise, poderíamos dizer que a culpa surge da fantasia de controle sobre a vida, da busca pela perfeição. Quando algo foge do esperado, se manifesta a crença de que se fez algo que causou o acontecimento ruim. Essa sensação ilusória de poder é, na verdade, uma tentativa de superar a nossa real condição de fragilidade.

Entretanto, quando passamos a compreender que não temos o poder de controlar os outros ou as situações ao nosso redor e que somos responsáveis apenas pelas nossas atitudes, podemos assumir a RESPONSABILIDADE pelo que acontece conosco. Sermos responsáveis por nós mesmos, significa abrir mão da posição de vítima das pessoas e situações e implica num empenho constante na busca de conhecer o que motiva as nossas atitudes e escolhas, para que então possamos decidir de forma mais consciente e, consequentemente, façamos escolhas mais satisfatórias. Dessa forma, podemos abrir mão do sentimento de culpa ou atribuir a ele uma função produtiva – quando serve para nos conhecermos mais e avaliarmos nossas atitudes, aceitando que não se pode desfazer algo que já ocorreu, acolhendo os sentimentos envolvidos e decidindo como proceder dali em diante.

Nem sempre, infelizmente, conseguimos realizar esse processo de tomada de consciência e abdicação desse ciclo de culpa sozinhos. Esse é então o momento de pedir ajuda aos profissionais habilitados para auxiliar nessa jornada. A psicoterapia psicanalítica, como uma ferramenta de autoconhecimento, visa possibilitar o entendimento das motivações inconscientes que embasam nossas atitudes, daquilo que não percebemos conscientemente, mas que, por nossa escolha, e muitas vezes de forma repetitiva, nos faz sofrer. Desse modo, potencializamos nossa capacidade de decisão, aprendemos a enfrentar melhor os sentimentos de frustração e, consequentemente, aumentamos nossa sensação de satisfação e bem-estar, melhorando consideravelmente a nossa qualidade de vida.