Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

Ter um filho, seja biológico ou adotivo, requer sempre uma preparação. Em primeiro lugar, é importantíssimo que exista entre o casal um ambiente interpessoal no qual será inserida uma terceira pessoa, frágil, que exigirá cuidados e muita atenção. Se o casal não estiver preparado poderá surgir, por parte de um dos pais, ciúme e rivalidade além do sentimento de que o filho estará roubando seu espaço afetivo.

Poder entender os desejos reais que motivam o casal a querer um filho também faz parte dessa preparação. Por exemplo: o filho vem para “salvar” o casamento? Fazer companhia a um dos pais? Substituir o filho morto? Suprir a falta de afeto entre o casal? Aproximar os pais?

Ter filhos é um ato de profunda responsabilidade: envolve a vida de uma criança, bem como o seu desenvolvimento físico e emocional. Estar ciente dos motivos que levam a adoção ajuda muito nesta árdua tarefa: ser pais.

Os pais que adotam também precisam trabalhar as suas feridas narcísicas em relação as questões que envolvem a infertilidade: a culpa pela impossibilidade de gerar um filho, a tortura das inúmeras tentativas e suas frustrações, a corrida atrás de tratamentos…

Faz parte desse processo, inclusive, a tranquilidade do casal para poder lidar adequadamente com os problemas que surgirem no âmbito familiar. É provável que ao entrar num novo ambiente a criança se mostre insegura, pois ao mesmo tempo em que está feliz por ter um novo lar, tem medo de perdê-lo, podendo até mesmo mostrar-se agressiva até poder adquirir confiança nessa nova família.

Outra dificuldade que pode ocorrer, quando a criança é mais velha, é a dificuldade para formar vínculos, já que ela perdeu os laços afetivos anteriores, o seu ambiente conhecido, o seu modo de viver, ou seja, as suas referências. Mas se a família adotante for paciente, carinhosa e puder compreender que a criança adotada é alguém que vivenciou abandono e rejeição pelos pais verdadeiros e tiver uma postura de acolhimento estas dificuldades serão mais facilmente superadas.

Uma questão importante, também, é com relação a revelação: contar ou não que o filho foi adotado? A adoção nunca deve ser omitida ou negada. Embora muitos pais temam revelar a verdade com medo de causar sofrimento ao filho, a mentira provocará um sofrimento muito maior pois gera sentimentos de traição e culpa em relação aos pais originais.

Dessa forma, o conhecimento da condição de adotado e a liberdade de procurar os pais biológicos, são duas condições que contribuem em favor da saúde mental do adotado favorecendo um melhor relacionamento com os pais adotivos. A verdade estabelece um padrão de confiança e sinceridade nesse relacionamento e desperta no filho sentimentos de gratidão, aumentando sua autoestima e seu sentimento de identidade.

Deve-se ter em mente que os problemas e dificuldades sempre existirão, seja numa família naturalmente constituída ou adotiva. O essencial é que o novo lar possa ser um continente afetivo e adequado ao filho possibilitando que ele possa trabalhar seus medos e dores e, principalmente, perceber que é amado e desejado, caso contrário, não estaria nessa família.

É importante ressaltar que os casos de maior sucesso na adoção encontram-se entre os casais que aceitam sua realidade bem como do adotado. Esses casos, possivelmente em consequência de uma melhor relação interna com os pais, apresentam um componente amoroso maior. Ninguém deve ser desaconselhado a adotar, desde que a adoção não tenha o intuito de “resolver” um problema externo ou interno do casal. O adotado deve ser alguém que irá “completar” um par adaptado à realidade e, de forma sadia, desejoso de uma criança.