Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Ao ligarmos o rádio, ao sentarmos diante da TV, ao abrirmos um jornal, ao falarmos com amigos, colegas, familiares e até com desconhecidos parece que sempre acabamos no mesmo assunto: a violência no nosso país, no nosso estado, na nossa cidade, diante de nós. São tantas histórias de  corrupção, de miséria, de abandono que nos fazem sentir impotentes, desanimados diante dos fatos.  Tudo isso nos faz pensar, refletir sobre nosso papel como indivíduos, nossa função como terapeutas em uma sociedade que se mostra injusta. Mas será que essas mazelas são algo novo? O homem e a sociedade estão mais violentos e corruptos que em outras épocas? Estamos falando do Brasil, mas e a guerra na Síria tratada como um genocídio? E os atentados terroristas ao redor do mundo? E as matanças em escolas e universidades americanas?

Em 1915, no início da 1ª Grande Guerra, Freud escreveu um ensaio intitulado “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, onde inicia falando de sua perplexidade diante da devastação e degradação humana causada pela guerra. Refere “o indivíduo que não é ele um combatente, sente-se atônito em sua orientação e inibido em seus poderes e atividades”. Sente uma aflição mental que provoca desilusão e força uma mudança de atitude diante da morte. Aponta a diversidade de condições dos países, da vida humana, a animosidade pelas diferenças de raça como alguns fatores que levam a guerra.

Nações dominadoras, com desenvolvimento tecnológico e científico, com elevadas normas de conduta moral, comunidades civilizadas, não conseguiram solucionar os conflitos sem guerra. Isso exigiria, conforme Freud, “uma grande dose de autodomínio, de renúncia à satisfação dos instintos”.

Este texto de Freud poderia estar numa das colunas dos jornais ou revistas semanais da atualidade. O homem ainda mata e morre; as diferenças sociais, econômicas, raciais e culturais parecem aumentar cada vez mais. Recebemos informações de guerras aqui e acolá, conflitos e acirramento de ânimos por todo o globo. Sim, vivemos numa guerra que até podemos chamar de “mundial”.

Freud falou em autodomínio e renúncia de satisfação dos instintos para evitar a guerra, podemos então pensar que nossos instintos são maus, destrutivos?! Percorrendo a obra de Freud, ele nos mostra como o homem, desde seus primórdios, precisou de uma força externa para controlar seus impulsos internos. Desde estas proibições iniciais, passando pela religião, a ciência, o homem buscou satisfazer seus desejos e seus pensamentos onipotentes, numa tentativa de dominar o que estava a sua volta, a natureza  –  o próprio homem.

Da necessidade de viver em grupo, surgiu a primeira proibição: a do incesto. Desejos proibidos  sujeitos a tentação, violação sujeita a punição. É o início da civilização. Pequenos grupos se transformaram em povos, que são representados pelos Estados, e estes, pelos governos que os dirigem. Existem leis que os indivíduos têm de obedecer, precisam reprimir os maus instintos. Estes “maus instintos” (egoísticos e cruéis) não são erradicados, fazem parte da essência mais profunda da natureza humana; são domados, reprimidos – mas permanecem ativos.

A transformação dos “maus” instintos depende de sua suscetibilidade à cultura, à civilização, à obediência às leis morais. Mas a tensão é permanente; pois, como vimos, os instintos permanecem ativos no inconsciente.  “O fato da coletividade de indivíduos da humanidade… terem mutuamente ab-rogado de suas restrições morais, naturalmente estimulou esses cidadãos individuais a se afastarem momentaneamente da constante pressão da civilização e a concederem uma satisfação temporária aos instintos que vinham mantendo sob pressão.” Freud estava se referindo a situação da 1ª guerra, mas podemos ver que é atual, vale para “nossa” guerra também, pois a vida instintual não tem idade. O homem tenta aprimorar artifícios para conter os instintos:proibições, regras morais, civilização, sua inteligência. Mas as vicissitudes da vida, o contágio do grupo, podem desfazer estes artifícios.

O processo de civilização é acompanhado de um progressivo deslocamento dos fins instintuais e  de uma limitação imposta aos impulsos instintuais. A obediência às leis morais, ensinadas pelo pai, o amor pelo objeto e o medo de perdê-lo leva o indivíduo à renúncia instintual. Sim, nossos instintos são destrutivos, agressivos, mas também são eróticos, sexuais. Um não anda sem o outro, mas ambos precisam ser limitados, educados. A satisfação precisa ser postergada ou simplesmente proibida, deve ser dado novo destino à pulsão.

A psicoterapia pode ajudar o paciente a reconhecer seus desejos, a buscar o destino mais adequado para suas pulsões e com isso um melhor equilíbrio emocional.