Por Keylla Jung, Psicóloga – CRP 07/07683

O termo preguiça, segundo a etimologia, refere-se a vadio, lento e tardo na ação. O termo pode referir-se, também, a características físicas, tais como pesado e gordo. Costumeiramente designamos o preguiçoso como uma pessoa avessa ao trabalho, negligente, morosa, que procura orientar a sua vida de forma a estabelecer atividades por conveniência, sem envolver grandes empenhos e diligências, sejam elas demandas de esforço físico ou mental.

Em nossos dias, a preguiça é demagogicamente condenada, e sua marginalização está associada a um modelo de vida moderno que considera o trabalho como a atividade que, por excelência, dignifica a humanidade. Na cultura contemporânea, a otimização do tempo para a realização do máximo de tarefas possíveis assumiu uma posição significativa na escala das virtudes a serem alcançadas por alguém que deseja sentir-se adaptado ao way of life dos novos tempos. Dessa forma, garantir a vida financeira, manter atividades físicas com regularidade, ser alguém bem informado, administrar uma casa ou família, e, principalmente, ser capaz de cultivar um network considerável, são demandas que não dão espaço à preguiça em nosso cotidiano. Você já conseguiu experimentar a preguiça sem culpa?

Se examinarmos mais atentamente nossa história, a preguiça pode apresentar outros significados, vinculados ao ócio, à criatividade e à depressão. Quando aparentada ao ócio, a preguiça se expressa não apenas no tempo que sobra depois do trabalho, como no caso do lazer, mas também como uma nova maneira ou ritmo de fazer as coisas que considerarmos importantes. Essa diferente relação com o tempo suscita que possamos experimentar a vida em outras dimensões, para além do trabalho como uma experiência penosa. Dessa perspectiva, surge a possibilidade de uma existência atravessada por fruição, contemplação e reflexão.

Relacionada à depressão, a preguiça pode representar uma espécie de indisposição do corpo ou da mente que impede o indivíduo de estabelecer foco e objetivos em sua vida. É possível identificar nesse estado mental sensações de tristeza, abatimeto, apatia, negligência e profundo desânimo. Isso resulta numa falta de sentido e insatisfação em qualquer ação na vida.

A psicoterapia permite agir sobre a preguiça em todas as suas expressões, a saber: com a devolução da possibilidade de experimentar a vida em outro ritmo sem a associação com culpa, destitui o sentido negativo que ilustrou a cultura moderna e contemporânea; possibilita, também, transformar a preguiça em tempo necessário para a criação; e, ao desfazer a confusão entre o normal e o patológico, permite o exercicio libertador de realizar, ou não, uma tarefa, porém com a responsabilidade da escolha. Restitui ao sujeito a chance de experimentar a boa e velha preguiça.