Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

As festividades de fim de ano trazem consigo os símbolos da paz, da reconciliação, do amor ao próximo e a sensação implícita da “felicidade”. No entanto, nem sempre chegamos nessa fase carregados de bons sentimentos e iluminados como as luzes de Natal. E é por isso que não apenas em Setembro, mas ao longo do ano, necessitamos refletir sobre os riscos de suicídio. E não somente o suicídio executado, mas tudo aquilo que carrega a ideia deliberada de dar fim à vida humana, pois neste caso estamos falando de um conjunto de fatores que carecem solução, pois se trata de um grave problema de saúde pública. Querer tirar a própria vida não é normal, mas sim um sintoma que precisa ser tratamento.

O Brasil está entre os 28 países, de um universo de mais de 160 analisados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), que possui estratégia de prevenção ao suicídio, oferecendo atenção integral em saúde para os casos de tentativa, no entanto, as campanhas envolvendo esse tema devem ser cada vez mais acessíveis a fim de termos resultados cada vez mais eficazes.

Segundo o perfil epidemiológico das tentativas e óbitos por suicídio no Brasil na rede de atenção à saúde, o suicídio é um fenômeno que ocorre em todas as regiões do mundo. Estima-se que, anualmente mais de 800 mil pessoas morrem no mundo por suicídio e, a cada adulto que se suicida, pelo menos outros 20 atentam contra a própria vida. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio representa 1,4% de todas as mortes em todo o mundo, tornando-se, em 2012, a 15 causa de mortalidade na população geral; entre os jovens de 15 a 29 anos, é a segunda principal causa de morte. Busca-se que em 2020, possamos reduzir em 10% essas estatísticas alarmantes, mas sem um trabalho intenso de conscientização podemos aumentar esses valores para mais 50%.

Embora com um cenário desses, o suicídio pode ser prevenido e é por esse motivo que o alerta faz toda a diferença. Sabe-se que o fenômeno do suicídio é complexo, influenciado por vários fatores e que, generalizações de fatores de risco, são contraproducentes. A partir de uma análise contextual é possível compreender situações de maior risco, entre elas ter acesso aos meios letais, apresentar dificuldade em lidar com estresses agudos ou crônicos da vida, sofrer violência baseada em gênero, abuso infantil ou discriminação. O estigma em relação ao tema do suicídio impede a procura de ajuda, que pode evitar mortes. Da mesma forma, sabe-se que falar de forma responsável sobre o fenômeno do suicídio opera muito mais como um fator de prevenção do que como fator de risco, podendo, inclusive, se contrapor a suas causas.

Existe muita confusão a respeito do tema, e a fantasia de que aquele que se suicida teria certo “livre arbítrio”. Essa ideia desadaptada cai por terra no momento em que evidenciamos 90% dos casos de suicídio associados a distúrbios mentais, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Com o transtornos de humor, entre os quais se destaca a depressão, que representam o diagnóstico mais frequente nesses casos, presente em 36% das vítimas. Também estão relacionados ao problema a dependência de álcool (em 23% dos casos), esquizofrenia (14%) e transtornos de personalidade (10%).

Um transtorno mental acaba alterando a percepção da realidade e por isso torna-se um fator de risco bastante determinante nesse desfecho. Muitas dessas pessoas nunca buscaram tratamento psicológico e ou psiquiátrico, ou se receberam um diagnóstico não trataram como deveria.  A partir dos dados da OMS, apenas 3,2% dos casos não foi possível identificar um diagnóstico preciso entre as vítimas. Daí destaca-se a importância de um tratamento contínuo por parte do paciente que garanta um equilíbrio preventivo na manutenção dessa saúde mental.

Sabe-se que de uma pessoa que morre por suicídio numa população de 100 habitantes, 17 pensaram, 5 planejaram e 3 tentaram suicidar-se. Por esta razão precisa-se estar atento as pessoas que estão a nossa volta, aquelas que sentem dores crônicas, que falam que são um peso para as outras, que parecem ter desistido de tudo e de si, acolhendo-as sem julgamento. Assim como já se aprendeu a prevenir doenças cardíacas, doenças oftalmológicas, precisa-se estar atento para a dimensão muitas vezes minimizada das doenças psiquiátricas. Levar a sério um apelo torna-se um meio de garantir a saúde mental de alguém. A maior parte das pessoas que falaram em terminar com suas próprias vidas suicidaram-se. Nem sempre uma tentativa de suicídio é um desejo de chamar atenção, pelo contrário aumenta de 5 a 6 vezes o risco de suicídio.

A desesperança, a impulsividade e o desespero, são combinações letais e comportamentos novos em alguém que conhecemos bem, deve ser um ponto a ser observado. Principalmente se envolvem abuso de substâncias químicas e obstinações por vingança. Nesses casos, retirar meios letais de perto dessas pessoas e encaminha-las para uma consulta psicológica e psiquiátrica, ou emergência em casos extremos, podem salvar uma vida.

Nessas datas festivas, mais do que iluminar as casas e árvores de Natal a nossa volta, iluminar nosso interior, poderá fazer toda a diferença! Contar com o suporte profissional sem preconceitos pode reverter de vez uma situação grave como essa. Principalmente se estamos enlutados, com sentimentos comuns de culpa e raiva da perda, numa época assim. Não hesite, dê para você o melhor presente neste Natal, encontre o seu equilíbrio e tenha sua saúde mental em dia.