Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

Desenvolvida pelo psicólogo inglês John Bowlby a teoria do vínculo afetivo, também conhecida como apego, entende o crescimento de uma criança como resultado da relação que ela mantém com seus pais. De acordo com este autor o apego é uma necessidade tão primária e vital quanto o alimento. Um bebê que se sente protegido terá muito mais chance de se tornar um adulto seguro de si mesmo e capaz de amar e se sentir amado. Bowlby designou como “teoria do apego”, um modo de conceituar a propensão dos seres humanos a estabelecerem vínculos afetivos, bem como, de explicar as múltiplas formas de consternação emocional e perturbações da personalidade a que a separação e a perda involuntária dão origem.

O comportamento de apego pode ser definido como qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado, considerado mais apto para lidar com o mundo. O conhecimento da existência de uma figura de apego disponível e que oferece respostas, fornece um sentimento de segurança importante que encoraja a pessoa a valorizar e dar continuidade à relação. Assim, os padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de sua vida atual e, em parte, das experiências que teve com as figuras de ligação nos primeiros anos de vida.

O ponto de vista de Bowlby, apoiado por inúmeras pesquisas, é de que o alimento desempenha apenas um papel secundário no comportamento de ligação do bebê à sua mãe. A função básica do comportamento de ligação seria a proteção. Segundo o autor, é tão importante estudar a maneira pela qual uma criança é realmente tratada pelos seus pais, como é necessário estudar as representações internas que a criança tem deles e vice-versa, valorizando a interação de um com o outro, do interno com o externo. Além disso, ressalta a interação afetiva mãe-bebê como formadora do mundo interno da criança, decorrendo daí suas fantasias. Portanto, o modelo que a criança constrói de si mesma também reflete a imagem que os pais têm dela, imagem esta que é comunicada não só pela forma como a tratam, mas também, pelo que cada um diz sobre ela.

No momento do nascimento de um filho, a situação do casamento, da vida da família ou mesmo da sociedade mais ampla, interferem positiva ou negativamente na relação de apego entre pais e filhos. É verdade que as fantasias relacionadas às vivências infantis têm um peso importante na relação dos pais com seus filhos, podendo muitas vezes ser um fator determinante de dificuldades nesta relação. Mas também é verdade que a realidade presente, a relação atual do casal e o momento da família, com todos os seus sentimentos e implicações, pode ser codeterminante no melhor ou pior apego que se estabeleça nesta relação. Também ao bebê, sendo parte ativa neste processo, determinará correções ou reforçará os sentimentos a respeito dele, conforme sua bagagem constitucional. Assim, um bebê ativo e cheio de vida poderá modificar as expectativas negativas que sobre ele são projetadas. Ao contrário, um bebê mais voraz e exigente, corre o risco de confirmar as expectativas negativas oriundas dos conflitos inconscientes de seus pais ligadas as suas vivências infantis.

Quando as expectativas negativas superam as positivas faz-se necessário uma intervenção terapêutica precoce para ajudar os pais a modificarem esta trajetória, possibilitando a estes e ao seu bebê uma interação mais saudável e gratificante.