Por Anna Paula Luz Flores , Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/04536

A instituição familiar vem passando por muitas transformações nos últimos tempos, apresentando vários tipos de arranjos. No entanto, as funções básicas desempenhadas pela família no decorrer do desenvolvimento psicológico do indivíduo permanecem as mesmas. Trata-se do primeiro grupo social do qual o indivíduo faz parte e, as transformações ocorridas na sociedade, na estrutura familiar e na forma como os pais foram educados vem provocando muitos questionamentos no que diz respeito à relação com os filhos.

Os conflitos nesta relação entre pais e filhos ultrapassam gerações e são motivos de muitos debates e reflexões. Na maioria das vezes se origina em um ruído de comunicação dentro de casa, aonde uns se sentem controlados e não reconhecidos em sua autonomia enquanto outros sentem-se desconsiderados, desvalorizados e por vezes, até mesmo, desrespeitados.

Aparece, então, a dificuldade dos pais em se colocarem adequadamente como figuras de autoridade, quando isso se faz necessário, e dos filhos em manifestar aquilo que sentem falta e esperam receber. O resultado é um processo de mútuas acusações que acaba por não revelar a intensidade dos afetos envolvidos, escondendo o real desejo, que, na grande maioria das vezes, é de sentir-se amado pelo outro.

Cada período do desenvolvimento do indivíduo tem as suas peculiaridades e, na relação entre pais e filhos, este aspecto acaba implicando em novos desafios a serem enfrentados. A atenção e o respeito que devem ser dados ao filho não podem provocar uma inversão na ordem das gerações, pois torna-se um fator de intensa desorganização para toda a família. Os filhos precisam de um direcionamento que cabe aos pais dar.

Além de conhecer o amor, a amizade, o respeito e a consideração, os filhos também precisam ter clareza de quais são os limites que têm que respeitar para que possam tornar-se pessoas capazes para a vida em comunidade. Assim, fica evidente a importância do equilíbrio entre a amizade e autoridade, cuidando para não confundir autoridade com autoritarismo, procurando basear o relacionamento na troca afetiva, na confiança, na transparência e no diálogo constante.

Outro fator que influencia grandemente esta relação refere-se ao tempo, ou melhor, à ausência dele. A rotina de todos, cheias de compromissos é, muitas vezes, um entrave relevante no relacionamento familiar, dificultando uma intimidade necessária para que haja uma troca maior, para que os pais conheçam verdadeiramente seus filhos, participem de suas vidas e saibam como abordá-los adequadamente.

Faz-se necessários pais e mães mais próximos, mais disponíveis, abertos a discutir e orientar naquilo que se fizer preciso, mas igualmente capazes de dizer não e de estabelecer os limites que precisam ser respeitados. Caso contrário, é grande o risco dos filhos sentirem-se sozinhos e desconectadas de sua própria família, sem uma verdadeira identificação com esses pais, pois lhes faltam um modelo firme, seguro e afetivo, com o qual possam se identificar.

As relações familiares são de natureza complexa, pois cada filho e cada pai e mãe são únicos e precisam ser respeitados, embora a convivência nem sempre seja fácil. O núcleo familiar é fundamental na educação de qualquer pessoa, pois é através da família que o indivíduo aprende seus primeiros comportamentos, sendo que essas relações iniciais irão interferir na maneira de viver e de ver o mundo, durante a vida futura. A família, portanto, é o lugar adequado e privilegiado para promoção da educação e desenvolvimento do sujeito e, a maneira como pais lidam com os desafios da vida, são de extrema importância para conduzir à maturidade familiar e servir de modelo de identificação para os filhos.