Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

Recentemente a mídia, as redes sociais e as conversas informais foram invadidas por acontecimentos relacionados a violência contra a mulher. Denuncias de agressão física, assédio sexual, abusos e ameaças, antes delegadas a uma classe social menos favorecida, agora convivem com todas as classes sociais. Nos últimos dias, acusações a um cantor por agredir fisicamente e emocionalmente a esposa; uma carta reconhecendo o “erro” e afirmando que “o mundo mudou”, escrita por um conhecido ator e sendo lida em rede nacional como um pedido de desculpas pelos assédios moral e psicológico, infringidos a uma colega de emissora; um “respeitado”  jornalista sendo investigado por agressão física à esposa e a soltura de um jogador de futebol condenado por matar e ocultar o cadáver da ex namorada chamaram a atenção e trouxeram a discussão um assunto antes visto de forma tímida: a violência contra a mulher.

Mas por que esses comportamentos abusivos por parte dos homens acontecem? Por que muitas vezes essas situações não são percebidas como agressões e sim entendidas como parte de um relacionamento homem-mulher? Por que por anos as mulheres se sujeitaram a esses abusos e, em alguns casos, era até mesmo estimulada ao homem essa conduta?

O modelo masculino de galã robusto, rústico e por vezes bruto habita parte do nosso imaginário. Porém o “machão” da novela não se restringe a ficção. Faz estragos reais, físicos e emocionais. Desestrutura emocionalmente esposa, filhos e famílias.

A violência contra a mulher abrange um espectro bastante amplo de condutas, desde o assedio verbal até a agressão física, incluindo estupros praticados inclusive por namorados e maridos. Essa violência tem raízes históricas profundas. Há cerca de 5 mil anos a sociedade organizou-se de forma patriarcal, sendo portanto o homem o detentor do poder de decisões. A mulher tornou-se um objeto valioso, no sentido de mercadoria. Usada como moeda de troca entre governos, sinônimo de êxito e riqueza. Vendida, roubada, trocada e escravizada. E isso tudo com o apoio da organização da sociedade. O ideal patriarcal de um homem forte, poderoso e de sucesso, encontrava na dominação da mulher respaldo e apoio. Somente em meados da década de 70, tal situação passou a causar desconforto e produzir questionamentos em alguns segmentos da sociedade.

Atualmente muitas pesquisas se dedicam a compreender o tema da violência contra a mulher e sabe-se que aproximadamente 70% dos casos de violência contra a mulher são praticados por namorados, maridos ou ex-companheiros. Estudos cada vez mais criteriosos associam a violência contra a mulher ao suicídio, ao abuso de drogas e álcool, a distúrbios gastrointestinais, cefaleias, insônia, desinteresse e desmotivação, dificuldade de concentração, apatia, irritabilidade, crises de ansiedade, estresse pós-traumático e síndrome do pânico.

Engana-se quem acredita que apenas as mulheres sofrem com esse padrão de comportamento. Obviamente elas são as maiores vitimas e, consequentemente, as mais prejudicadas. Porém, a exigência social do “super macho”, também condena ao sofrimento homens, com a pressão de manterem sempre o sucesso, o medo do fracasso sexual, medo das comparações com outros homens (a liberdade sexual trazida principalmente pelo uso de métodos contraceptivos e pelas conquistas políticas, sociais e profissionais, permitiu a mulher ter parceiros antes do matrimonio), entre outras questões narcisistas e de baixa auto estima, elevam os casos de depressão entre os homens e por vezes a agressividade contra a mulher esconde um homem frágil e assustado.

Mas, ainda no que diz respeito ao desrespeito contra a mulher, além da violência física, existe a violência psicológica. Mais sutil, dissimulada, mas tão prejudicial quanto a da agressão ao corpo. Do ponto de vista psíquico, não há diferença entre a dor física e a dor psíquica, pois a dor é um fenômeno misto, que surge no limiar entre o corpo e a psique. Enquanto a dor remete à sensação local causada por uma lesão, o sofrimento psicológico designa uma perturbação global, emocional, corporal desorganizadora e que traz consequências na qualidade de vida. Dentre a violência psicológica, cabe explicitar a violência emocional, a patrimonial e a sexual. Principalmente por serem essas de difícil entendimento e percepção.

– Violência Emocional: ameaças, chantagens, desvalorização e domínio pelo medo são as principais características desse tipo de situação. O homem desencoraja a mulher com palavras, a ameaça, condena, critica e desvaloriza. Ele enfatiza os fracassos dela, sua falta de habilidade como esposa, mulher, mãe e profissional. A mulher amedrontada passa a questionar suas competências e acreditar na sua incompetência. O homem se fortalece na fraqueza por ele imputada à mulher. Agressões verbais são constantes, brigas, gritos. A mulher tem seus desejos ridicularizados ou minimizados e vê a supremacia das necessidades do marido tomarem conta do seu dia a dia.

– Violência Patrimonial: numa sociedade com raízes fortemente fixadas no modelo patriarcal, é comum homens ocuparem cargos de chefia, possuírem salários mais altos e por consequência serem responsáveis pelo sustento do lar. Muitos priorizam suas carreiras, construídas sob a desistência que as mulheres fazem das suas. E isso acarreta as acusações e chantagens dos homens, afirmando que as mulheres precisam deles para sobreviver, que sem eles não conseguem sustentar a família de forma adequada. E por vezes esse temor é verídico. Por não investirem em suas carreiras, ou pelo mercado de trabalho não reconhecer o valor de um profissional do sexo feminino, muitas mulheres ficam atreladas as chantagens e violência conjugais para manter a qualidade de vida, sua, dos filhos e não raras vezes de suas famílias de origem. A dependência financeira é usada como motivo de deboche, chantagem, amedrontamento e aprisionamento dessas mulheres a relações insatisfatórias e perversas.

– Violência Sexual: novamente a sociedade patriarcal deixa suas marcas ao entender como tarefa da mulher satisfazer sexualmente o homem. O homem entende como seu o corpo feminino, toca, agride e manipula sem o consentimento da mulher. Por vezes a obriga a manter relações sexuais as quais ela não deseja. Somente muito recentemente o estupro conjugal passou a ser considerado crime.

As relações estabelecidas entre homens e mulheres sempre estiveram baseadas em questões sexuais e de poder. A violência e o abuso se incrementam no cotidiano sob a forma de ligações narcisistas e autoritárias. O medo de perder o objeto outrora amado e desejado provoca um angustia indescritível. Parafraseando Freud, “(…) a dor é uma reação à perda efetiva da pessoa amada, a angustia é a reação à ameaça de uma perda eventual.” Angustia que enlouquece, aprisiona e adoece.

A mulher é acusada de estar na origem de todos os problemas do casamento, as agressões tornam se corriqueiras e por vezes são justificadas com argumentos como cansaço, estresse, excesso de preocupações por parte do agressor e a culpabilização da mulher, acreditando que foi ela a causadora de todo o desconforto: “fui eu quem falou sobre aquele assunto chato na hora errada, por isso ele agiu dessa forma”, dizem, buscando justificar as explosões agressivas dos companheiros.

A escassez de outros vínculos, o medo de perder a estabilidade financeira, a falta de apoio da família de origem, a solidão, a baixa auto estima, a dependência emocional perpetuam a permanência das mulheres nessas relações, sua capacidade de julgamento passa a ser atacada e a leitura das situações como agressões ficam  prejudicadas. Relações nesse nível de funcionamento trazem prejuízos também para os filhos. As crianças por vezes apresentam fobias, enurese, ecoprese, gagueira, compulsão a mentir e baixo rendimento escolar.

Todos sofrem e muitos homens não conseguem estabelecer um padrão de relacionamento diferente, embora a promessa de mudança e muitas vezes o desejo. As mulheres emocionalmente enfraquecidas não imaginam como estabelecer vínculos saudáveis, prisioneiras e dependentes de relações agressivas e abusivas.

A psicoterapia psicanalítica adentra nesses lares como a possibilidade do novo, da reorganização. Ela não tem o poder de mudar o passado, apagar o histórico de agressão, mas através do entendimento do já acontecido poderá ressignificar as vivências e oferecer alternativas, inaugurando um novo relacionamento. Não basta uma carta pedindo desculpas, não bastam promessas ou flores. O mundo mudou! E para uma mudança genuína de comportamento as raízes da personalidade precisam ser analisadas e tratadas. Somente assim um comportamento pode ser extinto e pode abrir espaço para uma nova construção. Cada situação deve ser avaliada e estudada para a melhor indicação de tratamento. Por vezes a psicoterapia de casal se faz fundamental, porém, não é o tratamento de eleição num momento inicial, pois as brigas podem se acentuar e tornar inviável o seguimento do tratamento.