Por Rafaela Haas Oliveira Zanini, Psicóloga – CRP 07/14351

Muitas vezes os relacionamentos entre pais e filhos são tragicamente malsucedidos, resultando em grave mau trato das crianças. O abuso sexual seria uma das formas de maus tratos, caracterizando-se por qualquer tipo de contato sexual entre uma criança e uma pessoa mais velha.

As consequências dos maus tratos neste sentido são devastadoras. Os efeitos numa pessoa que foi abusada variam em danos físicos, emocionais e cognitivos. O trauma ocorre não apenas pelo ato em si, mas também por um funcionamento patológico familiar em que pais não conseguem proteger a criança que está sendo violentada.

Não raro, famílias abusivas tendem a manter seu equilíbrio em torno do silêncio e do segredo. Muitos casos nos mostram a negligência materna, culpabilizando os filhos por tal situação. Existe uma dificuldade imensa em reconhecer o incesto, por exemplo, em função de uma doença que envolve o ambiente familiar. A renegação ou desmentida, como é chamado em psicanálise, refere-se a percepção de um acontecimento doloroso em que surge uma desestruturação de si cuja primeira reação é ver, mas ao mesmo tempo não ver. O indivíduo percebe a situação mas desmente para si e para o outro. Estamos falando de pacientes e famílias com uma estrutura e funcionamento mais perverso (ver artigo anterior  A Perversão Sustentada na Contemporaneidade – por Fernanda Mendes).

O comportamento sexual inapropriado é uma das manifestações que as crianças que foram ou estão sendo vítimas de abuso podem apresentar. A agressividade e os problemas escolares também aparecem com frequência.

Adultos que tiveram esta vivencia traumática carregam consigo este segredo por anos ou por uma vida inteira. Pacientes buscam tratamento e não raro depois de anos relembram de uma parte de sua vida que havia sido “apagada” de sua memória com o simples e grande propósito de sobreviver àquela vivencia devastadora.  A ideia de não falar e não sentir entra como uma forma de se proteger. Não falar para não doer! Mal sabem eles que o abuso está  vivo em suas vidas e sendo revivido quase que diariamente em suas relações que tendem a ser perversas por repetição.

A psicoterapia nestes casos ajuda o paciente a elaborar o trauma. A voltar no tempo, a recontar a história, a sentir o que não foi sentido. A olhar para a culpa e culpar quem deve ser culpado. E como dói! A psicoterapia não apaga a vivência, mas auxilia a lidar com estas verdades. Verdades de um passado sombrio, verdades de sua vida atual.