Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

A palavra PERVERTERE, que significa desmoralizar, levar ao caminho errado, corromper, vem do latim: PER-, “totalmente”, e VERTERE, “virar”, possibilitando assim o entendimento de uma temática tão discutida nos dias atuais na sensação de falta de ordem, corrupção e desvio de valores.

Segundo a psicanalista Elizabeth Roudinesco a perversão é um fenômeno sexual, político, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas que partilham atitudes coerentes sobre proibição do incesto, delimitação da loucura, designação do monstruoso ou do anormal, bem como, a cultura que se permite viver o prazer e se possibilita transgredir a um status quo, enquanto característica humana inata definida apenas na forma como é vivida.

As diferentes abordagens teóricas que estudam esse fenômeno foram amadurecendo o conceito de saúde e doença ao longo do tempo. Inicialmente com a  medicina considerando a perversão como algo doentiu e pejorativo pelo desvio feito do objetivo da sexualidade que não a preservação da espécie e da procriação. Mais tarde os conceitos de traços e diagnósticos da perversão e as falhas no desenvolvimento tornaram mais clara a sua compreensão.

É quando Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” considera a sexualidade infantil perverso polimorfa, enquanto obtenção de prazer de várias formas, ainda fusionada ao desejo do adulto cuidador (ex: mãe). Diante de um processo indiferenciado do eu e do outro, típico do início do desenvolvimento do ser humano, torna-se difícil reconhecer o outro, que apenas existe para estar a serviço e a extensão do bebê (perversão). Ao ser regulado e devidamente acolhido na função materna adequada, essa criança ainda com toda a sua pulsão difusa e atrapalhada, aos poucos vai se ordenando e tendo a capacidade de reconhecer e respeitar a existência do outro, treinando suas capacidades de frustrar-se e de regular seus próprios impulsos, mostrando-se cada vez mais capaz de viver em sociedade e repeitar suas leis.

Como nos explica a psicanálise, a perversão é o contrário da neurose e enquanto esta consegue reprimir o desejo de obter prazer com o desvio de uma verba pública em seu próprio beneficio, o perverso facilmente transgride a lei e coloca em ato o seu desejo. A realidade de estar prejudicando milhares de pessoas privadas do benefício público, torna-se ignorada para dar lugar ao sentimento de “poder”, já que o outro continua existindo a serviço do próprio ego, como quando era bebê. É rir da morte alheia e divulgar a tragédia em redes sociais e não sentir-se culpado mesmo que sua função seria outra na ocasião.

No entanto, é poder ser “sem vergonha” e pouco importar-se com a opinião alheia! É se permitir vestir uma roupa diferente dos padrões impostos, podendo fazer um uso saudável desse traço perverso em um contraponto que preza pela liberdade de expressão, permitindo conquistar novas formas de subjetivação em uma sociedade opressora e também perversa. Como nos dizia Freud, é uma questão de equilíbrio em uma economia psíquica que precisamos bem administrar e nos responsabilizar pessoalmente.

Da transgressão de uma dieta exagerada destinada aos padrões sociais vigentes, a uma atitude criminosa que varia do bullying ao assassinato, a perversão antes controlada pela religião e seus dogmas místicos, passa a ser explicada e dominada pela ciência. Torna-se então possível ser controlada pelo próprio indivíduo integrante de uma sociedade capaz de criar leis justas e civilizadas e a submeter a demanda perversa a elas, sem mais carecer da existência de uma autoridade divina e abstrata que o faça, nem mesmo da autoridade de sua mãe que por sua vez internalizou a lei da cultura e o permitiu assim fazê-lo de forma saudável.

No entanto, como nos traz o psicanalista Contardo Calligaris, ao analisar o fenômeno do nazismo, identificou o que chamou de “montagem perversa” que se observa enquanto estrutura da sociedade. Em sua tese de doutorado (CALLIGARIS, 1993) concebeu a perversão como laço social que vai além do caráter sexual de formação individual de cada sujeito e por isso é capaz de dispertar nos seus integrantes uma “paixão de ser instrumento”, ou seja, que todos nós, mesmo com uma adequada  formação e resolução edipica podemos estar a ela submetidos se não estivermos constantemente nos analisando e contrapondo o que é imposto pela mídia ou qualquer demanda externa e interna, por exemplo.

Essa montagem perversa que Calligaris observou no nazismo, referente ao prazer das pessoas envolvidas [no genocídio nazista] estava na obediência, e não na matança […]” (CALLIGARIS, 1991, p. 115) e, segundo seus depoimentos, almejavam ser funcionários exemplares, assim como imagino, quando queremos estar na moda ou mesmos consumindo as melhores ideologias.

Atualmente o capitalismo desenfreado, não muito aquém da lógica do nazismo impõe uma verdade e acaba criando uma ideia de que o que foi consumido não mais poderá ser aproveitado, pensamento que acaba sendo replicado para as relações interpessoais, em que nada pode durar e sempre se pode consumir, nem que seja em eternas prestações.

A “montagem perversa”, que impõe o gozo parcial, não permite integração e portanto fica exposta no corpo protético, perfurado por piercings, com próteses de silicone e procedimentos que tiram de um lugar e poe em outro facilmente. O valor fica atribuído mais ao corpo do que a verdadeira subjetividade. O bordão de que somos todos iguais acaba gerando além da massificação e da possibilidade da execução de poder sobre essa massa, uma ideia de preconceito com o diferente. E será que o seres humanos podem ser iguais?

As instituições prendem as pessoas através de uma alienação de não expressar seu próprio pensamento e manipula-se o desejo do sujeito em função do desejo da organização. A dor não existe mais, pois é medicalizada e as pessoas quando a sentem não podem mais representa-las como forma de alerta para permitirem-se crescer e deixar de ser sujeito objetificado.

Por isso a necessidade de buscar avaliar esse traço comum a todos, com os profissionais especializados e eticamente fiscalizados para bem guiar seus pacientes na melhor elaboração e encaminhamento da perversão a que se está constantemente cercado. Antes de olhar a tendência terrorista do mundo ou corrupção dos políticos como coisa externa a si, porque não olhar a parcela individual, como forma de manutenção dessa higiene psíquica?

A perversão pode ser o gozo do mal ou a paixão pelo soberano bem, mas acima de tudo é a circunstância da espécie humana: o mundo animal está excluído dela, assim como do crime. Não somente é uma circunstância humana, presente em todas as culturas, como supõe a preexistência da fala, da linguagem, da arte, até mesmo de um discurso sobre a arte e sobre o sexo, enquanto forma saudável pela qual poderá ser expressada e representada.