Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

Ao pensarmos sobre psicanálise é praticamente consenso tecer relações com complexo de Édipo, sexualidade, inconsciente e sonhos. De fato, todos estes, além de outros tantos, foram campos de investigação de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise. Os sonhos, em especial, despertaram o interesse não apenas de Freud, mas daqueles que suspeitaram que algo além da consciência opera em nossa mente.

Os sonhos são explorados em diferentes perspectivas, desde uma visão místico–religiosa até a perspectiva científica. A neurociência, por exemplo, se encarrega de mapear o cérebro em suas diversas atividades, inclusive o sonhar.

Também a literatura se ocupa do tema, foi Shakespeare quem disse que “somos feitos da matéria de que são tecidos os sonhos e a nossa vida tão curta tem por fronteira o sono” (In: A tempestade).

Para o filósofo Arthur Schopenhauer, “A vida e os sonhos são folhas de um livro único, a leitura seguida dessas páginas é aquilo a que se chama a vida real, mas quando o tempo habitual da leitura (o dia) passou e chegou a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso em tal ou tal local e caindo tanto numa página já lida como sobre uma que não conhecíamos, mas é sempre o mesmo livro que lemos (…) o que é o mundo dado na intuição, mais do que minha representação?” (In: O Mundo como Vontade e Representação)

Quando Freud finalmente concluiu que havia uma instância psíquica – o inconsciente – com poder de ação sobre nossos comportamentos, afetos e experiências, além de ocupar-se em descrever e formular as leis gerais que regem o psiquismo tratou de dar mostras sobre as vias de acesso ao inconsciente. Segundo ele, o sonho é a via real que nos leva ao conhecimento da atividade psíquica inconsciente. Valorizou da mesma forma os sintomas, atos falhos e a transferência, mas foi o estudo sistematizado sobre os sonhos que mereceu o título de uma de suas mais famosas publicações – A interpretação dos sonhos (1900).

No texto, diferente do que se pensou inicialmente, e que já era bem comum na época, não estavam listados os significados que cada sonho pudesse assumir. Embora Freud afirmasse que todo sonho tem significados e sentidos, os mesmos são restritos a biografia daquele que os sonha. Não há uma universalidade quanto à tradução simbólica dos elementos de um sonho. A proposta do estudo não era realizar um manual de interpretação dos sonhos, mas, demonstrar que estes são transformações basicamente pictóricas de algo conhecido pelo sonhador, porém, reprimido e inacessível à consciência. Contudo, as imagens que constroem cenários em nossos sonhos não são exatamente arquitetadas para encobrir e sim outra forma de expressar, em linguagem simbólica, a realidade subjetiva daquele que sonha.

Os sonhos de modo geral são responsáveis pelo desenvolvimento, regulação, manutenção e restauração dos processos psíquicos. Eles funcionam como um despressurizador da mente. Além de guardião do sono, é nossa forma de pensar enquanto dormimos. Satisfazem de forma alucinatória nossas necessidades reprimidas, realizam desejos proibidos e dão soluções a conflitos.

Nem sempre é claro o que o sonho pode estar representando sobre nossa vida psíquica, pois, vários são os pensamentos e conteúdos que podem estar representados em um único elemento do sonho. A intensidade emocional de um conteúdo muitas vezes está deslocada para figuras ou enredos aparentemente inofensivos o que produz uma sensação de confusão e estranhamento.

Não é incomum lembrarmos de algum fragmento do sonho e imediatamente relacionarmos com a lembrança de algo experimentado em vigília, um encontro ou acontecimento, um filme assistido, a conversa travada com alguém, enfim situações vividas de forma consciente. São os restos diurnos que estão registrados na mente e emprestam formas para os disfarces e embaralhamentos que os sonhos adquirem.

No processo psicoterápico a trama onírica é considerada como um valioso informe proporcionado pelo paciente sobre o que ocorre em seu mundo interno. A compreensão do mesmo parte da experiência emocional do paciente, a maneira racional como organiza o relato e as associações que decorrem da lembrança.

Donald Winnicott, importante psicanalista inglês, no seu livro o Desenvolvimento emocional primitivo, via “a vida de vigília como condição que vai sendo conquistada a partir de uma situação inicial do ser humano no qual o sono predominava”, ou seja, parece que a condição de consciência deriva de um estado inconsciente que gradualmente, em decorrência da interação com a realidade externa se organiza. As imagens oníricas são fundamentais como elos entre as fantasias do mundo interno e a realidade externa, são recobertos de afetos que dão dicas sobre a dinâmica mental.

Os sonhos oferecem conteúdos para pensarmos sobre o que somos e como vivemos, eles podem auxiliar no processo de compreensão que o sujeito pode construir de si mesmo. No entanto, a análise dos sonhos no processo terapêutico é uma experiência que deve ser espontânea, as interpretações são singulares e têm seus próprios desdobramentos.