Por Anna Paula Luz Flores , Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/04536

A personalidade é como um conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir de cada pessoa, sendo a sua formação um processo gradual, complexo e único para cada indivíduo, tornando-o exclusivo em sua maneira de ser. Tal formação se dá através de componentes inatos da personalidade, chamados de temperamento (base biológica instintiva e geneticamente determinada) que são as características afetivas e volitivas como o humor, extroversão, afetividade e impulsividade, e de componentes adquiridos, chamados de caráter, que inclui valores éticos e morais e conteúdos incorporados durante o desenvolvimento do sujeito.

Faz-se, então, importante esclarecer o que chamamos de Transtornos da Personalidade. Trata-se de situações clínicas psiquiátricas nas quais as pessoas têm, predominantemente, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, o que acaba gerando muita angústia, instabilidade emocional e prejuízo no seu desempenho social, profissional e afetivo. São alterações marcantes no jeito de sentir, perceber a si e ao mundo e de se relacionar, diferentes da média geral na qual o indivíduo convive, trazendo sofrimento para si e para os que o cercam.

O Transtorno da Personalidade Borderline caracteriza-se por significativa instabilidade e imaturidade emocional, desregulação afetiva, sentimentos intensos polarizados, manifestações inadequadas de raiva, baixa autoestima, insegurança, intolerância à frustração, medo de abandono e angústia de invasão que acabam levando a muitos comportamentos impulsivos e perigosos, como as automutilações e condutas suicidas.

Os pacientes tentem a desenvolver relacionamentos intensos, confusos e desorganizados. Mudam seus conceitos sobre as pessoas e seus sentimentos de forma muito rápida, tendo suas qualidades anteriores, atualmente desvalorizadas. Costumam ser incomodados por sentimentos de vazio crônicos, sentimentos de rejeição e abandono, não importando se isso é real ou não. Os primeiros sintomas tendem a aparecer durante a adolescência, persistindo geralmente por toda a vida. As mulheres fazem parte de um universo mais representativo dos portadores deste transtorno.

A fase inicial pode ser desafiadora para o paciente, seus familiares e terapeutas, pois, como os sintomas tornam-se perceptíveis justamente na adolescência, muitas vezes a família supõe que são típicos da idade, sendo vistos como rebeldes, problemáticos, geniosos e temperamentais, não fazendo ideia de que estão diante de um distúrbio grave. Muitas vezes ainda o quadro pode ser confundido com depressão e transtorno bipolar.

Finalmente, através das relações entre pacientes borderline e psicoterapeutas, revelam-se traços importantes do funcionamento mental desses. Tendem também a formar relações intensas e dependentes que, entretanto, logo descambam para relações manipulativas e desvalorizadoras. Vários autores ressaltam a importância do ambiente terapêutico no qual esses pacientes são tratados, pois teriam grande probabilidade de se desestruturarem ao longo do trabalho terapêutico. É comum desistirem do tratamento ou não aproveitarem bem a terapia.

Mesmo em casos mais leves necessitam de tratamento psicoterápico e o uso de medicação fica delegado aos sintomas associadas. A realização de psicoterapia é fundamental para a maior estabilidade emocional futura, visando uma crescente conscientização dos atos/comportamentos/ações na busca de uma melhora nos relacionamentos interpessoais. As medicações não são o tratamento de primeira escolha e são mais usadas para o tratamento das comorbidades, bem como para evitar descontroles emocionais intensos.