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Category Archive: Artigos

AFINAL O QUE É SAÚDE MENTAL?

Por Aline Menegotto, Psicóloga CRP 07/08580

Atualmente, no Brasil, a terceira causa de afastamentos do trabalho para o INSS se dá por doença mental. Pesquisas registram que uma em cada quatro pessoas no mundo sofrerá uma condição de falta de saúde mental na sua vida. A depressão será a segunda maior causa de incidência de doenças em países de renda média e a terceira maior em países de baixa renda até 2030.

Assustador não? Possivelmente todos leitores deste texto têm alguém próximo de si que está passando ou já passou por algum “sofrimento ou problema psíquico ou mental”, também chamado “transtorno ou doença mental, psicológica ou psiquiátrica”. Tenhamos claro que essas expressões, por mais que parecem similares, não significam a mesma coisa e não são sinônimos de “loucura”, embora alguns comportamentos ou sentimentos tidos como “loucos” possam ser causados por doença mental (não entraremos nas doenças mentais nesse texto).

A banalização do diagnóstico e o uso elevado de medicações como intervenção diante da vida têm gerado preocupação. Já temos descrito cerca de 500 tipos de transtornos mentais e do comportamento nos manuais médicos e psiquiátricos. Com tantas descrições, quase ninguém escaparia a um diagnóstico de problemas mentais. Não se trata de não ver a utilidade e relevância dos manuais, bem como da medicação, muitas vezes fundamental para o tratamento de alguma doença. Mas, de ressaltar que o sofrimento psíquico tem sido enquadrado, muitas vezes, como sintoma de doença mental ou falta de saúde mental, e não é.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que não existe definição “oficial” de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjetivos, e teorias relacionadas concorrentes afetam o modo como a “saúde mental” é definida. A ampla gama de sintomas presentes nos manuais, bem como a forma diagnóstica proposta por eles permite que muitos acontecimentos cotidianos, sofrimentos passageiros ou outros comportamentos, possam ser registrados como sintomas próprios de transtornos mentais e não são. Confunde-se precocemente o patológico com mal-estar existencial, com situações passageiras e por vezes necessárias de dor.

Por outro lado, convém destacar que a ausência de uma doença mental não implica que o indivíduo goze de boa saúde mental, seu desenvolvimento integral deve ser olhado. O acompanhamento do comportamento diário de uma pessoa é a melhor forma de conhecer o estado da sua saúde mental. Quando o sofrimento psíquico se faz presente, conversar com um psicólogo pode ajudar na aceitação de que os conflitos internos são inerentes ao ser humano e, aprendendo a conviver com eles, estamos mais perto da saúde do que da doença.

Dependência química e alcoolismo funcionais, um problema atual

Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

**esse artigo usara a expressão “dependência química” para se referir a dependentes de substâncias, sejam elas drogas ou álcool. A OMS (Organização Mundial de Saúde) entende como dependência química a relação alterada entre um individuo e o modo de consumo de determinada substância.

A maioria das pessoas conhece alguém que considera alcoolista ou dependente químico. O conceito dessas psicopatologias está bastante difundido, e todos tem conhecimento, em algum grau. Comumente, se associa essas doenças a pessoas com sérios problemas na funcionalidade da vida: são os típicos fanfarrões, que vivem na noite e “caem” de bêbados, não tem uma carreira profissional, seus relacionamentos são sempre conflituosos, brigam e estão sempre envolvidos em confusão… enfim, o dependente químico frequentemente é associado a alguém sem nenhum sucesso afetivo ou profissional. Para esses, o diagnostico é fácil.

Porém, existe hoje um novo modelo de dependente químico. São aquelas pessoas que usam essas substâncias sem aparentemente prejudicar seu desempenho profissional ou relacionamentos. Essa situação é cada dia mais comum, e preocupante. Observa-se muitos motoristas profissionais que fazem uso de mais de um tipo de substâncias para melhorar seu “desempenho no trabalho”: dirigir por mais horas seguidas, sem dormir ou parar para descansar, por exemplo. Nos hospitais e ambulatórios o numero de usuários de substâncias psicoativas também cresce, são médicos, enfermeiros e outros tantos técnicos que fazem uso para aguentar trabalhar ou mesmo relaxar após horas exaustivas. Em agencias de publicidade, observa se a cultura de que algumas substâncias, principalmente a cocaína, ajudam a tornar a mente mais criativa também. Assustadoramente há um aumento significativo no número de profissionais que utilizam algum tipo de droga ou álcool. Normalmente, diferem daquele estereótipo comum de dependentes químicos ou alcoolistas, pois são pessoas com desempenho satisfatórios no trabalho, ou, até, acima da média e relacionamentos interpessoais minimamente estáveis. Acreditam não ter problemas de dependência por conta disso

Mas o termo “funcional” não significa que a substância traga funcionalidade para a vida desse profissional. Embora aparentemente o uso da substância esteja controlado ou adaptado ao dia a dia da pessoa, essa situação é falsa. Mesmo que aparentemente não afetados pelo uso da substância, esse comportamento é também considerado como dependência química. O uso recorrente da substância (álcool ou drogas) faz desenvolver a dependência, como em qualquer outro ser humano, o comportamento é dirigido basicamente para a busca de prazer. Sendo assim, um movimento que lhe ofereça sensação de bem estar, de prazer ou de aceitação social tende a repetição.

Esse comportamento, aliado à predisposição genética e a ação prazerosa dessas substâncias no sistema nervoso central, ligada principalmente ao centro dopaminérgico, pode ser a explicação do porquê muitas pessoas se tornem dependentes químicos. A dependência química não é um destino, mas sim uma progressão, um longo caminho de deteriorização durante a vida.

Alguns critérios são utilizados para o diagnostico da dependência química e do alcoolismo. São consideradas doenças crônicas, assim como o diabetes por exemplo, caracterizadas por comportamentos impulsivos e recorrentes de utilização de uma determinada substância para obter a sensação de bem estar e prazer. Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico De Transtornos Mentais V e CID-10  são necessários apenas três desses pontos, por pelo menos um ano, para que a pessoa seja considerada dependente química.

A tolerância é o primeiro critério relacionado à dependência. Tolerância é a necessidade aumento frequente nas quantidades de substancias para se atingir o efeito desejado, ou quando se necessita uma dose menor para se atingir o efeito. Aquilo que no popular é dito como “ficar forte” ou “resistente” à droga ou ao álcool.

Em segundo, a presença de sintomas de abstinência após a interrupção do uso ou diminuição. A abstinência é a presença de desconforto físico ou emocional após a interrupção do uso ou diminuição da quantidade consumida usualmente e/ ou o consumo da mesma substância ou outra qualquer para aliviar os sintomas desagradáveis consequentes da interrupção do consumo.

A utilização da substância em maiores quantidades ou por um período maior que o desejado inicialmente, assim como o desejo de reduzir o consumo ou a quantidade consumida e dedicar boa parte do tempo na obtenção ou consumo da substancia ou ainda na recuperação de seus efeitos e a alteração de comportamento da pessoa, como atividades sociais, ocupacionais ou de lazer constituem outras quatro características possivelmente encontradas.

E por último, apesar da consciência dos possíveis problemas ocasionados pelo consumo de substancia, sendo físicos ou psicológicos, seu consumo não é interrompido.

É muito comum ouvir de pessoas envolvidas com o consumo de álcool ou drogas que elas não são dependentes, pois podem parar na hora que desejarem. E afirmam fazerem uso apenas porque querem. Porém, o desejo de parar nunca surge, e, mesmo que existam períodos sem uso, após algum tempo, o mesmo padrão de consumo é retomado.

A dependência química é reconhecida como uma doença que afeta o indivíduo no campo biopsicossocial e as estratégias de seu tratamento busca o restabelecimento físico, psicológico e a reinserção social do dependente e de seus familiares. O tratamento é bastante complexo e seu sucesso e efetividade estão intimamente ligados ao grau de motivação do indivíduo. Os sintomas da dependência não diferem em grande escala de pessoa para pessoa, mas a motivação para a mudança se apresenta de uma determinada forma para cada um, sendo assim, variável. Após uma avaliação do quadro, o tratamento mais indicado será discutido junto com o dependente, sua família e a equipe multidisciplinar.

A internação pode fazer parte do tratamento, e não uma única estratégia. Ela é utilizada com o objetivo de desintoxicar o indivíduo, e não implica na cura da dependência química.  A internação é necessária quando o dependente apresenta sintomas de abstinência muito intensos, ou quando quadros psiquiátricos são desencadeados pelo uso excessivo de drogas. Após o período de internação (quando necessária), o acompanhamento continuado é a estratégia mais indicada nos quadros de dependência química.

Dessa forma, o tratamento multidisciplinar permitirá ao indivíduo lidar com os sintomas de abstinência, que poderão estar mais amenos e o tratamento psicológico da dependência química visa mostrar ao paciente que ele possui em si próprio meios de enfrentamento de situações desconfortáveis, sem a utilização de drogas.

Como já foi dito, os aspectos psicossociais exercem um papel muito importante na manutenção da doença, pois passados os sintomas de abstinência, são eles que permanecem. Assim, o acompanhamento de um psicólogo é de extrema relevância para o tratamento, pois mais importante do que a abstenção das substâncias que causaram a dependência, é manter o indivíduo afastado das drogas, que será um desafio constante na vida do paciente.

A participação do dependente químico em grupos de apoio, como Alcoólicos Anônimos, Narcóticos Anônimos, e de sua família em grupos respectivos, pode ser muito importante para determinados casos no sentido de promover uma maior motivação e de fazê-lo compreender que a dependência química não é um problema que afeta apenas a sua vida. A Clínica Equilíbrio Centro de Psicoterapia oferece atendimento em psicoterapia individual, familiar e casal, além de atendimento psiquiátrico para dependentes químicos e familiares.

Escolhas inconscientes…

Por Rafaela Haas Oliveira Zanini, Psicóloga – CRP 07/14351

A felicidade ou a tristeza não são obras do acaso. Existem situações na vida que não temos a menor possibilidade de escolha, mas existem tantas outras que temos mais possibilidade de escolha do que imaginamos ter.

Quando um paciente procura terapia, comumente ele não reconhece algumas questões que são determinantes em sua vida, nos caminhamos que costuma tomar. O estudo do inconsciente nos mostra que o homem não tem o poder de decisão que imagina ter, mas nem por isso o torna uma vítima. Ele é sim autor da sua própria história, ou ao menos de boa parte dela.

A psicoterapia proporciona um olhar para as atitudes, mas principalmente um olhar para dentro, para as motivações inconscientes de tal ato. Aquilo que não nos damos conta, aquilo que em muitos momentos nos faz sofrer e é de nossa total responsabilidade.

Um sintoma origina-se de elementos inconscientes da vida psíquica de uma pessoa. O inconsciente guarda a maior parte da nossa vida mental. Ele também se manifesta nos sonho e em atos falhos. Ele é movido por fantasias, ideias que estão ali ativas. Como diria Freud, ele é sutil mas não descansa até ser ouvido.

Aprender a pensar sobre, reconhecer funcionamentos, tendências, abre a possibilidade para uma pessoa modificar atitudes, modificar escolhas em sua vida. Em minha prática clínica observo como os pacientes vão gradativamente modificando suas histórias na medida em que vão se reconhecendo. Olhar para certas intenções inconscientes pode abrir a possibilidade de escolher novos caminhos, de deixar para traz aquilo que não queremos para nosso futuro.

 

 

A violência contra a mulher

Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

O Brasil ocupa o quinto lugar no mapa mundial de violência contra a mulher. Quase 2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano, sendo 175 mil por mês e 5,8 mil por dia. Em 70% dos casos, o agressor é uma pessoa com quem ela mantém ou manteve algum vínculo afetivo. As agressões são similares e recorrentes. Na última década, as taxas de feminicídio aumentaram em torno de 20% no Brasil.

O serviço Ligue 180 registrou, no primeiro semestre de 2015, que bem mais da metade dos relatos de violência contra a mulher ocorreram em relações heteroafetivas. Na maioria dos casos, a violência ocorre todos os dias ou mais de uma vez por semana; em mais da metade dos casos ela inicia no primeiro ano de relacionamento afetivo; em muitos dos casos foi percebido o risco da mulher ser morta pelo agressor. Em comparação com o mesmo período de 2014, houve aumento significativo nos registros de cárcere privado, estupro e tráfico de mulheres.

A Lei Maria da Penha, de agosto de 2006, criada para proteger e respaldar as mulheres vítimas de agressão, mudou o modo de julgar a violência contra a mulher. De acordo com essa lei a violência não precisa acontecer, necessariamente, dentro do lar, porque o importa para a lei é a proximidade de vínculo afetivo com o agressor. Quando falamos em violência contra a mulher deve-se entender qualquer ação ou conduta que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico a mesma. A Lei Maria da Penha tornou crime a violência doméstica e familiar contra a mulher, tipificando as violências em física, psicológica, patrimonial ou moral. Criou, inclusive, mecanismos de proteção e atendimento humanizado às mulheres, determinando a criação de juizados especiais de violência contra a mulher, com competência cível e criminal.

A violência psicológica, embora menos visível, é tão prejudicial quanto a física e caracteriza-se por toda ação ou omissão que cause dano à autoestima, à identidade ou ao desenvolvimento da pessoa. Incluindo-se, ainda, insultos constantes, humilhação, desvalorização, chantagem, isolamento, privação da liberdade (impedir a mulher de trabalhar, estudar, cuidar da aparência) e críticas pelo desempenho sexual.

Em caso de sofrer violência doméstica a vítima deve, primeiramente, ligar para o número 180 e entrar em contato com a central telefônica para atendimento às vítimas, criada pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM). Este serviço orienta as mulheres a buscarem o apoio necessário e explica os passos que devem ser tomados para a resolução do problema. Não é necessário a pessoa se identificar.

A violência sofrida pelas mulheres, além das marcas físicas, deixa sérios danos emocionais: influências na vida sexual da vítima, baixa autoestima e dificuldade em criar vínculos afetivos. Os sintomas psicológicos incluem também: insônia, pesadelos, falta de concentração, irritabilidade e até transtornos mais graves, como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático, além de comportamento destrutivo (uso de álcool e drogas) e, inclusive, tentativas de suicídio.

A mulher que convive ou já conviveu com a violência provocada pelo parceiro, geralmente apresenta um comprometimento psicológico. Tal comprometimento a impede de tentar mudar sozinha a sua realidade, uma vez que está submetida ao agressor e, estando submetida ao parceiro agressor, ela é invadida pelo psiquismo do mesmo, ficando sem o espaço mental próprio, sem condições de avaliar a situação que está vivendo.

A mulher que sofreu esse tipo de violência, além de ser afastada de seu agressor, também precisa de apoio psicológico para resgatar seu equilíbrio e estabilidade emocional. A psicoterapia irá ajudar no processo de autoconhecimento e na elaboração da situação traumática, já que essa violência deixa marcas profundas no psiquismo de suas vítimas.

Crianças em Psicoterapia

Por Maíra Pasin Pozzer, Psicóloga – CRP 07/14830

As crianças, assim como os adultos, também tem seus sofrimentos e angústias. Muitas vezes provenientes de momentos vivenciados, como traumas e situações específicas, e outras por dificuldades inerentes ao desenvolvimento e crescimento sendo assim, mais subjetivas.

Os adultos devem prestar atenção ao comportamento das crianças, para que possam perceber e ter a sensibilidade de dar-se conta do que elas estão tentando comunicar através de sua forma de interagir com o mundo.

Algumas poderão se retrair e se mostrar de forma mais tímida e, por vezes, deprimida. Outras poderão se mostrar agressivas e mais “difíceis” de lidar. Ambas as formas de agir demonstram sentimentos e dificuldades em dar conta daquilo que pode estar sendo demasiado para sua capacidade e seu psiquismo infantil.

Na escola por ser o ambiente em que, muitas vezes, a criança passa uma grande parte do seu tempo, torna–se um importante lugar onde poderão aparecer  e serem percebidos, comportamentos os quais denunciam que algo não está indo bem.

Quando percebemos que tais comportamentos se tornam recorrentes e começam a trazer prejuízos nas relações sociais, na escola, no aprendizado, entre outros, torna-se necessária a busca por uma avaliação profissional com o intuito de encontrar um caminho que auxilie esta criança e sua família a encontrar maneiras de enfrentar este momento.

A psicoterapia de crianças conta com peculiaridades específicas que provém da diferença necessária na técnica para esta fase do desenvolvimento. Desta forma, por se tratar de crianças que são dependentes e inseridas em um contexto familiar maior, contamos muito com a presença e participação ativa dos pais ou responsáveis no tratamento. Esta proximidade torna-se fundamental para um bom andamento da psicoterapia, bem como para a compreensão e orientação de manejos que resultarão em mudanças nos padrões iniciais que motivaram a busca por tratamento.

Os pais e responsáveis terão o seu espaço para trazer seus anseios e preocupações com seu filho. Já a criança, paciente na psicoterapia, terá a garantia de seu espaço preservado, englobando o sigilo necessário para o estabelecimento da confiança e vínculo que são as bases para o tratamento psicoterápico.

Quanto a forma de comunicação dentro da sessão, as crianças, diferentemente dos adultos e adolescentes, utilizam predominantemente o brincar para expressar seus sentimentos e estados mentais.  É através da hora do jogo, como denominamos as sessões de psicoterapia infantil, que a criança entrará em contato com seu mundo interno trazendo para o aqui-e-agora a possibilidade de, junto com o psicólogo, compreender e elaborar suas angústias.

Através do vínculo estabelecido entre psicoterapeuta, família e paciente temos a chance de dar um novo rumo para que as dificuldades de um momento atual não se perpetuem e se tornem, posteriormente, cada vez mais difíceis de lidar trazendo assim um grande sofrimento e limitações para a vida do paciente.

Preciso do seu NÃO!

Por Luciana Pandolfo Camaratta, Psicóloga – CRP 07/05918

A criança que não aprende a  ter limites,  cresce com uma deformação da percepção do outro e do mundo. Somente importa-se com o seu querer, mostra-se eternamente insatisfeita  , pronta para brigar o tempo todo. Aqui encontramos crianças que apresentam diversos graus de  dificuldade , desde aquelas que mostram alguma desobediência e prejuízos no desenvolvimento, até quadros mais graves como o distúrbio desafiador e opositor e perturbação de conduta. A criança difícil não escuta, não obedece e costuma reagir de forma desorganizada e destruidora. Tudo isto faz com que ela, pais e educadores, mergulhem em um ciclo de sofrimento, onde o vínculo  vai sofrendo prejuízos.

O desenvolvimento social, a aquisição de padrões de comportamento, a limitação da impulsividade dependem de aprendizagem. Esta por sua vez, depende da interferência adequada do adulto que envolve algum conhecimento de psicologia e principalmente de si mesmo.

Inicialmente precisamos pensar no desenvolvimento da criança. A internalização de normas é um processo lento. A criança vive em nome do prazer e do desejo. Muitas vezes conhece a regra,  mas ainda não desenvolveu o mecanismo de controle. A censura interna será formada, exatamente através da intervenção do adulto que fará o confronto desejo x realidade. A criança é egocêntrica, tem a percepção de que o mundo, gira ao seu redor. O adulto precisa mostrar, que existe o seu desejo e o desejo do outro, para que assim resolva seu egocentrismo. Está também desenvolvendo sua autonomia, querendo descobrir e desenvolver habilidades, apresentando por vezes, comportamentos inadequados ou até perigosos. Esta é uma tarefa árdua e por vezes difícil para o adulto, que precisa ter clareza para decidir sobre permissões e proibições .

Dizer SIM sempre não é proveitoso! Estamos privando a criança de desenvolver recursos para enfrentar a vida. O limite ensina a tolerar frustrações, que  preparam para enfrentar as futuras dificuldades  , certamente maiores e mais difíceis. Ensina a lutar pelo que quer ao invés de desistir, quando não houver quem faça imediatamente por ela. Ensina a esperar e contentar-se com o que tem e extrair prazer disto. O limite ensina a pensar, cria uma distância entre o sentimento e a ação, possibilitando a escolha de uma forma adequada de ação. O limite organiza a conduta , ensina a tolerar a frustração e adiar a gratificação.

Não podemos prever todas as situações. Vale então detalhar, alguns aspectos importantes para um limite eficaz. O limite precisa despertar “certa culpa”. A criança precisa perceber que desagradou. A culpa desencadeia o pensamento que por sua vez ,vai gerando um controle gradativo. A censura , a desaprovação dos pais, dói muito mais que a palmada. Esta é a dor que a criança precisa sentir. A culpa irá funcionar como advertência para não repetir o ato que provocou desaprovação. Para não perder o amor, aprende a renunciar algumas coisas.

Valorizar e incentivar atitudes positivas, também é um limite! O elogio, o carinho conduz a criança a agir de forma adequada, também pela necessidade de manter o amor. Algumas vezes, a criança chama mais atenção naquilo que incomoda. Se o elogio não é tão marcante quanto à reprovação, tende a agir errado para obter o ganho emocional de ser olhado. Provavelmente não saiba como comportar-se, uma vez que conhece o erro e não o acerto. É mostrado somente como não fazer !  Fazer de forma adequada pode não despertar  , reconhecimento e valorização nos adultos.  Fica em conflito, desorganizando a conduta , pois se age errado teme perder o amor, se age adequadamente não desperta o amor! “Fazer certo” deixa a criança no vazio!

As crianças que tem permissão para serem destrutivas, tornam-se muito agitadas. Experimentam um excesso de culpa, percebem-se destruidoras e esperam o contra ataque. A criança apenas descarrega sua raiva no momento da frustração e deixa permanentemente em si, sentimentos muito angustiantes. Percebe-se má e destruidora e junto a isto, aparece um constante medo de perder o amor  ,visto desagradar tanto. Ao sentir-se mais poderosa do que aqueles que cuidam dela, fica assustada e insegura, pois passa a duvidar da condição dos adultos de cuidarem dela  e percebe-se incapaz de fazer isto sozinha. Se bateu ou machucou alguém, quebrou algo ; deverá ser levado a pensar em uma forma de corrigir-se e desculpar-se, evitando assim, o excesso de culpa e o abalo da auto estima.

Quando a criança manifesta um comportamento inadequado ,está tentando pedir ajuda, para a solução de algo que não da conta sozinha. Tolerar a frustração, adiar a gratificação e reparar o erro cometido, são importantes características de um limite eficaz. Esta tarefa nem sempre é fácil de ser executada e pode envolver a elaboração de conteúdos inconscientes ativos e intensos, em todos os envolvidos na situação. Ajuda especializada poderá ser necessária. Avaliação, orientação à pais e educadores e a psicoterapia , são recursos para solução destas dificuldades.

O CORPO FALA

Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

Cada corpo tem sua linguagem; um vocabulário próprio que se expressa através de diferentes apresentações.

O corpo pode ter suas formas alteradas pelo excesso ou privação de alimentos, como no caso dos transtornos alimentares. Disfunções sexuais limitam o acesso ao prazer emocional e físico. Há corpos que buscam a dor através de submetimentos e humilhação, experimentados, por exemplo, em relações que são verdadeiras prisões, pois anulam a identidade e autonomia do indivíduo.

 Dependendo da dor, é no corpo que se encontram a anestesia ou a euforia, consequências do abuso de substâncias, o que ocorre frequentemente nos casos de drogadição. Assim, o corpo vai se revelando em suas múltiplas utilidades, comunicando o que não nos dispomos a ouvir de nossas dores. Quando nos distanciamos e desvalorizamos as emoções, banalizamos os sinais de alerta dos sofrimentos e prejuízos na vida.

O corpo é diário de indeléveis registros de nossas experiências, desde as mais precoces até as mais atuais. Sua superfície produz memórias que marcam nossa existência e pautam o viver, mesmo sem estarmos conscientes de suas influências. Assédio ou violência física são apenas algumas das marcas que um corpo é capaz de registrar. Contudo, existem inscrições que são sutis, porém não menos traumatizantes.

Ao ter nossa imagem refletida num espelho, o que enxergamos tem relação direta com o significado e sentido que atribuímos às nossas marcas. As imagens que construímos são condicionadas por um olhar míope e fugaz. Quando isto ocorre, a identidade do sujeito é marcada pela limitação de sua forma de ver o mundo e a si mesmo. O indivíduo é aprisionado por essas imagens. Bastaria uma pergunta para que o espelho revele a ilusão: será apenas isto?

A formação de imagens irrefletidas encobre as diferentes possibilidades de compreensão do que somos ou podemos ser. Como pensavam Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, o estatuto de um corpo não se reduz à matéria física. Segundo os pensadores, o autoconhecimento tem raiz no próprio corpo. O corpo fala. O problema é nem sempre sabemos escutá-lo.

Ao dar voz aos padecimentos que tem expressão no corpo, a psicoterapia, por meio do trabalho de escuta e compressão do que somos e como vivemos, oportuniza novas formas de bem viver. Assim, o diálogo terapêutico promove uma relação na qual é possível ao ser humano descobrir novas imagens e nesse processo redescobrir a si mesmo.

O real e o virtual – novos tempos

Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Outro dia assisti uma reportagem na TV que me fez pensar. Numa escola de uma pequena cidade no interior do estado os pais se queixaram à direção que os filhos estavam com notas muito baixas. A direção e os professores já haviam conversado sobre o assunto e queriam proibir o uso de celular, tablet e notebook na escola. Concluíram que a tecnologia estava distraindo os alunos e prejudicando seu rendimento. Os pais concordaram e assim foi feito. Para surpresa e descontentamento dos alunos a proibição aconteceu.

Passado um tempo, quando foi feita a reportagem, as notas dos alunos realmente haviam melhorado. Os alunos, apesar de não gostarem da proibição, disseram que se comunicaram mais, conversando, jogando, brincando, enfim, o clima na escola ficou mais alegre e barulhento. Os professores e pais estavam satisfeitos e com a certeza de que a tecnologia dentro da escola atrapalhava o aprendizado e rendimento dos alunos.

Será que a tecnologia atrapalha o aprendizado e inibe a comunicação? Porque esta escola precisou eliminar aquilo que é a cara do jovem atual? Porque não optou por usar a tecnologia a seu favor e em benefício dos alunos?

A maneira de se comunicar mudou, a maneira de aprender também está mudando. O aluno não precisa mais ficar sentado numa sala de aula ouvindo e copiando. Ele pode participar procurar, criar! Ele pode ser ativo na busca do saber! Ele pode fazer trabalhos com seus colegas sem precisar se deslocar, conversar com o professor ou com amigos que estão do outro lado do mundo, visitar museus, ler livros e entrar em bibliotecas.

Um movimento geral de virtualização afeta hoje não apenas a informação e a comunicação, mas também os corpos… A virtualização atinge mesmo as modalidades do estar junto, a constituição do “nós”: comunidades virtuais.” (Pierre Lèvy)

Não podemos negar o inevitável. Nossas crianças aderiram a tecnologia e não tem volta. A virtualização é uma realidade e precisamos nos adaptar a ela. É comum vermos em creches a conexão com a internet, ou seja, os pais podem de casa ou do trabalho, acompanhar seu filho. Muitas escolas já estão usando o tablet como material escolar obrigatório. O celular serve para fazer pesquisa em sala de aula. Muitos de nós estamos tentando acompanhar estes jovens em sua habilidade e destreza com mais ou menos dificuldade. Além de a tecnologia ser tão nova na nossa vida aprender com os jovens também é algo novo.

É frequente vermos crianças e jovens com um celular ou um tablet nas mãos. Eles jogam, conversam com seus pares, namoram, combinam encontros virtuais e reais. Alguns pais se incomodam e outros não se importam e até gostam, pois ficam com a sensação de segurança; os filhos não estão na rua e nem “em má companhia”.

“Virtual significa a pura e simples ausência de existência…O real seria da ordem do “tenho”, enquanto o virtual seria da ordem do “terás”, ou da ilusão…” (Pierre Lèvy)

Não obstante, muitos jovens se queixam que não conversam em casa, que se sentem sós, que os pais estão sempre ocupados e não tem tempo pra eles. Os pais por sua vez se queixam que os filhos não saem da internet, não conversam com eles, ficam fechados em seus quartos. Na era da comunicação, falta comunicação. E esse é o cuidado que os pais precisam ter. Ficar atentos às reais necessidades dos filhos, saber o que está acontecendo em suas vidas, não aceitar um não passivamente. Quando a dificuldade se torna grande demais pode pedir ajuda. A terapia psicanalítica é um espaço onde pais e filhos podem aprender a se comunicar.

Na escola e na família, professores e pais precisam se esforçar para acompanhar as mudanças e não ignorá-las e achar que podem simplesmente eliminá-la. Isso já não é mais possível. Mas sim, aprender a usar as novas ferramentas de forma saudável e criativa.

 

Pierre Lévy, cientista francês,  é filósofo, sociólogo e pesquisador em ciência da informação e da comunicação e estuda o impacto da Internet na sociedade, as humanidades digitais e o virtual.

Meu filho é hiperativo?

Por Ingrid Schonhofen Petracco, Psicóloga – CRP 07/11717

Para começar a conversa, nem toda criança agitada é considerada hiperativa. Num geral as crianças são muito mais ativas que os adultos, sem que isso seja patológico. Não se deve de forma alguma, classificar de hiperativa, uma criança somente por considerá-la agitada. É difícil determinar a origem do distúrbio e tentar atribuir culpas não é uma boa saída.

A criança hiperativa mostra um nível de atividade bem maior que outras crianças da mesma idade, o que acaba por incomodar bastante as pessoas ao redor. A criança torna-se difícil de lidar, porque “não para quieta”, tem dificuldade em permanecer numa atividade – mesmo brincar ou assistir TV, o que prejudica coisas importantes. Em casa, acabam sendo fonte de stress e até mesmo brigas entre os pais. Especialmente quando a criança perturba a tranquilidade, ou começa a chamar demais a atenção na escola.

O verdadeiro comportamento hiperativo interfere na vida familiar, escolar e social da criança, que passa a ter dificuldades em prestar atenção e aprender. Como tem um déficit importante em filtrar estímulos, são facilmente distraídas e tendem a ser muito agarradas às pessoas, necessitando de muita atenção.

É importante que as causas da hiperatividade sejam identificadas de forma correta. A falta de um bom diagnóstico diferencial pode levar a tratamentos inadequados. Saber mais sobre diagnóstico e tratamento para hiperatividade no TDAH faz toda a diferença na hora de ajudar seu filho.

Nem todas as formas de hiperatividade tem relação com déficit de atenção – TDAH. Outras causas possíveis são alterações metabólicas e hormonais, intoxicação por chumbo, complicações no parto, abuso de substancias durante a gestação, entre outras. Problemas situacionais, como crises familiares (luto, separação dos pais e outras mudanças) podem ser traumáticas para crianças e levarem a um quadro de hiperatividade reativa.

Todas estas possíveis causas devem ser investigadas antes de se pensar qual o melhor tratamento da hiperatividade em questão, especialmente quando se desconfia de hiperatividade em bebês.

É de total importância os pais perceberem que as crianças hiperativas entendem as regras e instruções. O problema é que elas têm dificuldade em obedecê-las. Esses comportamentos são acidentais e não propositais. Por isso, não culpe o seu filho por ele ser assim, isso só será pior para ele!

Se você identifica seu filho com este tipo de comportamento, saiba que há várias coisas que podem ser feitas para tornar estes desafios mais manejáveis.  Com a psicoterapia conseguimos resultados muito positivos e uma evolução do quadro bastante satisfatória.

EMDR: um novo enfoque na elaboração de traumas e ansiedades

Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

É comum que cada pessoa depare-se com caminhos, escolhas, desafios e obstáculos ao longo de sua vida. A cada memória armazenada dessas vivências é esperado que se vá atribuindo significados, criando pontos de conexão com outras experiências prévias.

Experiências emocionais constituem-se em pontos importantes na vida de cada pessoa por sensibilizarem, trazerem momentos de alegria e satisfação, marcando descobertas e aprendizagens importantes. Enquanto outras experiências emocionais são armazenadas em nossa memória com um cunho desagradável e perturbador, não ocorrendo adequadamente o processamento da informação da experiência nem a diminuição da percepção perturbadora e do sofrimento emocional. Estas experiências são revividas, sem controle e involuntariamente, no presente.

Quando é vivida alguma perda significativa, uma catástrofe, alguma experiência de violência, não se considera um trauma emocional, no entanto, sabe-se que a vulnerabilidade frente às próprias emoções será maior do que em outros momentos da vida. Para que essa experiência negativa não venha a condicionar a vida dessa pessoa, seu bem estar e iniciar sintomas de estresse pós traumático, é importante que se inicie o quanto antes um acompanhamento com um especialista capacitado, pois a intensidade do evento estressor poderá bloquear, fazer essa pessoa evitar situações corriqueiras de sua vida, bem como reagir com emoções descontroladas e desadaptadas em suas vivencias atuais. Esse bloqueio do processamento da informação vivida impede a ligação do evento traumático a recursos capazes de lidar com essas emoções desagradáveis.

O EMDR (Eye Movement Desensitizatization and Reprocessing), tradução em inglês de Dessensibilização e Reprocessamento através e Movimentos Oculares é uma técnica inovadora que age tanto como Psicoterapia quanto como parte integrante de processos psicoterápicos clássicos, beneficiando portadores de estresse pós traumático, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico e alguns tipos de depressão, ajudando a promover melhoria de desempenho profissional, artístico e criativo, principalmente por desbloquear essas falhas que ocorrem no processamento saudável dos eventos traumáticos, as vezes graves, ou mesmos corriqueiros.

O EMDR foi criado pela psicóloga Francine Shapiro em 1987, na Califórnia – EUA ao descobrir que movimentos oculares rápidos poderiam ajudar a curar a carga negativa vinculada as lembranças traumáticas, no sentido de permitir uma mudança da percepção dessas memórias difíceis. O método trabalha a memória traumática, (pensamentos, sentimentos, imagens visuais e sensações corporais), através da estimulação bilateral dos hemisférios cerebrais (direito e esquerdo), no qual o resultado consiste numa dessensibilização e reprocessamento emocional do trauma. Essa técnica consiste numa reestruturação cognitiva capaz de promover novas elaborações e significados mais adaptativos, com técnicas de auto-controle em protocolos validados cientificamente, que respeitam a individualidade de cada pessoa e as suas necessidades.

 Os transtornos relacionados a traumas e a estressores, nessa abordagem são especialmente beneficiados pelo trabalho de elaboração de traumas e reconsolidação de memórias adaptativas com enfoque psiconeurobiológico que promove. Acredita-se que quando um trauma ocorre, fica bloqueado no sistema nervoso central impossibilitando a sua elaboração natural. Esses estímulos bilaterais parecem reproduzir e estimular uma capacidade natural e intrínseca do sistema neurofisiológico humano para processar experiências emocionais e adaptar insights adaptativos, recriando um estado semelhante ao sonho que ocorre no sono REM (Movimento Rápido dos olhos). Com a intervenção a pessoa consegue ter uma sensação de maior distanciamento da memória e por isso consegue reunir mais recursos para reavaliar a experiência, que passa a ter seu próprio parecer sobre o que aconteceu, independente do de outras pessoas ou mesmo de seu terapeuta.

O EMDR não provoca amnésia dos eventos perturbadores, apenas modifica e transforma a forma como a pessoa experencia a memória traumática ao promover a construção narrativa mais coerente, capaz de permitir a resolução de conflitos emocionais resultantes de memórias passadas. Esse método é indicado para situações de luto, pensamentos intrusivos, fobias e dores crônicas, por exemplo. Esse método possibilita que afetos e cognições mais positivos se difundam pelas memórias associadas, por toda a rede neural, levando a comportamentos espontâneos mais adequados.