encontre-nos no facebook

Category Archive: Artigos

Preguiça

Por Keylla Jung, Psicóloga – CRP 07/07683

O termo preguiça, segundo a etimologia, refere-se a vadio, lento e tardo na ação. O termo pode referir-se, também, a características físicas, tais como pesado e gordo. Costumeiramente designamos o preguiçoso como uma pessoa avessa ao trabalho, negligente, morosa, que procura orientar a sua vida de forma a estabelecer atividades por conveniência, sem envolver grandes empenhos e diligências, sejam elas demandas de esforço físico ou mental.

Em nossos dias, a preguiça é demagogicamente condenada, e sua marginalização está associada a um modelo de vida moderno que considera o trabalho como a atividade que, por excelência, dignifica a humanidade. Na cultura contemporânea, a otimização do tempo para a realização do máximo de tarefas possíveis assumiu uma posição significativa na escala das virtudes a serem alcançadas por alguém que deseja sentir-se adaptado ao way of life dos novos tempos. Dessa forma, garantir a vida financeira, manter atividades físicas com regularidade, ser alguém bem informado, administrar uma casa ou família, e, principalmente, ser capaz de cultivar um network considerável, são demandas que não dão espaço à preguiça em nosso cotidiano. Você já conseguiu experimentar a preguiça sem culpa?

Se examinarmos mais atentamente nossa história, a preguiça pode apresentar outros significados, vinculados ao ócio, à criatividade e à depressão. Quando aparentada ao ócio, a preguiça se expressa não apenas no tempo que sobra depois do trabalho, como no caso do lazer, mas também como uma nova maneira ou ritmo de fazer as coisas que considerarmos importantes. Essa diferente relação com o tempo suscita que possamos experimentar a vida em outras dimensões, para além do trabalho como uma experiência penosa. Dessa perspectiva, surge a possibilidade de uma existência atravessada por fruição, contemplação e reflexão.

Relacionada à depressão, a preguiça pode representar uma espécie de indisposição do corpo ou da mente que impede o indivíduo de estabelecer foco e objetivos em sua vida. É possível identificar nesse estado mental sensações de tristeza, abatimeto, apatia, negligência e profundo desânimo. Isso resulta numa falta de sentido e insatisfação em qualquer ação na vida.

A psicoterapia permite agir sobre a preguiça em todas as suas expressões, a saber: com a devolução da possibilidade de experimentar a vida em outro ritmo sem a associação com culpa, destitui o sentido negativo que ilustrou a cultura moderna e contemporânea; possibilita, também, transformar a preguiça em tempo necessário para a criação; e, ao desfazer a confusão entre o normal e o patológico, permite o exercicio libertador de realizar, ou não, uma tarefa, porém com a responsabilidade da escolha. Restitui ao sujeito a chance de experimentar a boa e velha preguiça.

A perversão sustentada na contemporaneidade

Por Fernanda Thones Mende, Psicóloga – CRP 07/1378

A palavra PERVERTERE, que significa desmoralizar, levar ao caminho errado, corromper, vem do latim: PER-, “totalmente”, e VERTERE, “virar”, possibilitando assim o entendimento de uma temática tão discutida nos dias atuais na sensação de falta de ordem, corrupção e desvio de valores.

Segundo a psicanalista Elizabeth Roudinesco a perversão é um fenômeno sexual, político, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas que partilham atitudes coerentes sobre proibição do incesto, delimitação da loucura, designação do monstruoso ou do anormal, bem como, a cultura que se permite viver o prazer e se possibilita transgredir a um status quo, enquanto característica humana inata definida apenas na forma como é vivida.

As diferentes abordagens teóricas que estudam esse fenômeno foram amadurecendo o conceito de saúde e doença ao longo do tempo. Inicialmente com a  medicina considerando a perversão como algo doentiu e pejorativo pelo desvio feito do objetivo da sexualidade que não a preservação da espécie e da procriação. Mais tarde os conceitos de traços e diagnósticos da perversão e as falhas no desenvolvimento tornaram mais clara a sua compreensão.

É quando Freud (1905) em os “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” considera a sexualidade infantil perverso polimorfa, enquanto obtenção de prazer de várias formas, ainda fusionada ao desejo do adulto cuidador (ex: mãe). Diante de um processo indiferenciado do eu e do outro, típico do início do desenvolvimento do ser humano, torna-se difícil reconhecer o outro, que apenas existe para estar a serviço e a extensão do bebê (perversão). Ao ser regulado e devidamente acolhido na função materna adequada, essa criança ainda com toda a sua pulsão difusa e atrapalhada, aos poucos vai se ordenando e tendo a capacidade de reconhecer e respeitar a existência do outro, treinando suas capacidades de frustrar-se e de regular seus próprios impulsos, mostrando-se cada vez mais capaz de viver em sociedade e repeitar suas leis.

Como nos explica a psicanálise, a perversão é o contrário da neurose e enquanto esta consegue reprimir o desejo de obter prazer com o desvio de uma verba pública em seu próprio beneficio, o perverso facilmente transgride a lei e coloca em ato o seu desejo. A realidade de estar prejudicando milhares de pessoas privadas do benefício público, torna-se ignorada para dar lugar ao sentimento de “poder”, já que o outro continua existindo a serviço do próprio ego, como quando era bebê. É rir da morte alheia e divulgar a tragédia em redes sociais e não sentir-se culpado mesmo que sua função seria outra na ocasião.

No entanto, é poder ser “sem vergonha” e pouco importar-se com a opinião alheia! É se permitir vestir uma roupa diferente dos padrões impostos, podendo fazer um uso saudável desse traço perverso em um contraponto que preza pela liberdade de expressão, permitindo conquistar novas formas de subjetivação em uma sociedade opressora e também perversa. Como nos dizia Freud, é uma questão de equilíbrio em uma economia psíquica que precisamos bem administrar e nos responsabilizar pessoalmente.

Da transgressão de uma dieta exagerada destinada aos padrões sociais vigentes, a uma atitude criminosa que varia do bullying ao assassinato, a perversão antes controlada pela religião e seus dogmas místicos, passa a ser explicada e dominada pela ciência. Torna-se então possível ser controlada pelo próprio indivíduo integrante de uma sociedade capaz de criar leis justas e civilizadas e a submeter a demanda perversa a elas, sem mais carecer da existência de uma autoridade divina e abstrata que o faça, nem mesmo da autoridade de sua mãe que por sua vez internalizou a lei da cultura e o permitiu assim fazê-lo de forma saudável.

No entanto, como nos traz o psicanalista Contardo Calligaris, ao analisar o fenômeno do nazismo, identificou o que chamou de “montagem perversa” que se observa enquanto estrutura da sociedade. Em sua tese de doutorado (CALLIGARIS, 1993) concebeu a perversão como laço social que vai além do caráter sexual de formação individual de cada sujeito e por isso é capaz de dispertar nos seus integrantes uma “paixão de ser instrumento”, ou seja, que todos nós, mesmo com uma adequada  formação e resolução edipica podemos estar a ela submetidos se não estivermos constantemente nos analisando e contrapondo o que é imposto pela mídia ou qualquer demanda externa e interna, por exemplo.

Essa montagem perversa que Calligaris observou no nazismo, referente ao prazer das pessoas envolvidas [no genocídio nazista] estava na obediência, e não na matança […]” (CALLIGARIS, 1991, p. 115) e, segundo seus depoimentos, almejavam ser funcionários exemplares, assim como imagino, quando queremos estar na moda ou mesmos consumindo as melhores ideologias.

Atualmente o capitalismo desenfreado, não muito aquém da lógica do nazismo impõe uma verdade e acaba criando uma ideia de que o que foi consumido não mais poderá ser aproveitado, pensamento que acaba sendo replicado para as relações interpessoais, em que nada pode durar e sempre se pode consumir, nem que seja em eternas prestações.

A “montagem perversa”, que impõe o gozo parcial, não permite integração e portanto fica exposta no corpo protético, perfurado por piercings, com próteses de silicone e procedimentos que tiram de um lugar e poe em outro facilmente. O valor fica atribuído mais ao corpo do que a verdadeira subjetividade. O bordão de que somos todos iguais acaba gerando além da massificação e da possibilidade da execução de poder sobre essa massa, uma ideia de preconceito com o diferente. E será que o seres humanos podem ser iguais?

As instituições prendem as pessoas através de uma alienação de não expressar seu próprio pensamento e manipula-se o desejo do sujeito em função do desejo da organização. A dor não existe mais, pois é medicalizada e as pessoas quando a sentem não podem mais representa-las como forma de alerta para permitirem-se crescer e deixar de ser sujeito objetificado.

Por isso a necessidade de buscar avaliar esse traço comum a todos, com os profissionais especializados e eticamente fiscalizados para bem guiar seus pacientes na melhor elaboração e encaminhamento da perversão a que se está constantemente cercado. Antes de olhar a tendência terrorista do mundo ou corrupção dos políticos como coisa externa a si, porque não olhar a parcela individual, como forma de manutenção dessa higiene psíquica?

A perversão pode ser o gozo do mal ou a paixão pelo soberano bem, mas acima de tudo é a circunstância da espécie humana: o mundo animal está excluído dela, assim como do crime. Não somente é uma circunstância humana, presente em todas as culturas, como supõe a preexistência da fala, da linguagem, da arte, até mesmo de um discurso sobre a arte e sobre o sexo, enquanto forma saudável pela qual poderá ser expressada e representada.

Depressão na terceira idade

Por Ingrid Schonhofen Petracco, Psicóloga – CRP 07/11717

Atualmente o Brasil conta com 8,6% da população total com mais de 60 anos. Desta forma, estima-se que, no ano 2025 nosso país conte com mais de 32 milhões de idosos e a primeira posição da América Latina. A expectativa de vida é de aproximadamente de 72,6 anos para as mulheres e de 64,8 anos para os homens. Com esse aumento da população idosa, aumenta a prevalência de doenças e dentre elas está a depressão.

A depressão é o transtorno mental mais prevalente no idoso e os motivos são vários, como sentimento de improdutividade, falta de atenção da família ou mesmo o abandono, ausência de vida social, dificuldades em lidas com as limitações físicas próprias da idade, a perda do trabalho por conta da aposentadoria, e por fim a proximidade com a morte, além de fatores genéticos e de personalidade. A doença pode vir mascarada de demência ou, por exemplo, pelo Alzheimer.

Existe um tipo de depressão muito frequente na terceira idade chamada de pseudo demência, com sintomas característicos de uma demência normal: esquecimento, desorientação no tempo e espaço, etc. Ao receberem o tratamento correto esses problemas tendem a se resolver resolvidos ou bastante minimizados. Por isso temos que ter muito cuidado, pois, às vezes os sintomas são de Alzheimer, por exemplo, quando na verdade o idoso está depressivo.  Com isso, esta parcela da população, geralmente, passa por uma importante piora de seu estado geral e por uma queda abrupta em sua qualidade de vida e, em casos mais significativos, podendo chegar ao suicídio.

A psicoterapia, é um método de tratamento que proporciona ao individuo um melhor autoconhecimento, um espaço para entender seus sentimentos, refletir sobre seus comportamentos e a implicância que eles têm na sua vida.  Durante a Psicoterapia, o paciente entra em contato com conteúdos que escapam a nossa compreensão e que influenciam na nossa forma de sentir, pensar e agir. Por esse motivo, muitas vezes não conseguimos compreender nossos comportamentos e pensamentos, ou porque algumas coisas insistem em nao dar certo. A Psicoterapia não oferece fórmulas prontas, permite que o paciente possa pensar em si mesmo e encontrar seus caminhos. O profissional está ali para auxiliar nesse processo.

SONHOS

Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

Ao pensarmos sobre psicanálise é praticamente consenso tecer relações com complexo de Édipo, sexualidade, inconsciente e sonhos. De fato, todos estes, além de outros tantos, foram campos de investigação de Sigmund Freud, considerado o pai da psicanálise. Os sonhos, em especial, despertaram o interesse não apenas de Freud, mas daqueles que suspeitaram que algo além da consciência opera em nossa mente.

Os sonhos são explorados em diferentes perspectivas, desde uma visão místico–religiosa até a perspectiva científica. A neurociência, por exemplo, se encarrega de mapear o cérebro em suas diversas atividades, inclusive o sonhar.

Também a literatura se ocupa do tema, foi Shakespeare quem disse que “somos feitos da matéria de que são tecidos os sonhos e a nossa vida tão curta tem por fronteira o sono” (In: A tempestade).

Para o filósofo Arthur Schopenhauer, “A vida e os sonhos são folhas de um livro único, a leitura seguida dessas páginas é aquilo a que se chama a vida real, mas quando o tempo habitual da leitura (o dia) passou e chegou a hora do repouso, continuamos a folhear negligentemente o livro, abrindo-o ao acaso em tal ou tal local e caindo tanto numa página já lida como sobre uma que não conhecíamos, mas é sempre o mesmo livro que lemos (…) o que é o mundo dado na intuição, mais do que minha representação?” (In: O Mundo como Vontade e Representação)

Quando Freud finalmente concluiu que havia uma instância psíquica – o inconsciente – com poder de ação sobre nossos comportamentos, afetos e experiências, além de ocupar-se em descrever e formular as leis gerais que regem o psiquismo tratou de dar mostras sobre as vias de acesso ao inconsciente. Segundo ele, o sonho é a via real que nos leva ao conhecimento da atividade psíquica inconsciente. Valorizou da mesma forma os sintomas, atos falhos e a transferência, mas foi o estudo sistematizado sobre os sonhos que mereceu o título de uma de suas mais famosas publicações – A interpretação dos sonhos (1900).

No texto, diferente do que se pensou inicialmente, e que já era bem comum na época, não estavam listados os significados que cada sonho pudesse assumir. Embora Freud afirmasse que todo sonho tem significados e sentidos, os mesmos são restritos a biografia daquele que os sonha. Não há uma universalidade quanto à tradução simbólica dos elementos de um sonho. A proposta do estudo não era realizar um manual de interpretação dos sonhos, mas, demonstrar que estes são transformações basicamente pictóricas de algo conhecido pelo sonhador, porém, reprimido e inacessível à consciência. Contudo, as imagens que constroem cenários em nossos sonhos não são exatamente arquitetadas para encobrir e sim outra forma de expressar, em linguagem simbólica, a realidade subjetiva daquele que sonha.

Os sonhos de modo geral são responsáveis pelo desenvolvimento, regulação, manutenção e restauração dos processos psíquicos. Eles funcionam como um despressurizador da mente. Além de guardião do sono, é nossa forma de pensar enquanto dormimos. Satisfazem de forma alucinatória nossas necessidades reprimidas, realizam desejos proibidos e dão soluções a conflitos.

Nem sempre é claro o que o sonho pode estar representando sobre nossa vida psíquica, pois, vários são os pensamentos e conteúdos que podem estar representados em um único elemento do sonho. A intensidade emocional de um conteúdo muitas vezes está deslocada para figuras ou enredos aparentemente inofensivos o que produz uma sensação de confusão e estranhamento.

Não é incomum lembrarmos de algum fragmento do sonho e imediatamente relacionarmos com a lembrança de algo experimentado em vigília, um encontro ou acontecimento, um filme assistido, a conversa travada com alguém, enfim situações vividas de forma consciente. São os restos diurnos que estão registrados na mente e emprestam formas para os disfarces e embaralhamentos que os sonhos adquirem.

No processo psicoterápico a trama onírica é considerada como um valioso informe proporcionado pelo paciente sobre o que ocorre em seu mundo interno. A compreensão do mesmo parte da experiência emocional do paciente, a maneira racional como organiza o relato e as associações que decorrem da lembrança.

Donald Winnicott, importante psicanalista inglês, no seu livro o Desenvolvimento emocional primitivo, via “a vida de vigília como condição que vai sendo conquistada a partir de uma situação inicial do ser humano no qual o sono predominava”, ou seja, parece que a condição de consciência deriva de um estado inconsciente que gradualmente, em decorrência da interação com a realidade externa se organiza. As imagens oníricas são fundamentais como elos entre as fantasias do mundo interno e a realidade externa, são recobertos de afetos que dão dicas sobre a dinâmica mental.

Os sonhos oferecem conteúdos para pensarmos sobre o que somos e como vivemos, eles podem auxiliar no processo de compreensão que o sujeito pode construir de si mesmo. No entanto, a análise dos sonhos no processo terapêutico é uma experiência que deve ser espontânea, as interpretações são singulares e têm seus próprios desdobramentos.

PENSANDO SOBRE CIÚMES

Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Ciúmes é um sentimento de posse de alguém ou de alguma coisa. É o desejo de ter a posse na disputa com um rival. O comportamento ciumento é qualquer conduta para manter a posse.

O ciúme aparece na criança desde muito cedo pelo medo de perder seu objeto de amor que é a mãe e também na relação com o pai e com os irmãos. Ocorre porque a criança é totalmente dependente da mãe e entende que esta é só dela e vai lhe satisfazer todos os desejos que, no início da vida, são cuidados de alimentação, higiene e afeto. Não ser satisfeita pode significar para a criança não ter o amor da mãe: “…eu não possuo todo o objeto de amor ou não possuo todo o amor do objeto amado…” porque alguém (o rival, o pai, o irmão) rouba e não porque é impossível. Em algum momento a criança vai chorar e a mãe não vai poder atendê-la imediatamente e esta frustração pode gerar medo e insegurança.

O ciúme é projetado no rival, aquele que na ótica do ciumento ganhou a disputa ou está em vias de ganhar. O rival é idealizado, tem ou é o que o ciumento pensa que não tem ou não é. Na verdade o ciúme é uma tentativa de controle: duas coisas impossíveis, ter a posse e o controle total do outro

Sabemos que todos sentimos ciúmes, faz parte do amor, de nossos medos e inseguranças. Mas o ciúme também pode gerar ódio e ressentimento quando mais intenso e incontrolável.

Algumas pessoas ficam transtornadas pelo ciúmes, fantasiam situações tais como: “O que o outro está fazendo?”, “O que o outro está pensando?” A pessoa se alia à fantasia na qual ela é muito vulnerável e, nesta tentativa de controlar o outro, não dá-se conta de sua vulnerabilidade e desvalorização: “O que eu sou para o outro?”, “O que eu valho para o outro?”. Tais situações podem levar à violência.

É comum ouvirmos que o amor ideal é como o encontro de “duas metades de uma maçã”, onde um completa o outro. É uma retórica idealizada do amor onde um depende do outro para estar inteiro, onde cada um é incompleto. Aí voltamos para a criança pequena que sem a mãe não sobrevive.

São situações como estas que a psicoterapia psicanalítica pode ajudar muito. Buscando entender de onde vêm estes sentimentos tão dolorosos, o que significam e como lidar com eles.

Você tem traumas?

Por Luciana Pandolfo Camaratta, Psicóloga – CRP 07/05918

Trauma psicológico é um tipo de dano emocional que ocorre como resultado de um acontecimento qualquer, onde a pessoa não encontra recursos para lidar. A situação excede sua capacidade de processamento , e desequilibra o estado emocional. Ela não consegue reagir  frente à experiência de dor e sofrimento.

Podemos entender como traumática qualquer situação da vida, desde aquelas “experiências comuns e repetitivas da vida diária”, até grandes acidentes e catástrofes. A situação será ou não traumática, dependendo das condições psíquicas da pessoa que o vivencia e enfrenta. Será impossível esgotar a lista, mas para deixar mais claro, podemos citar alguns exemplos: experiências de rejeição, segredos e conflitos dolorosos de família, maltrato físico e emocional, situações escolares, separação e morte na família, abuso sexual, catástrofes e acidentes envolvendo morte e destruição. Não é preciso estar vivendo diretamente a situação. Ver ou participar, auxiliando os envolvidos, poderá ser suficiente para desenvolver uma vivência traumática.

O trauma pode ser um incidente único ou repetitivo, que faz a pessoa vivenciar ansiedade e medo. Por exemplo: uma criança que apresenta dificuldades na aprendizagem e não encontra auxílio adequado frente a esta, pode traumatizar-se.  Ao escutar todo o dia, “que é burra e incapaz”, construirá esta percepção de si mesmo. Isto poderá ser experimentado na vida escolar e ser transportado para sua vida em geral, apresentando diferentes matizes futuros. Poderá não confiar na sua condição de  trabalhar, não desenvolvendo as habilidades necessárias, porque acredita-se incapaz. Passará a vida desqualificando-se. Poderá achar-se pouco interessante, e apresentar marcados prejuízos nas relações afetivas, desde colegas até vínculos afetivamente mais significativos e importantes. A pessoa congela a experiência traumática e então repete e constrói  uma vida disfuncional.

O trauma provoca “um barulho interno intenso”, e pensamentos intrusivos insistem em se fazer presentes. Estes pensamentos, nem sempre são relativos ao trauma em si, mas derivados deste. Assim a pessoa poderá colocar-se em situações de risco e até mesmo aproximar-se de novas situações, na tentativa de resolução do trauma original.  É o inconsciente apresentando-se! A Compulsão à repetição, como sustenta Freud,  que afirma que, enquanto não há resolução, há repetição!

Na experiência traumática há uma reação física e emocional, marcada por alta intensidade. Assim a descarga de hormônios como o cortisol e adrenalina que afetam o controle de impulsos (e preparam o organismo para fugir ou partir para o confronto) e a memória, poderão  permanecer altas, mesmo após a remoção da experiência traumática. A recordação recorrente do fato estressor, faz com que o corpo,  volte a ter reações fisiológicas relacionadas a ele como fadiga, tensão muscular, sobressaltos, taquicardia, etc…As pessoas expostas a uma evento potencialmente traumático, podem ser resilientes e recuperarem-se ou desenvolverem outras doenças vinculadas a este,  como o transtorno de estresse agudo ou o transtorno de estresse pós traumático. Não há como saber  mas poderão desenvolver também, transtornos psiquiátricos como depressão, comportamentos obsessivos, fobias, transtorno do pânico, etc… Vale também citar, que outro fator de risco, é a idade em que se é exposto. Quanto mais cedo ocorre , piores serão as consequências para o indivíduo afetado,  pois inevitavelmente, menores serão os recursos de personalidade para enfrentar a situação e maiores serão as marcas na estruturação da mesma.

O tratamento envolve então, não somente colocar a pessoa em uma situação mais estável. Quando o assunto é trauma, esquecer é um fim impossível. Por este motivo, o processo de cura, passa pela reinterpretação das memórias ligadas ao evento traumático. A psicoterapia, constitui-se em um dos recursos. Será preciso auxiliar a pessoa a pensar a situação traumática, para que possa cicatrizar o evento e pouco a pouco, desligar a memória traumática. A pessoa será auxiliada, a dar um local psiquicamente adequado à vivência. Assim,  não mais necessitará transformar  a experiência traumática em comportamento,  e estará mais liberta para novas e melhores experiências.

Automutilação na adolescência

Por Carolina Mejolaro, Psicóloga – CRP 07/15377

A automutilação é um fenômeno social que atinge cerca de 20% dos jovens no mundo, segundo a OMS. É um problema de saúde pública e temos uma geração que voltou a expressar as dores emocionais através do corpo.

Consiste em cortes pelo corpo com laminas de barbear, facas, tesouras sempre com a tentativa de esconder dos pais. Estes são os principais sintomas de automutilação, ou cutting, (do verbo cortar em inglês). Desde 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Saúde Mental (DSM-V) considera a automutilação um transtorno autônomo, dissociado de outras síndromes, que tende a iniciar por volta dos 13 anos, sendo a ocorrência maior em meninas.

A automutilação não tem como objetivo o suicídio, no entanto é possível identificar muitas semelhanças entre o comportamento do suicida e daquele que agride o próprio corpo. Em ambos, a intenção predominante é de cessar a dor emocional, um pedido de socorro, uma tentativa de chamar a atenção daqueles que estão ao redor, normalmente dos pais.

O principal objetivo é aliviar a dor psíquica, a angústia, solidão, tristeza o vazio. O corpo acaba sendo uma via de escape para aliviar uma sensação ruim que a mente não está dando conta. A automutilação muitas vezes pode estar relacionada a quadros depressivos e ansiedade. Atualmente estes quadros estão relacionados com adolescentes que sofrem algum tipo de bulling, que apresentam grande dificuldade de socialização e aceitação nos grupos.

Os pais têm muitas dificuldades de identificar, pois geralmente os filhos escondem as marcas. A escola normalmente sinaliza para a família que algo esta errado com o jovem. É importante ficar atento a forma como seu filho se veste, se está adequada a temperatura. Os pais devem conversar com os filhos, mostrar importância a seus interesses, boa comunicação, resgatar a relação com estes jovens.

Quando identificado os sintomas o jovem deve ser encaminhado para uma avaliação psicológica e psiquiátrica, na maioria dos casos o tratamento combinado se fará necessário.

Depressão de Final de Ano

Por Carolina Fernandes de Abreu Marques, Psicóloga – CRP 07/11647 

Essa época em que se aproxima o final do ano nem sempre se apresenta com alegria e felicidade para todas as pessoas. Esse período pode se mostrar como demasiadamente angustiante e ansiogênico. Algumas pessoas sentem essa época do ano como se tivessem obrigação de ser feliz, de comemorar e confraternizar; quando muitas vezes não tem motivos para isso. Como não compartilham deste sentimento de alegria e felicidade, sentem-se como se fossem seres anormais ou que tem algo de muito errado com elas.

Por não compartilharem deste sentimento “natalino” de troca e reciprocidade, sentem-se cada vez mais sozinhos e excluídos. Sentem-se como se fossem obrigados a ser feliz. Mas qualquer obrigação pode oprimir.

E por isso que, muitas vezes o período de natal e ano novo, pode ser ao mesmo tempo um período no qual as pessoas esperam ansiosamente e ao mesmo tempo temem, sentem depressão, alguns passam por um verdadeiro terror fazendo contagem regressiva esperando a hora disso tudo acabar e poder voltar a rotina normal. Tudo devido à ansiedade e medo sobre o que vai acontecer, ou o que não vai acontecer, pois este é o ponto principal, a frustração de não acontecer nada de diferente, nada daquilo que se espera; geralmente de forma fantasiosa e especial.

Ainda assim, esta depressão de fim de ano pode ser canalizada de forma positiva e utilizada para que se reveja o que esta pessoa está fazendo de sua vida. Será que ela não passou o ano todo desperdiçando oportunidades para criar laços de amizade que valerão a pena ser comemorados no natal? Não será este o grande momento para aprender a lidar de forma diferente com a própria vida? Aproveitar a mudança de ano como uma boa oportunidade de fazer diferente, de abrir possibilidades para o novo; de forma madura e real, sem expectativas exageradas e que acabam levando a tristeza e frustração?

Algumas considerações sobre o Transtorno Borderline de Personalidade

Por Anna Paula Luz Flores , Psicóloga e Psicanalista – CRP 07/04536

A personalidade é como um conjunto de características psicológicas que determinam os padrões de pensar, sentir e agir de cada pessoa, sendo a sua formação um processo gradual, complexo e único para cada indivíduo, tornando-o exclusivo em sua maneira de ser. Tal formação se dá através de componentes inatos da personalidade, chamados de temperamento (base biológica instintiva e geneticamente determinada) que são as características afetivas e volitivas como o humor, extroversão, afetividade e impulsividade, e de componentes adquiridos, chamados de caráter, que inclui valores éticos e morais e conteúdos incorporados durante o desenvolvimento do sujeito.

Faz-se, então, importante esclarecer o que chamamos de Transtornos da Personalidade. Trata-se de situações clínicas psiquiátricas nas quais as pessoas têm, predominantemente, dificuldades nos relacionamentos interpessoais, o que acaba gerando muita angústia, instabilidade emocional e prejuízo no seu desempenho social, profissional e afetivo. São alterações marcantes no jeito de sentir, perceber a si e ao mundo e de se relacionar, diferentes da média geral na qual o indivíduo convive, trazendo sofrimento para si e para os que o cercam.

O Transtorno da Personalidade Borderline caracteriza-se por significativa instabilidade e imaturidade emocional, desregulação afetiva, sentimentos intensos polarizados, manifestações inadequadas de raiva, baixa autoestima, insegurança, intolerância à frustração, medo de abandono e angústia de invasão que acabam levando a muitos comportamentos impulsivos e perigosos, como as automutilações e condutas suicidas.

Os pacientes tentem a desenvolver relacionamentos intensos, confusos e desorganizados. Mudam seus conceitos sobre as pessoas e seus sentimentos de forma muito rápida, tendo suas qualidades anteriores, atualmente desvalorizadas. Costumam ser incomodados por sentimentos de vazio crônicos, sentimentos de rejeição e abandono, não importando se isso é real ou não. Os primeiros sintomas tendem a aparecer durante a adolescência, persistindo geralmente por toda a vida. As mulheres fazem parte de um universo mais representativo dos portadores deste transtorno.

A fase inicial pode ser desafiadora para o paciente, seus familiares e terapeutas, pois, como os sintomas tornam-se perceptíveis justamente na adolescência, muitas vezes a família supõe que são típicos da idade, sendo vistos como rebeldes, problemáticos, geniosos e temperamentais, não fazendo ideia de que estão diante de um distúrbio grave. Muitas vezes ainda o quadro pode ser confundido com depressão e transtorno bipolar.

Finalmente, através das relações entre pacientes borderline e psicoterapeutas, revelam-se traços importantes do funcionamento mental desses. Tendem também a formar relações intensas e dependentes que, entretanto, logo descambam para relações manipulativas e desvalorizadoras. Vários autores ressaltam a importância do ambiente terapêutico no qual esses pacientes são tratados, pois teriam grande probabilidade de se desestruturarem ao longo do trabalho terapêutico. É comum desistirem do tratamento ou não aproveitarem bem a terapia.

Mesmo em casos mais leves necessitam de tratamento psicoterápico e o uso de medicação fica delegado aos sintomas associadas. A realização de psicoterapia é fundamental para a maior estabilidade emocional futura, visando uma crescente conscientização dos atos/comportamentos/ações na busca de uma melhora nos relacionamentos interpessoais. As medicações não são o tratamento de primeira escolha e são mais usadas para o tratamento das comorbidades, bem como para evitar descontroles emocionais intensos.

AFINAL O QUE É SAÚDE MENTAL?

Por Aline Menegotto, Psicóloga CRP 07/08580

Atualmente, no Brasil, a terceira causa de afastamentos do trabalho para o INSS se dá por doença mental. Pesquisas registram que uma em cada quatro pessoas no mundo sofrerá uma condição de falta de saúde mental na sua vida. A depressão será a segunda maior causa de incidência de doenças em países de renda média e a terceira maior em países de baixa renda até 2030.

Assustador não? Possivelmente todos leitores deste texto têm alguém próximo de si que está passando ou já passou por algum “sofrimento ou problema psíquico ou mental”, também chamado “transtorno ou doença mental, psicológica ou psiquiátrica”. Tenhamos claro que essas expressões, por mais que parecem similares, não significam a mesma coisa e não são sinônimos de “loucura”, embora alguns comportamentos ou sentimentos tidos como “loucos” possam ser causados por doença mental (não entraremos nas doenças mentais nesse texto).

A banalização do diagnóstico e o uso elevado de medicações como intervenção diante da vida têm gerado preocupação. Já temos descrito cerca de 500 tipos de transtornos mentais e do comportamento nos manuais médicos e psiquiátricos. Com tantas descrições, quase ninguém escaparia a um diagnóstico de problemas mentais. Não se trata de não ver a utilidade e relevância dos manuais, bem como da medicação, muitas vezes fundamental para o tratamento de alguma doença. Mas, de ressaltar que o sofrimento psíquico tem sido enquadrado, muitas vezes, como sintoma de doença mental ou falta de saúde mental, e não é.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) afirma que não existe definição “oficial” de saúde mental. Diferenças culturais, julgamentos subjetivos, e teorias relacionadas concorrentes afetam o modo como a “saúde mental” é definida. A ampla gama de sintomas presentes nos manuais, bem como a forma diagnóstica proposta por eles permite que muitos acontecimentos cotidianos, sofrimentos passageiros ou outros comportamentos, possam ser registrados como sintomas próprios de transtornos mentais e não são. Confunde-se precocemente o patológico com mal-estar existencial, com situações passageiras e por vezes necessárias de dor.

Por outro lado, convém destacar que a ausência de uma doença mental não implica que o indivíduo goze de boa saúde mental, seu desenvolvimento integral deve ser olhado. O acompanhamento do comportamento diário de uma pessoa é a melhor forma de conhecer o estado da sua saúde mental. Quando o sofrimento psíquico se faz presente, conversar com um psicólogo pode ajudar na aceitação de que os conflitos internos são inerentes ao ser humano e, aprendendo a conviver com eles, estamos mais perto da saúde do que da doença.