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Como seguir em frente?

Por Maira Noroefe – Psicóloga, CRP 07/13825
Diariamente a vida nos coloca diante de situações as quais, se pudéssemos escolher, jamais viveríamos. A perda de um amor,
decepção com uma pessoa, a perda de um emprego muito importante, expectativas frustradas, são pequenos exemplos de dores muito grandes e intensas. O coração aperta, o peito doe, desaparece o apetite, o sono e, por vezes, a vontade de seguir em frente. Parece que já não há mais sentido nos planos uma vez traçados.

A tendência é que se tenha sentimentos e sensações muito ruins: sentir-se fraco, vulnerável, culpado, injustiçado, com raiva ou sozinho são emoções muito comuns de virem à tona quando nada está bem. Mas a realidade pode ser diferente do que todas essas sensações nos falam. A verdade é que a grande maioria das feridas são possíveis de serem tratadas e sanadas. Entretanto, esse é um processo que sem dúvida, custa! Custa tempo, custa dedicação, custo esforço. Custa percorrer um caminho que nunca trilhou e isso implica em fazer as coisas do jeito que nunca fizera antes.

Em geral, momentos de crises são sempre momentos de oportunidade também. Agir com calma e parcimônia são fundamentais para (re)começar. Este talvez seja o momento de investir muita energia em coisas que trarão benefícios tanto físicos como emocionais. Leva tempo, demora, mas o tempo vai passar de qualquer maneira.

Permita-se tentar. Peça ajuda e acredite, com esforço, dedicação e tempo é possível cicatrizar nossas feridas. Apaziguar o coração. É preciso também cuidar da saúde emocional. Cada vida traz uma história e cada pessoa precisa entender qual é a sua história, por quais motivos as coisas que acontecem nela, acontece assim? O caminho do autoconhecimento é tão precioso porque ele nos torna capazes de sermos mais fortes, abre mais possibilidades em como enfrentar a vida e talvez contribua para que melhores escolhas aconteçam. 

Bullying, afinal isso existe?

Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

Apesar de esse termo ser muito falado na mídia, ainda é comum desconhecimento tanto da comunidade escolar quanto dos pais sobre o assunto. Muito escutamos a frase que “fulano está sofrendo bulling na escola”, ou “esses assassinatos na escola foi porque o aluno sofreu bulling!”, e em seguida “no meu tempo isso não exista”, “isso é falta de laço”…, mas, afinal o que é o “bulling”?

Bulling é a situação que se caracteriza por agressões intencionais, verbais ou física, podendo ser inclusive online, de maneira repetitiva, por um colega ou um grupo contra outro colega. O termo tem origem na palavra inglesa bully, que significa valentão. Mesmo sem uma tradução literal para o português, o termo bulling é usado para designar uma situação de ameaça, humilhação, tirania, intimidação e maltrato. O apelido inofensivo pode afetar emocionalmente, e provocar além de afastamento, queda no rendimento escolar, doenças psicossomáticas (alergias, tosse, dores musculares, enxaqueca), e influenciar a formação da personalidade, em casos mais extremos, levando ao homicídio ou suicídio.

O bulling inicia sempre com um agente causador , ou seja, a pessoa que provoca o desconforto, que cria o apelido, o deboche. Habitualmente, esse busca auto afirmação, quer ser popular, precisa da aprovação e de uma boa imagem de si. Precisa da satisfação de ver o outro humilhado e assim se sentir poderoso. É alguém que não conseguiu aprender a transformar sua raiva em diálogo e a opressão O satisfaz.

Nas escolas essas situações são muito facilmente observadas, e cabe a comunidade escolar diferenciar uma brincadeira de uma situação de bulling. Não é qualquer desentendimento ou apelido que precisa de intervenção de um adulto, muitas situações fazem parte do desenvolvimento de crianças e adolescentes.

Algumas dicas para trabalhar com crianças e adolescentes a prevenção do bulling:

*incentivar a solidariedade, a generosidade, o respeito as diferenças por meio de conversas, campanhas de incentivo à paz e a tolerância, atividades de cooperação, interpretação de diferentes papeis em simulações de conflitos. Lanches coletivos, atividades em grupos, gincanas colaborativas, são algumas alternativas.

*desenvolver um espaço-tempo em sala de aula para a comunicação entre os alunos

*estimular que todos estejam atentos e comuniquem qualquer situação de constrangimento percebidas dentro do ambiente escolar

Os professores devem sempre lembrar que são fundamentais  na formação emocional de crianças e adolescentes, e pode ser o agente transformador numa situação de bulling. Estimular apenas que uma briga encerre não auxilia no processo de construção. Incentivar a paz sem diálogo não ajuda na prevenção ou solução do bulling , pois pode favorecer o senso de injustiça. Não ensina como solucionar o conflito, não oferece alternativas construtivas, não oferta espaço para o diálogo. Uma sugestão é buscar trazer a situação para a turma, convidando todos a opinar, de forma orientada, e construírem novas saídas para o conflito.

A Clínica Equilíbrio – Centro de Psicoterapia oferece acompanhamento psicológico individual e familiar para as crianças e adolescentes com profissionais altamente qualificados, atentos as etapas evolutivas de cada indivíduo. Nossos profissionais estão aptos a entender todas as formas de comunicação, entre jogos e brincadeiras e oferecemos também avaliação psicodiagnóstica.

Precisamos falar sobre: limites!

Por Camila Trevisol Fernandes, Psicóloga – CRP 07/23581

A infância e a adolescência é um momento crucial para o desenvolvimento da personalidade. Ela se estrutura e se molda essencialmente no meio familiar, na relação com os pais, na educação e nos valores que lhe são ensinados.

No passado, a educação era muito rígida, a relação entre pais e filhos era distante, composta muitas vezes por limites severos e castigos corporais.  Com as mudanças na sociedade e na estruturação na família, encontramos hoje uma na grande dificuldade dos pais de encontrarem um equilíbrio na imposição de limites na educação dos filhos.

Acredita-se que tanto o excesso, quanto a falta de limites, implicam em danos no desenvolvimento psíquico das crianças. Quando esses limites se tornam imposições e exigências narcísicas dos pais, desconsiderando as necessidades genuínas das crianças, elas podem se tornar adultos inseguros e dependentes de sua aprovação.

Por outro lado, quando não há espaço para as frustrações, algumas crianças podem acreditar que os outros devem atender a todas as suas vontades ignorando, portanto, as necessidades e a autonomia dos outros. A frustração, em boa medida, possibilita ao indivíduo entrar em contato com a realidade e com as consequências de suas ações, permitindo maior aprendizagem, experiência e valorização sobre as coisas da vida.

Na educação dos filhos, os pais podem experimentar muitas dúvidas e sentimentos de culpa, contribuindo para as dificuldades na construção de limites na atualidade. Através da infância dos seus filhos, os pais são influenciados pelos seus próprios conflitos internos, sendo muitas vezes aterrorizados pelas suas “falhas”, procurando compensar com condutas permissivas acreditando tornar a criança mais feliz. Porém, pelo contrário, o não estabelecimento de regras claras, deixam as crianças inseguras, desprotegidas e angustiadas, precisando dar vazão a esses sentimentos no relacionamento com o outro.

O excesso de liberdade rompe com uma relação positiva entre pais e filhos. Os pais devem ser vistos como figuras de autoridade que estão ali para educar e apoiar com firmeza e confiança diante das problemáticas que os filhos enfrentam, e não somente como os seus melhores amigos, pois estes, os filhos irão buscá-los no decorrer de suas vidas.

Por fim, embora seja uma tarefa complexa, a formação de limites dentro do âmbito familiar deve ser percebida como um processo de desenvolvimento que envolve compreensão, diálogo e respeito entre seus membros. Através disso, são transmitidos valores éticos consistentes capazes de fazer com que a criança e o adolescente ajustem seus comportamentos às exigências da vida em grupo, caso contrário, a sociedade se encarregará disso.

A escola solicitou um psicodiagnóstico, o que é isso?

Por Carolina Rodrigues Azevedo, Psicóloga – CRP 07/19699

O psicodiagnóstico é uma avaliação psicológica clínica que objetiva, principalmente, conhecer o paciente de modo integral e dinâmico. Compreende-se que tanto os aspectos cognitivos, emocionais e afetivos estão interligados e se influenciam mutuamente em seu funcionamento psíquico. O psicodiagnóstico visa avaliar tanto as dificuldades quanto as potencialidades do indivíduo. Além disso, busca analisar também sua estrutura de personalidade, aspectos do desenvolvimento global, o modo com que lida com seus sentimentos e pensamentos, com o ambiente ao seu redor e como estabelece e mantém seus relacionamentos sociais.
Grande parte dos encaminhamentos atuais para este processo vem das demandas escolares. Porém, porque surgem estas demandas?
Os professores, psicólogos ou outros profissionais da escola podem identificar dificuldades de aprendizagem nos seus alunos e, por meio da avaliação psicológica, procuram investigar se estes sinais e sintomas se originam de questões cognitivas (como a inteligência, atenção, concentração, memória…) e/ou emocionais (como sentimentos que surgem em decorrência de vivências de lutos, separações, eventos traumáticos ou mal elaborados psicologicamente…). Outros casos costumam se apresentar por meio de dificuldades de comportamento, tais como agitação em sala de aula, condutas agressivas, opositoras e outros impasses nas relações com colegas e professores.
O psicodiagnóstico pode ser ainda solicitado por profissionais como pediatras, neurologistas, pedagogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos e outros que acompanham os alunos. Por meio desta avaliação eles podem buscar confirmar uma hipótese diagnóstica ou realizar um diagnóstico diferencial para complementar seus tratamentos.
A duração do psicodiagnóstico é limitado no tempo, ficando geralmente na faixa de oito sessões. Ao final deste trabalho, é realizada uma entrevista devolutiva com o paciente e com seus responsáveis, a fim de conversar sobre os resultados da avaliação e futuros encaminhamentos. Posteriormente, sendo acordado com estes últimos, busca-se um contato com a escola a fim de alinhar informações e fornecer orientações para auxílio em seu percurso educacional

Síndrome de Burnout e a relação com o trabalho nosso de cada dia

Por Larissa Mendonça Lütkemeyer – Psicóloga,  CRP 07/16189

A relação do homem com o trabalho, desde a revolução industrial, vem se intensificando cada vez mais. Em 1936, Charles Chaplin já retratava essa relação no clássico “Tempos Modernos”. No filme, o personagem de Chaplin adoece devido à exaustão ocasionada pelo excesso de trabalho em circunstâncias que não levavam em consideração suas condições físicas ou psicológicas.A exigência do melhor desempenho no menor tempo possível e a pressão pelo resultado já se faziam presentes.

Muitos anos se passaram desde então. Mas como será que nos relacionamos com o trabalho nos dias de hoje?Quantas horas do nosso dia dedicamos ao nosso emprego ou ocupação? E em que condições (físicas e psicológicas) realizamos o nosso trabalho? Você já pensou sobre isso?

A exigência social por desempenho e resultado segue muito em alta. O uso do celular, da internet e das redes sociais diminuiu muito as fronteiras entre a vida pessoal e a vida profissional. Com a possibilidade de estarmos 24 horas conectados com o mundo, não é incomum vermos alguém respondendo mensagens de trabalho muito além do seu horário de expediente. Isso, muitas vezes, pode fazer com que não consigamos desligar a mente dos afazeres relacionados às obrigações laborais e, assim, vamos aumentando o número de horas dedicadas ao trabalho e, consequentemente, diminuindo as horas disponíveis para outras atividades: de lazer, de descanso e de interação social.

Cada um de nós tem o seu limite pessoal e particular do que é aceitável ou inaceitável, do que faz bem ou mal para si, e reage de uma forma ao transpor esse limiar. Ultrapassar seus limites, dizendo sim quando deveria dizer não, trabalhando muito, dormindo pouco, alimentando-se mal, tendo pouca interação social e poucos momentos de lazer, pode levar a uma sobrecarga física e psíquica que pode resultar, literalmente, num transtorno: a Síndrome de Burnout (burnout em inglês significa queimar-se por completo ou esgotamento).

Em 1974, o psicanalista alemão Herbert Freudenberger criou o termo “burnout” para descrever os sintomas que ele mesmo sofria. Foi a primeira descrição da Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional, caracterizada pelo estado de tensão emocional e estresse crônico provocados por condições de trabalho desgastantes. Em 1999, o Ministério da Saúde brasileiro incluiu o burnout na lista de doenças relacionadas ao trabalho e, no CID-10 (Classificação Internacional de Doenças) atual, ele está relacionado aos transtornos mentais e do comportamento relacionados com o trabalho.*

Na prática, quem sofre dessa síndrome refere um esgotamento físico e mental, uma exaustão, um cansaço que não passa com folgas, férias ou atestados médicos, uma sensação de esvaziamento, de ter passado dos limites e não ter recursos físicos ou emocionais para sair dessa condição, falta de perspectivas e sensação de ineficácia. Além disso, dificuldades de concentração, dores de cabeça e musculares, alteração dos batimentos cardíacos, problemas gastrointestinais, insônia, alterações do apetite, alterações repentinas de humor, isolamento, negatividade, desesperança, sentimentos de fracasso, incompetência e insegurança, são outros sintomas também relacionados. Eles podem surgir de forma leve, mas tendem a piorar com o passar dos dias.

Profissionais que trabalham longe da família, lidam com situações estressantes e de perigo ou têm o rendimento avaliado por produtividade são os que têm maior probabilidade de desenvolver a doença. Não por acaso, alguns dos profissionais que mais sofrem com esse problema são agentes da segurança, controladores de voo, profissionais da saúde, bancários, executivos, professores, jornalistas, motoristas de ônibus, atendentes de telemarketing, entre outros. Além da sobrecarga ou frustração com o trabalho, características como perfeccionismo, necessidade de se mostrar indispensável e ser reconhecido por seus feitos para se sentir satisfeito, podem também aumentar o perigo para desenvolver o problema.

Se você se identifica com alguns desses sintomas, é preciso procurar um psicólogo ou um psiquiatra e relatar o seu sofrimento com detalhes.Assim, o profissional poderá fazer o diagnóstico e, a partir daí, promover o tratamento adequado: com psicoterapia e, se necessário, medicação para controlar os sintomas, quando muito intensos. Na psicoterapia encontramos acolhimento e a possibilidade de conhecer melhor nossos limites e jeitos de encarar e reagir ao trabalho e à vida em geral. Isso permitirá adquirir uma sensibilidade para perceber o problema e criar estratégias para não cruzar essa fronteira novamente, podendo, então,traçar novos planos para o futuro.

Trabalhar para viver e não viver para trabalhar, ter uma vida saudável, permitindo-se ter hobbies, momentos de lazer e interação com família e amigos, são atitudes importantes para modificar a relação com o trabalho e minimizar o impacto negativo que ele pode ter na sua vida. Além disso, aprender a perdoar seus erros e impor alguns limites para si mesmo e para os outros também é fundamental.

*Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde do Brasil (OPAS Brasil), a partir de 2022, estará incluído no CID-11 como um fenômeno ocupacional, com a seguinte definição: “Burnout é uma síndrome conceituada como resultante do estresse crônico no local de trabalho que não foi gerenciado com sucesso. É caracterizada por três dimensões: sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia; aumento do distanciamento mental do próprio trabalho, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao próprio trabalho; e redução da eficácia profissional”.

Fontes: Organização Pan-Americana de Saúde do Brasil (OPAS Brasil), Ministério da Saúde, Revista Saúde, PEBMED.

Adolescência: entre a saúde e a doença

Por Raquel Schwartz Henkin – Psicóloga, CRP 07/22781

A adolescência é uma etapa evolutiva complexa e geralmente é vivida de forma bastante turbulenta emocionalmente. É um período de transformações que exige uma reestruturação da identidade, ocorrendo um confronto entre um passado infantil, um presente avassalador e um futuro desconhecido.

As transformações corporais que se desencadeiam a partir da puberdade geralmente são vividas com muita ansiedade pelo adolescente. Muitas vezes um corpo “adulto” se desenvolve sem que haja maturidade emocional para tal. Este desequilíbrio pode trazer muita angústia e sentimentos de confusão.

Essas transformações fazem com que seja necessário um importante trabalho psíquico, pois esse jovem precisa lidar com a perda de um corpo infantil, perda dos pais da infância e de uma identidade infantil até então construída (Knobel, 1989). Ou seja, ocorre uma crise identitária que poderá se manifestar de diversas formas. O tipo de manifestação dependerá de como esse indivíduo vem se desenvolvendo até então e com que recursos internos (capacidade de elaboração, capacidade simbólica, estrutura de ego) e externos (família, escola, comunidade, etc.) ele pode contar.

É essencial destacar que comportamentos que seriam considerados patológicos em adultos não podem ser assim considerados na adolescência. É comum, por exemplo, que durante a adolescência algumas ansiedades se incrementem e que ocorram flutuações de humor. No entanto, há situações em que pode se tornar mais complexo discriminar o que são condutas “normais” da adolescência de condutas realmente patológicas.

Se por um lado a rebeldia, as transgressões das normas, o uso/abuso de álcool e drogas, automutilações, transtornos alimentares, entre outros comportamentos de risco, por exemplo, chamam atenção da família e costumam trazer grandes preocupações, manifestações mais silenciosas, como o isolamento social, às vezes acabam passando despercebidas. Tanto em um quanto em outro caso, deve-se entender essas ações como formas de comunicação desse jovem, indicando que algo não vai bem com ele. Em algumas situações, pode-se observar melhora somente com o acolhimento e apoio da família, mas em outras, se faz necessária ajuda profissional.

Importante ressaltar que quanto maior for a insegurança e a desorganização internas, maior será a importância da existência de um apoio externo significativo (Jeammet, 2005), ou seja, mais implicada a família precisará estar no processo.

Uma avaliação e um acompanhamento psicológico consistentes, auxiliam o adolescente e a família a compreender os sintomas ou comportamentos dentro do contexto de vida desse jovem, criando as condições para que ele possa, aos poucos, se reorganizar, assim como a família descobrir novas formas de lidar com as dificuldades que estão se apresentando.

A importância da neutralidade no tratamento psicoterapêutico

Por Letícia Schmitz, Psicóloga – CRP 07/18830

Certa vez, durante um atendimento, um paciente questionou como eu lembrava de tantos detalhes, de assuntos que já havíamos conversado em sessões anteriores sem ter anotado nada durante a sessão. Comentei que a mente é a ferramenta de trabalho de um psicoterapeuta e que ficam guardadas as informações mais importantes ditas em uma sessão.

Em outra ocasião, outro paciente fez uma pergunta um tanto pessoal, a qual ele gostaria muito que tivesse sido respondida, ao que eu, antes de pensar em responder, fui tentando investigar os motivos da pergunta, as fantasias que o paciente tinha a respeito daquele assunto, os sentimentos que foram despertados para gerar tal questionamento.

Esses são alguns dos exemplos de demonstram a importância dos psicoterapeutas que utilizam da abordagem psicanalítica em seus atendimentos se manterem neutros, ou seja, como um espelho que reflete a imagem dos pacientes e não como pessoas que dão opiniões, conselhos ou até mesmo dicas e sugestões do que fazer em determinadas situações.

O paciente quando em tratamento, vai utilizar da pessoa do terapeuta para projetar sentimentos e vivências que passou ao longo da vida naquela relação, que chamamos de relação transferencial. Se o terapeuta conta sobre a sua vida, divide situações que acontecem com ele, sem que dê espaço para serem conversadas as fantasias do paciente, ele não está contribuindo para que os sentimentos do paciente possam ser (re)vividos. Assim como, se o terapeuta seleciona assuntos (como p.ex. fazendo anotações na frente do paciente) é como se o profissional demonstrasse o que acredita ser mais relevante naquele discurso, enquanto que esta classificação só pode ser do paciente e de mais ninguém.

Da mesma forma, se o terapeuta demonstra opinião, crítica, julgamento moral ou expressa algum tipo de concordância com o paciente, isso pode impedir que o paciente consiga pensar a respeito de si mesmo, refletir sobre o que é necessário, como se ele obtivesse uma resposta pronta, e com isso, a autonomia que o paciente pode adquirir fique ameaçada.

Freud em seus escritos de 1912 já expressava aos aspirantes sobre as recomendações neste tipo de tratamento. Deste modo, a psicoterapia de orientação analítica é conduzida desta maneira para proporcionar ao paciente maior autonomia, maior espaço de reflexão a respeito de seus sentimentos e comportamentos. Então, se em algum momento o terapeuta se abster de responder algo ao seu paciente, isso não significa que ele não queira responder, mas sim que ele está trabalhando com seu paciente para compreender o significado da pergunta e o que a resposta pode influenciar na vida deste paciente, se isso o ajudará na compreensão de seus conflitos ou não e este deve ser um dos indicativos para que haja uma resposta por parte do terapeuta, sempre visando o benefício do paciente.

Vamos pensar sobre o luto?

Por Mariana Medeiros, Psicóloga – CRP 07/11721

O luto é algo universal e é uma passagem que nunca escaparemos e que de uma forma ou outra a viveremos em nossas vidas. Pensar sobre a morte, sobre luto, sobre perdas que passamos é necessário, e faz refletir sobre este assunto tão “vivo” dentro de cada um de nós. Ele existe e não podemos negar.

Vivemos de perder e abandonar, e de desistir. E mais cedo ou mais tarde, com maior ou menor sofrimento, todos nós compreendemos que a perda é, sem dúvida, uma condição permanente da vida humana. Lamentar é o processo de adaptação ás perdas da nossa vida. Então, pergunta Freud, em que consiste a lamentação pelo que perdemos? E ele responde que se trata de um processo interior difícil e lento, extremamente doloroso, em que desistimos passo a passo. Ele está se referindo á lamentação pela morte das pessoas que amamos .Alguns autores acreditam que pode haver um fim para a lamentação, e este fim depende do modo de como sentimos esta perda, do quanto estamos preparados para isso, das forças interiores e do apoio externo, da história individual do sujeito de amor e de perda. Para isso acontecer passamos por fases de mudança,  fases de dor, pois a dor passa a ser não um estado, mas um processo.

Alguns pensadores, como Bolby, formularam a hipótese de estágios do luto:

– Uma fase de desespero árduo, caracterizado por torpor e protesto. A negação pode ser imediata e os ataques de raiva e aflição são comuns. Este estágio pode durar de momentos até dias e pode ser periodicamente revivido pela pessoa, através do processo de lamentação.

– Fase do desejo intenso pela presença do falecido e busca por este, caracterizado por uma inquietação física e uma preocupação total com o falecido. Esta fase pode durar meses ou até mesmo anos, em uma forma mais atenuada.

– Fase da desorganização e desespero, a realidade da perda começa a ser assimilada. A pessoa sente necessidade de repassar suas emoções de perda e parece retraída, apática e inquieta. Insônia e perda de peso ocorrem com freqüência, bem como o sentimento de que a vida perdeu o sentido. Há, também, um reviver contínuo de recordações do falecido e um inevitável sentimento associado de desapontamento, quando o enlutado reconhece que o que tem são apenas recordações.

– Momento que é definido como a fase de reorganização, durante a qual os aspectos agudamente dolorosos da perda começam a desaparecer e as pessoas agora começam a sentir-se como se voltasse á vida. O falecido agora é lembrado com alegria, bem com tristeza e a imagem da pessoa perdida é internalizada.

A morte é um dos fatos da vida, que reconhecemos mais com a mente do que com o coração, pois enquanto nosso intelecto reconhece a perda, o resto de nós continua tentando arduamente negar o fato. Pensando nisto reconheço que perder é o preço que pagamos para viver. É também a fonte de grande parte do nosso crescimento e dos nossos ganhos. Ao trilhar o caminho do nascimento até a morte, temos de passar também pela dor de renunciar. Temos de enfrentar nossas perdas diárias.

Penso, que cada um de nós, em seu íntimo, tem uma perda, uma falta, e que ao descobrirmos utilizamos defesas como a Negação, por exemplo, ao dizermos: Não é verdade, não aconteceu! E após uma exaltação maníaca (quando achamos que aquele ser perdido era o objeto perfeito) ou quando triunfamos sobre a perda: eu sobrevivi! (muitas vezes retardando a dor da perda). Sabemos que para o luto ser bem elaborado a perda não pode ser negada, ela deve ser vivida! Então, vem o desejo de reparação, podendo realizar mecanismos obsessivos ou sublimações.

Mas a verdadeira reparação ainda é a aceitação da perda!

SOBRE O BRINCAR E A CRIATIVIDADE

Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

Toda criança nasce brincalhona e criativa, cabe aos pais incentivar e desenvolver as potencialidades dela. Mas como fazer isso? Investindo nas atividades lúdicas. Se você quer ajudar seu filho a ser criativo é preciso dar função e sentido à expressão espontânea dele.

A criatividade não pode ser dissociada da brincadeira, brincar de se fantasiar, por exemplo, permite que a imaginação seja estimulada desde que você ajude a criança a compor o personagem. Movimentar-se, dançar, escutar música e compartilhar emoções também colaboram nesse processo, já que a criatividade se abastece da experimentação, dos sentimentos, toques, cheiros… Nós nos constituímos de uma série de experiências que alimentam nosso pensamento e se interligam para formar nossa personalidade.

E o que pode impedir a criança de ser criativa? Criticar em excesso exigindo resultados, transformar eletrônicos (televisão, computador, tablet, celular) em brinquedos e manter a criança sempre ocupada em atividades extraclasse acabam por tolher a expressão da criatividade.

É importante que os pais deem limites, mas a crítica deve ser dirigida ao comportamento e nunca à criança. Dizer: “Como você é bagunceira”, não vai tornar seu filho uma criança organizada, mas dizer: “Vamos arrumar estes brinquedos de um jeito organizado juntos”, tem um efeito positivo no comportamento que se quer modificar.

Quanto ao uso de eletrônicos vale sempre lembrar que a criança que passa muitas horas por dia conectadas tem seu desenvolvimento afetado, pois enquanto está conectada, ela deixa de se movimentar, de interagir com os outros e de brincar. Nada substitui o efeito positivo da brincadeira livre pois ela provoca estímulos físicos e mentais que são fundamentais ao desenvolvimento cerebral das crianças.

Manter o tempo todo a criança ocupada em atividades extracurriculares sem tempo livre para brincar não é saudável, pelo contrário, tira dela a chance de estimular sua curiosidade e criatividade. A criança precisa ter a oportunidade de “ficar sem fazer nada”, pois o tédio e o ócio vão funcionar como estímulos para a mente buscar maneiras de “preencher” esse vazio mesmo que apenas com o uso da imaginação.

Os pais deveriam dedicar mais tempo aos filhos, tempo para brincar e desenvolver laços, mais do que ter objetos as crianças necessitam mesmo é “estar” com os pais e poder brincar. Uma criança que não sabe brincar não será uma pessoa feliz. Temos que estimular o brincar e isso não significa ensinar a apertar botões, mas sim a criar, a inventar e a desenvolver a imaginação.

A força necessária a Eros

Por Keylla Jung, Psicóloga – CRP 07/07683

Em uma das muitas versões sobre a origem de Eros, diz-se que antes de ser representado como um deus do Olimpo, seu surgimento é descrito como uma das primeiras criações das forças naturais que fizeram nascer o mundo. Por conta dele, os seres se aproximaram. Eros é força que liga, une, mistura, cria, anima, dá variedade às espécies, ou, em uma única palavra – é o Amor.

Na narrativa de Ovídio, Metamorfoses, Eros é filho de Afrodite e Ares. Sua mãe, preocupada pelo fato de seu filho permanecer como criança que nunca crescia, comentou com a deusa da prudência, Métis, que, por sua vez, lhe sugeriu ter outro filho e assim dar um irmão a Eros. Algum tempo depois nasceu Anteros, antítese de Eros. Aquele, tão forte quanto o irmão, tem em sua força o poder de separar, desagregar, romper e confrontar. Foi nos limites marcados entre um e outro que Eros passou a crescer e deixou de ser criança. A presença de Anteros, e, tudo que nele era diferente de Eros, serviu para colocar ordem e limites ao Amor. Este, que pode ser inconsequente como uma criança, sabe que ao atingir os corações com suas flechas, é capaz de fazer surgir intensos sentimentos de desejo e bem querer, mas não sabe que Amor também pode fazer doer.

Conforme nos conta o mito de Eros, para que pudesse se desenvolver e amadurecer foi preciso a presença de Anteros, ou anti-Eros, um outro diferente dele, um companheiro para aprender a compartilhar e conviver. Assim, ainda hoje, o Amor, quando se sente sozinho e carente, busca um outro para preencher seu vazio. É força que precisa ser correspondida para prosperar, pois Eros não cresce quando está só.

Anteros ficou conhecido como o deus do amor retribuído, mas também como aquele que pune o amor não correspondido, ou o vingador daqueles que desprezam Eros. Algum tempo depois de seu nascimento, Anteros foi dado a um pescador para ser criado e, quando partiu, Eros novamente se viu só e sem limites, voltando a ser criança que nunca mais cresceu.

O que nos narram os mitos se atualiza na contemporaneidade. Os deuses, suas características e interações, se apóiam em uma linguagem vigente para falar de maneira peculiar a respeito do viver humano. Hoje, essas alegorias estão repaginadas com ares de modernidade. Somos constituídos por corpo, mente e relações. Somos onipotentemente movidos por forças que buscam a satisfação, mas que também evitam o desprazer e então, convenientemente, passamos a considerar o que está fora de nós. Nascemos acreditando que a força de nossos desejos é suficiente para nos realizar, porém, tal qual ocorreu com Eros, Anteros se faz necessário em nossas vidas. A força da realidade, do limite e do outro marca fronteiras que nos ensinam sobre a alteridade, o respeito e as diferenças. O amor é uma experiência que infere um encontro de no mínimo dois. O eu e o corpo, na relação autoerótica; o eu e o outro, na relação interpessoal; o mundo interno e a realidade externa, na constituição psíquica; o indivíduo e o coletivo, nas relações políticas.

A mesma força que une também gera atrofia sem a força que a contrasta. Não fosse o desempenho de Anteros o ser humano estaria condenado por seu narcisismo a uma existência torpe ou onírica. Nesse sentido, não seria equivocado considerar que, na linguagem dos sentimentos, o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. O anti-Eros ensina a consideração pelo diferente provocando o rompimento com a ilusão. A presença de Anteros obriga Eros a reconhecer que até mesmo ao todo poderoso Amor impõe-se a insuficiência. A completude não está em Eros, mas no reconhecimento do que lhe falta, pois, Amor sem limites não é benesse. Ao contrário, é força que sufoca, anula e até mesmo mata.

Por fim, é sempre prudente lembrar que a presença de Anteros não é garantida. A qualquer momento ele pode partir e deixar o presunçoso Eros entregue à eterna e inconsequente infantil maneira de amar.