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UM OLHAR ATENTO SOBRE NOSSOS FILHOS

Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Se costuma dizer que quando nasce um bebê também nasce uma mãe. Pois é, quando um bebê nasce a mãe precisa aprender a ser mãe enquanto o filho vai se descobrindo indivíduo a medida que se vê refletido no olhar da mãe, como se estivesse num espelho. Para o bebê desabrochar, crescer e se descobrir como pessoa única ele precisa experimentar um contato afetuoso, íntimo e contínuo com sua mãe. Como vemos, essa relação mãe-filho vai sendo construída.

No início de sua vida o bebê é totalmente dependente da mãe, necessita de sua presença, não só física, como de sua disponibilidade interna, de sua atenção, necessita da mãe inteira, de “corpo e alma”.

Essa primeira experiência do bebê com sua mãe será a matriz de todas as relações futuras. Um pai presente (e cada vez mais os pais estão participando dos cuidados com os filhos, entendendo seu importante papel) será um reforço dessa “matriz” e poderá suprir falhas e principalmente, ajudar a mãe a se dedicar a este bebê. Se a mãe tem prazer, alegria, orgulho do seu filho este vai sentir-se como um presente para esta mãe. Mas ao contrário, se a mãe sente tristeza e ansiedade demasiada, o filho se sentirá como um incômodo, “não se sentirá “acolhido”.

O fracasso dessa experiência (mãe que não consegue ser continente, ser suficientemente boa) dá lugar a um vazio que leva a criança a buscar constantemente alguém que o preencha. Ela terá tudo para ser uma pessoa ansiosa, insegura, que precisa de atenção e afeto o tempo todo.

Tudo o que acontece posteriormente na vida de uma criança irá depender muito dos primeiros cuidados maternos, para os quais é necessário um olhar cuidadoso. É a partir da qualidade dos cuidados da mãe que a criança se tornará apta a adquirir uma “confiança básica”, confiança em si mesma e no mundo, que a torne uma pessoa feliz e alegre com sua existência.

Essa “confiança” é construída ao natural, gradativamente, a partir das experiências diárias de cuidado, proteção e intimidade com a mãe, é um processo construído pela dupla mãe-filho, podendo se dar também com a dupla pai-filho.

Se ao contrário de ser protegida, muito cedo a criança tiver que dispensar esses cuidados maternos, se tiver que aprender muito cedo a conviver fora de casa, sem o apoio dos pais, ela será forçada a “forjar” uma confiança por um processo artificial, “de fora pra dentro”(falso self). Quando isso acontece, o enfrentamento de situações que geram ansiedade, medo, tristeza são mais difíceis e penosos para a criança, podendo gerar intensas sensações de desamparo.

Tendo esses cuidados nos primeiros anos de vida a criança vai criando uma confiança no mundo. Confiará nas pessoas a sua volta e estará fortalecida para enfrentar os desafios da vida.

À medida que os pais vão cuidando de seu bebê também vão mostrando seus limites. As crianças desde cedo vão aprendendo e compreendendo de forma cuidadosa e amorosa as restrições que são impostas com autoridade (não falo de autoritarismo) pelos pais. Ter autoridade e impor limites para nossos filhos é difícil, cansativo mas é um ato de amor. Quem ama cuida! E as crianças sabem que podem confiar quando pais amorosos impõe regras com autoridade. Por mais que reclamem sabem que os pais são fortes o suficiente para protegê-los.

Ao contrário, os pais que “não conseguem” controlar seus filhos criam crianças ansiosas, inseguras, agressivas, insatisfeitas.  Quando estas restrições são feitas de forma impessoal, por estranhos, como por exemplo deixar para a escola colocar os limites, serão sentidas como desaprovação e não como cuidado e proteção, podendo causar sentimentos como solidão, medo de abandono, revolta,…

É nos cuidados amorosos e personalizados dos pais que estão os alicerces para a saúde mental da criança e não no que ela poderá aprender fora de casa. Confiança e saúde mental não se aprende, se vivencia.

 

E a Psicologia em tempos de Copa do Mundo?

Por Carolina Mejolaro, Psicóloga – CRP 07/15377

Em época de Copa do Mundo, onde respiramos futebol e ficamos “paralisados” por alguns dias, podemos pensar alguns aspectos psicológicos associados à Copa. É um momento aonde uma grande variedade de sentimentos vem à tona. Sentimentos que ficam contidos como paixão, raiva, alegrias são liberados de maneira socialmente aceita, é uma catarse coletiva onde as pessoas se permitem expressar suas emoções.

Outro aspecto interessante é que o futebol desencadeia nos indivíduos um sentimento de grupo, identidade, união. As pessoas se permitem compartilhar alegrias, torcer juntas, vibrar a cada gol, vincular-se com desconhecidos por um mesmo objetivo.

O povo brasileiro veio de um trauma do fatídico, 7×1 uma das maiores derrotas da historia do futebol. Este trauma mostra a dificuldade do brasileiro de perder, lidar com a frustração e uma realidade tão cruel. Nestes momentos entra outro mecanismo psicológico, a negação. É mais fácil negar este trauma e pensar que ainda somos o país do futebol, como por muito tempo fomos reconhecidos.

A realidade mudou e o país do futebol continua exemplar nos ranking da desigualdade social, de violência interpessoal e da corrupção.  Seguimos dissociados perdidos sem saber qual o melhor caminho a seguir.

Espero que o sentimento que aflora com a copa do mundo, de união, amor a camisa, olhar com empatia para o outro, mostre que ainda temos esperança e podemos, juntos, fazer a virada para um Brasil melhor.

Conversando sobre a Orientação Profissional

Por Carolina Rodrigues Azevedo, Psicóloga – CRP 07/19699

O momento da escolha profissional geralmente é marcado por inúmeras emoções. O que cada um sente nesta etapa da vida pode ter relação com o modo com que lida com situações de decisão, mudanças e com seu próprio crescimento. A escolha de uma profissão pode ser encarada para muitas pessoas como um dos primeiros grandes desafios da vida adulta.

O se deparar com o novo, desconhecido, pode representar um momento de incertezas. Neste sentido, fatores como o início e o desenvolvimento da carreira profissional de seus pais ou de pessoas de referência, assim como a expectativa desses para com a sua escolha profissional e outros aspectos devem ser analisados pois podem ser carregados de valor emocional. Em alguns casos, podendo interferir significativamente no processo de escolha.

A orientação profissional surge como um espaço que propicia o contato com os sentimentos que estão sendo despertados nesse momento da vida, a expansão do conhecimento sobre seu perfil, suas habilidades e pontos a serem desenvolvidos. Além do mais, conduz a pessoa a pensar sobre sua maturidade para esta escolha e as áreas que possui maior interesse profissional, diferenciando essas de ocupações de lazer.

É essencial que o orientando tenha um papel ativo neste trabalho, seja compartilhando suas ansiedades, esclarecendo dúvidas, buscando conhecimentos e se disponibilizando a este contato. Vale ressaltar que não é sempre que se finaliza este processo com a profissão escolhida, tudo depende dos desejos e do momento de cada um.

A orientação profissional dura em torno de 8 encontros, em que são utilizados testes e técnicas psicológicas que auxiliam e estimulam a pessoa neste percurso.

Não conseguimos engravidar? E agora?

Por Agda Ferreira, Psicóloga – CRP 07/12438

A decisão de ter ou não um filho, é com certeza a mais importante na vida do casal, pois se a decisão for de ter um bebê a vida mudará de forma irreversível. A chegada do bebê traz mudanças automáticas e gigantescas na vida da mãe, do pai e de toda a família e por isso deve ser pensada com muita seriedade.

Tomada a decisão, o casal inicia as tentativas de engravidar e o tempo que levará para se ter um exame positivo de gravidez é especifico para cada dupla. Alguns casais podem engravidar na primeira tentativa, outros em três meses, outros em oito meses, mas a maioria engravida naturalmente em até um ano. Se você está dentro deste primeiro ano, relaxe e tente aproveitar esse momento a dois. Se já faz mais tempo, os especialistas sugerem procurar a ajuda de um médico especializado.

Segundo o site BabyCenter, se acredita que de cada seis casais, um tenha dificuldade para engravidar, já outras fontes falam que há dificuldade para um casal a cada dez; ou seja, é uma questão bem comum, mas que não diminui o sofrimento e a dor do casal.

Existem várias causas físicas para infertilidade e tem alguns casos que não há explicação fisiológica para isso, o que é chamado de infertilidade sem causa aparente.

Nossa mente e nosso corpo andam sempre juntos. Se estivermos mais frágeis emocionalmente, a defesa do corpo baixa e ficamos doentes. Quanto mais eu trabalho com meus pacientes e estudo, mais acredito que nosso inconsciente tenha uma enorme influência em nós. Os fatores psicológicos sempre estão presentes, mas muitas vezes não damos a devida importância a eles.

Vocês devem conhecer, ou com certeza já ouviram falar de casais que tentaram engravidar, não conseguiram, então adotaram uma criança, e após se tornarem pais, a mulher engravidou de forma natural. Porque isso pode ocorrer? Possivelmente porque algo no inconsciente estava bloqueado e destrancou após a vivência da maternidade e paternidade.

Notem que não estou falando apenas da maternidade, pois acredito que os bloqueios inconscientes também possam vir do inconsciente do casal e não apenas do intrapsíquico individual.

Para que ocorra a fertilização é necessário que o espermatozóide encontre e entre no óvulo, mas porque não podemos pensar que é necessário que ocorra um encontro mais amplo? O encontro dos desejos do casal? O encontro do amor? O casal precisa estar em sintonia. Alguns casais fazem tratamento, são dados como férteis e mesmo assim não conseguem engravidar.

Muitos conflitos psíquicos podem acabar levando à dificuldade em engravidar: conflitos inconscientes com a família de origem, traumas vivenciados e guardados em segredo pela geração anterior, fantasias de não merecimento da maternidade, e muitos outros. Tudo está em movimento dentro nós, o tempo todo.

Então, assim como procuramos médicos para as dores físicas, porque não podemos procurar um psicólogo para as dores emocionais? Psicoterapia pode melhorar muito nossas vidas e pode, sim, ajudar a desbloquear muitos conflitos doloridos e escondidos dentro de nós…

Aborrescente ou adolescente?

Por Letícia Schmitz, Psicóloga – CRP 07/18830

A adolescência é um dos períodos mais difíceis pelo qual passamos. Muitos podem até não concordar, pois, nesta fase, o sujeito ainda não tem muitas responsabilidades nas costas e, com isso, passa a ideia de que este período seja tranquilo. No entanto, por ser a fase de mudanças, no corpo e na mente, não ser nem criança e nem adulto, o adolescente se sente perdido no mundo, não sabendo qual é o seu espaço, o que quer para si e o que os outros – família e sociedade – esperam dele.

Tudo está em transformação e processo de construção. Tudo é intenso nesta fase e, em um mesmo dia, ele pode apresentar um misto de emoções e sentimentos. Com frequência, o adolescente se olha no espelho e, muitas vezes, não se reconhece. Mesmo que faça isso todos os dias. Tem explosões de humor. Acorda animado, disposto e ao longo do dia “se transforma”. A vida vira um inferno e todos que estão a sua volta não entendem isso.

Isso acontece porque nesta fase são vivenciadas a maior parte das experiências; acontecem as transformações corporais, as transgressões, as dúvidas que vem acompanhadas da chamada rebeldia, e, por este motivo, a adolescência é descrita, no senso comum, como aborrescência. Tudo isso porque o adolescente está na época de trazer à tona seus questionamentos frente a vida, para depois poder se constituir como adulto. E, por mais difícil que isso possa parecer, é bom e fundamental que todo este processo aconteça!

É comum vermos adultos diminuindo, não dando importância ou até menosprezando essa intensidade do adolescente. Claro que em muitos momentos esses dramas internos são potencializados, mais floridos na hora de serem expressados ao mundo. Agora, os adultos a volta deste jovem fingirem que não está acontecendo nada, por não saberem lidar, também não é a solução.

Para entender um pouco mais, é importante que o adulto volte ao seu passado e se reconecte com a sua adolescência! Provavelmente, irá perceber que passou por muitas das dificuldades que enxerga nos jovens de hoje. Então, uma dica para enfrentar junto com o adolescente esta fase, é pensar como você desejou ser tratado, ser ouvido, ser entendido quando passou pela adolescência. O que este jovem está pedindo é que alguém coloque limites, imponha regras, mas que também o entenda quando der uma “escorregada” por conta desse turbilhão que se passa dentro dele. Afinal, ainda não ter o seu espaço conquistado no mundo, não é fácil de sentir, não é mesmo?!

CULPA x RESPONSABILIDADE : como anda a sua relação consigo mesmo?

Por Larissa Mendonça Lütkemeyer CRP 07/16189

O que vem à nossa mente quando pensamos em CULPA? Partindo de uma rápida busca no Dicionário Online de Português, entre outras definições, culpa é a “responsabilidade por uma ação que ocasiona dano ou prejuízo a outra pessoa” ou o “sentimento doloroso de quem se arrependeu de suas ações”.

Podemos definir a culpa como a reprovação consciente ou inconsciente que a pessoa faz de um ato ou comportamento dela própria no passado. Associada a uma atitude que gera reprovação, a culpa desencadeia um novo sentimento de frustração pela percepção da contradição entre como fizemos e como deveríamos ter feito. Essa censura, desperta inconscientemente a necessidade de autopunição, no intuito de aliviar o sofrimento.

Freud, o “pai da psicanálise”, conceitua o sentimento de culpa como o resultado de uma tensão entre o ego e o superego, que se manifesta como uma necessidade de castigo. Para ele, “mau” é tudo aquilo que nos faz sentir ameaçados com a perda do amor. E, se perdemos o amor de outra pessoa da qual dependemos, deixamos de estar protegidos dos perigos e ainda ficamos expostos à manifestação da sua superioridade na forma de punição. No seu entendimento, inicialmente, a culpa viria do medo da perda do amor e a evitação do mau estaria vinculada ao medo de ser descoberto pela autoridade externa. Mais tarde, quando essa autoridade é internalizada, dando origem à instância psíquica que chamamos de superego, não existe mais diferença entre fazer o mau e desejar o mau, pois não se consegue esconder do superego os desejos proibidos. Assim, o superego assume sua característica sádica, atormentando o ego com o mesmo sentimento de ansiedade. Com a instauração do superego, somente a renúncia à satisfação do desejo já não é suficientemente libertador, então o sentimento de culpa se instala.

Assim, posteriormente, surge o medo do superego, esse agente crítico, tornando a punição uma manifestação instintiva por parte do ego que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico. Nesse caso, a agressividade que seria destinada para fora, é voltada para dentro de si mesmo. Apareceria então o sentimento de não ser bom o suficiente e, portanto, merecedor de castigo. Esse sentimento inconsciente de culpa e punição provoca, através da compulsão repetitiva, situações adversas, que darão motivos para queixas.

As clássicas cenas de filmes em que alguém sofre uma decepção e devora um pote de sorvete com o objetivo de compensar a sua frustração, pode servir como um exemplo desse mecanismo. Atitudes de procrastinação ou somatizações, como um mal-estar, uma dor de cabeça ou de estômago, também podem estar a serviço do superego punitivo. Se acompanhada de sentimentos de remorso, vergonha e medo de repetir o mesmo comportamento, a culpa pode originar uma sensação de que se está aprisionado, como se não houvesse saída. Nesse caso, a pessoa pode seguir vivendo como se a situação geradora da culpa fosse eterna, segundo a ideia inconsciente de que todo culpado merece punição, portanto, nunca podendo desculpar-se e infligindo-se o castigo da auto recriminação. Quando esses sentimentos persistem por muito tempo e mobilizam uma sensação constante de desprazer com a vida, surge a depressão.

Já a psicanalista Melanie Klein postula que, no desenvolvimento primitivo, a mãe é percebida de forma parcial, ou seja, ideal ou perigosa, boa ou má, conforme a resposta que manifesta em relação às necessidades do bebê. A satisfação das necessidades básicas gera um sentimento de segurança, que aumenta a gratificação em si e se transforma em parte importante da satisfação de receber amor. Pouco mais tarde, quando o bebê adquire condições para introjetar a mãe como pessoal total, ou seja, perceber que a mãe que gratifica é a mesma que também frustra, surge um conflito entre amor e ódio (pulsões agressivas) direcionados para o mesmo objeto (mãe). Esse conflito seria o gerador do sentimento de culpa e da necessidade de reparação. Assim, dá-se a tentativa de controlar os impulsos agressivos e os objetos, com o intuito de prevenir a frustração, impedir a agressão e o consequente perigo para os objetos amados. Em resumo, para Klein a culpa viria da fantasia agressiva e voraz de destruição da mãe frustradora e ativaria o impulso de curar esses danos imaginários e repará-la.

Esse impulso de reparação, quando atenuada a pressão do superego, geralmente, consegue afastar os sentimentos de desespero suscitados pelo sentimento de culpa, fazendo com que prevaleça a esperança. Nesse caso, o amor e o desejo de reparação da criança são inconscientemente estendidos a novos objetos de amor, portanto, a reparação consolida a possibilidade infantil de aceitar amor e incorporar a bondade proveniente do meio externo, exercendo, assim, uma influência positiva sobre o desenvolvimento humano. A reparação então, seria uma forma de elaborar a culpa e reconstruir a relação com os objetos atacados em fantasia e introjetados, de forma que a reparação dos objetos também seria uma reparação de si mesmo.

Essa perspectiva põe em evidência a existência de uma saída para o ciclo ação – reprovação – punição. Através dessas atitudes reparadoras, podemos encontrar novamente a satisfação consigo mesmo e a esperança “de dias melhores”.

De acordo com as definições de Freud e Klein acima, podemos entender que os processos inconscientes influenciam nossas ações e a forma como percebemos o mundo ao nosso redor. Em última análise, poderíamos dizer que a culpa surge da fantasia de controle sobre a vida, da busca pela perfeição. Quando algo foge do esperado, se manifesta a crença de que se fez algo que causou o acontecimento ruim. Essa sensação ilusória de poder é, na verdade, uma tentativa de superar a nossa real condição de fragilidade.

Entretanto, quando passamos a compreender que não temos o poder de controlar os outros ou as situações ao nosso redor e que somos responsáveis apenas pelas nossas atitudes, podemos assumir a RESPONSABILIDADE pelo que acontece conosco. Sermos responsáveis por nós mesmos, significa abrir mão da posição de vítima das pessoas e situações e implica num empenho constante na busca de conhecer o que motiva as nossas atitudes e escolhas, para que então possamos decidir de forma mais consciente e, consequentemente, façamos escolhas mais satisfatórias. Dessa forma, podemos abrir mão do sentimento de culpa ou atribuir a ele uma função produtiva – quando serve para nos conhecermos mais e avaliarmos nossas atitudes, aceitando que não se pode desfazer algo que já ocorreu, acolhendo os sentimentos envolvidos e decidindo como proceder dali em diante.

Nem sempre, infelizmente, conseguimos realizar esse processo de tomada de consciência e abdicação desse ciclo de culpa sozinhos. Esse é então o momento de pedir ajuda aos profissionais habilitados para auxiliar nessa jornada. A psicoterapia psicanalítica, como uma ferramenta de autoconhecimento, visa possibilitar o entendimento das motivações inconscientes que embasam nossas atitudes, daquilo que não percebemos conscientemente, mas que, por nossa escolha, e muitas vezes de forma repetitiva, nos faz sofrer. Desse modo, potencializamos nossa capacidade de decisão, aprendemos a enfrentar melhor os sentimentos de frustração e, consequentemente, aumentamos nossa sensação de satisfação e bem-estar, melhorando consideravelmente a nossa qualidade de vida.

Não precisa chorar! Não foi nada!

Por Rafaela Haas Oliveira Zanini, Psicóloga – CRP 07/14351

Quando uma criança se machuca é comum escutarmos uma mãe dizendo: “não precisa chorar, não foi nada!”. Mas será que não foi nada mesmo? Muitos pais na busca de acalmar uma criança tendem a usar frases desse tipo para lidar com uma determinada situação. Mas se pensarmos mais cuidadosamente, um tropeço, um arranhão no braço, um empurrão de algum amigo, pode sim ser alguma coisa para uma criança que está aprendendo a lidar com suas emoções.

Um bebê, por exemplo, sabe se expressar através do choro quando está com fome, ou frio, ou sono. Sendo assim, até que uma criança saiba se expressar verbalmente, chorar é a única forma de comunicação.Pode ser tanto a expressão de alguma emoção quanto de alguma necessidade. Com o tempo a mãe vai dando nome a tudo isso: “você está chorando porque está com sono, vamos dormir então!”. Desta forma, através do olhar e da palavra, a mãe identifica, compreende e da significado ao choro do seu bebê, que com o tempo e crescimento vai tendo a oportunidade de encontrar outras formas de expressar esse sentir.

Muitos pais exigem que os filhos engulam o choro, talvez pela dificuldade em lidar com o sofrimento, ou por uma extrema rigidez. Talvez eles não saibam o mal que estão fazendo nesse momento, reprimindo emoções que estão buscando uma forma de expressão. Emoções estas que vão ficando guardadas e que encontram, seja na infância ou na vida adulta, outras formas de escape, causando sofrimento e podendo levar a doença.

Se o choro num primeiro momento da vida é a única forma que uma criança tem de se expressar, é importante validar este sentimento e não reprimir. Assim, quando uma criança chora porque caiu e se machucou, é válido dizer: “está doendo meu filho, pode chorar! Eu estou aqui contigo!”. Com isso, estamos acolhendo a dor, porque dói mesmo cair, e ainda passando segurança de que ele não está sozinho nesse momento. Os pais precisam aprender a tolerar o choro de um filho e aceitar a dura realidade de que não podem sempre protegê-los do sofrimento.

Sabemos também que nem todo choro tem sofrimento por trás. Existe aquele choro por contrariedade ou aquele que está sendo usado para alguma finalidade. Mesmo estes precisam ser compreendidos e nominados, talvez acompanhados por algum limite. Entretanto, limite é diferente de repressão. Se o choro for permanente e difícil de ser compreendido, talvez seja importante procurar ajuda de um profissional especializado para encontrar a melhor forma de lidar com este comportamento.

Assim, é fundamental para o crescimento ensinar uma criança a lidar com seus sentimentos, auxiliando-os a encontrar formas saudáveis de expressão.

Afinal, o que é um psicoterapeuta?

Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

A crescente preocupação com a saúde, aumento da expectativa de vida, acesso a informação e a oferta cada vez maior de tratamentos e alternativas tem tornado os cuidados com a saúde um mercado atrativo e lucrativo. São inúmeros os tratamentos oferecidos: procedimentos estéticos, desde cirurgias a processos nada invasivos, cosméticos, massagens, alimentos, vitaminas, compostos naturais. Todos prometendo melhorias na aparência física e qualidade de vida. E, junto com essa promessa, surgem também ofertas para melhorar a autoestima, a saúde emocional, aliviar o estresse, tratar a depressão, ansiedade, pânico, e tantos outros sintomas ou diagnósticos clínicos. Mas qual a diferença entre esses cuidados oferecidos por massagistas, esteticistas ou terapeutas e os tratamentos oferecido por psicólogos ou psiquiatras clínicos?

Começamos pela definição: tratamento requer conhecimento cientifico, estudo aprofundado e reconhecimento técnico. Existem técnicas de massagem que promovem o relaxamento que podem auxiliar a aliviar os sintomas, porém essas técnicas não tratam o problema, a doença em si. Aliviam rapidamente e temporariamente o sintoma. Nada melhor do que sair leve, desestressado e feliz de uma sessão de massoterapia com pedras quentes! Mas, a origem da dificuldade segue atuando, não se altera o funcionamento da personalidade pela massagem e a tendência é que a situação logo se repita.

Vivemos numa sociedade que o imediatismo impera. São as mensagens em tempo real, videoconferências, transmissões on line, remédios que prometem o alivio imediato da dor… Soluções rápidas e superficiais. O antiácido que alivia o desconforto imediato pode também ocultar um refluxo ou uma gastrite crônica, que desgasta as paredes do estomago e intestino pode causar ulceras e câncer. O imediatismo, a busca por soluções rápidas e indolores por vezes trás prejuízos percebidos em longo prazo. Assim também acontece com nosso funcionamento emocional.

E quando devemos buscar um profissional da saúde mental?

Frente a qualquer desconforto emocional, tristeza, dificuldade de tomar decisões, dúvida, dificuldade de relacionamento profissional ou social, medo, insônia, ansiedade, euforia, agitação, abuso de substancias ou álcool, excesso de apetite, perda de peso, e inumeráveis outras situações que interfiram no desempenho das atividades diárias. Muitas dores físicas também podem necessitar a avaliação por um profissional da saúde emocional.

E quais são esses profissionais? Qual a diferença entre eles?

Atualmente as ofertas de terapia estão muito intensas, porem, pouca gente sabe a diferença entre terapia e psicoterapia. Terapia é todo o tratamento que visa amenizar ou acabar com os efeitos de uma doença qualquer. Já psicoterapia é a técnica de uso exclusivo do psicólogo e do psiquiatra, especifica para o tratamento dos problemas de origem emocional, sendo eles físicos ou psicológicos.

É também muito comum a confusão entre os papeis do psicólogo e do psiquiatra. As inúmeras dúvidas vão desde quando procurar um ou outro, até a ideia de que um só ajuda em casos leves e o outro, casos graves. Na realidade, isso tudo gera grandes mal entendidos e até resistência a buscar um profissional. Em primeiro lugar, ambos estão habilitados ao tratamento de doenças leves ou graves. Normalmente situações mais intensas pedem o acompanhamento dos dois profissionais.

O psicólogo é o profissional que fez a faculdade de Psicologia, e tem registro no CRP de sua cidade. A psicologia é a ciência que trata dos estados mentais do comportamento do ser humano e de suas interações com um ambiente físico e social. Estuda o desenvolvimento humano, as inter relações no ambiente familiar, social, profissional e físico, os afetos e sentimentos. Todo psicólogo pode realizar o acompanhamento clinico de pessoas, em consultório ou ambulatório. Utiliza técnicas de entrevista, testagens, exercícios, interpretações, confrontações para tratar sintomas e doenças psicológicas e psiquiátricas. O numero de encontros varia de acordo com a avaliação do psicólogo em parceria com o paciente, habitualmente se recomenda uma ou duas sessões semanais.

A psiquiatria é o ramo da medicina que se ocupa do diagnostico, tratamento e da terapia medicamentosa de pacientes. Também pode atuar em consultório ou ambulatório. Os atendimentos visando medicar e acompanhar a evolução do uso da medicação acontecem normalmente em encontros quinzenais ou mensais.

Tanto os profissionais formados em psicologia quanto os médicos psiquiatras podem realizar a especialização em psicoterapia, que é o estudo aprofundado das varias técnicas de tratamento das doenças e problemas psicológicos e psiquiátricos. Assim, passam a ser chamados de psicoterapeutas. As sessões de psicoterapia normalmente tem duração em torno de 45 minutos e acontecem uma ou mais vezes por semana, de acordo com a indicação de tratamento.

Existem varias linhas de psicoterapia, as mais comuns no Brasil são a Psicanálise, a Técnica Cognitiva Comportamental (TCC) e a Teoria Sistêmica.

A Psicanálise é o campo clinico e de investigação da psique humana, desenvolvido por Sigmund Freud. Ocupa-se em explicar o funcionamento da mente humana, visa o entendimento das reações, condutas, ideias, afetos do sujeito via a interpretação de suas palavras. Trabalha com conceitos como consciente e inconsciente, ego, id, superego. O objetivo desse tratamento é a mudança dos padrões de funcionamento, a reavaliação dos sentimentos, pois o objeto de estudo da psicanálise concentra se entre na relação entre o desejo inconsciente e o comportamento e sentimento vivido. Pela livre associação das palavras e historias o psicanalista consegue analisar e encontrar os motivos de determinadas neuroses ou a explicação de certos comportamentos. A Psicoterapia Psicanalítica é baseada no estudo da teoria e da técnica psicanalítica, aplicadas no atendimento semanal, sem exigir as condições para um tratamento em psicanálise clássica, como o uso de divã. Não há tamanho para o sofrimento do paciente, o que está em foco é aquela história, aquela pessoa. Para o psicoterapeuta psicanalítico, toda situação é exclusiva e tem sua total atenção, independente da opinião pessoal.

A Técnica Cognitiva Comportamental (TCC) se baseia em métodos que visam ensinar técnicas para identificar padrões de pensamentos, regras, hábitos e atitudes que estão na origem dos problemas psicológicos e aprender pensamentos, atitudes, crenças e estratégias mais uteis para incorporar no seu dia a dia e melhorar seu bem estar. Oferecem exercícios para os pacientes recodificarem as atitudes, modificando o comportamento.

A Abordagem Sistêmica é baseada na ideia de que o sujeito é sempre referido por um sistema e a matriz de sua identificação é a família. O processo terapêutico tem o objetivo de intervir de modo intenso e por tempo limitado com o intuito de modificar o padrão de relacionamento intra ou extra familiar, as técnicas são pautadas no aqui e agora, emprega por vezes técnica da TCC ou da psicanálise, assim como algumas técnicas do teatro (psicodrama). Muito comumente utilizada para o atendimento de casais e famílias.

Assistentes sociais, pedagogos, filósofos e outros profissionais da saúde podem estudar algumas das técnicas psicológicas e oferecer atendimento clinico em consultório, porém não podem realizar a psicoterapia, pois essa pratica é exclusiva de psicólogos e psiquiatras. Hoje existem alguns consultórios de psicanálise onde o atendimento é realizado por assistentes sociais, filósofos, pedagogos, fonoaudiólogos, advogados e, até mesmo outros profissionais, embora não haja consenso, não são considerados tratamentos clínicos pela comunidade cientifica.

A decisão entre buscar um psicoterapeuta formado em psicologia ou em medicina é muito pessoal. Ambos estão aptos a avaliar e tratar as dificuldades emocionais. Psicólogos e psiquiatras tendem a trabalhar em parceria, pois normalmente o psiquiatra que medica não atende em psicoterapia seus pacientes os encaminhando para atendimento com um psicólogo. Já o psicólogo psicoterapeuta tem amplas condições de avaliar a necessidade de utilizar alguma medicação psiquiátrica e encaminhar para o psiquiatra de sua confiança avaliar e indicar a medicação adequada.

Na Clinica Equilíbrio a equipe é formada por psicólogos especialistas em psicoterapia, habilitados para o atendimento de crianças, adolescentes, adultos, idosos, casais, famílias e grupos. Seguindo como linha teórica principal a psicanálise. A equipe conta também com psiquiatras, que auxiliam sempre que há necessidade de avaliar o uso de medicação psicotrópica. Tanto psicólogos e psiquiatras atendem particular e convênios.

ASPECTOS PSICOLÓGICOS DA ADOÇÃO

Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

Ter um filho, seja biológico ou adotivo, requer sempre uma preparação. Em primeiro lugar, é importantíssimo que exista entre o casal um ambiente interpessoal no qual será inserida uma terceira pessoa, frágil, que exigirá cuidados e muita atenção. Se o casal não estiver preparado poderá surgir, por parte de um dos pais, ciúme e rivalidade além do sentimento de que o filho estará roubando seu espaço afetivo.

Poder entender os desejos reais que motivam o casal a querer um filho também faz parte dessa preparação. Por exemplo: o filho vem para “salvar” o casamento? Fazer companhia a um dos pais? Substituir o filho morto? Suprir a falta de afeto entre o casal? Aproximar os pais?

Ter filhos é um ato de profunda responsabilidade: envolve a vida de uma criança, bem como o seu desenvolvimento físico e emocional. Estar ciente dos motivos que levam a adoção ajuda muito nesta árdua tarefa: ser pais.

Os pais que adotam também precisam trabalhar as suas feridas narcísicas em relação as questões que envolvem a infertilidade: a culpa pela impossibilidade de gerar um filho, a tortura das inúmeras tentativas e suas frustrações, a corrida atrás de tratamentos…

Faz parte desse processo, inclusive, a tranquilidade do casal para poder lidar adequadamente com os problemas que surgirem no âmbito familiar. É provável que ao entrar num novo ambiente a criança se mostre insegura, pois ao mesmo tempo em que está feliz por ter um novo lar, tem medo de perdê-lo, podendo até mesmo mostrar-se agressiva até poder adquirir confiança nessa nova família.

Outra dificuldade que pode ocorrer, quando a criança é mais velha, é a dificuldade para formar vínculos, já que ela perdeu os laços afetivos anteriores, o seu ambiente conhecido, o seu modo de viver, ou seja, as suas referências. Mas se a família adotante for paciente, carinhosa e puder compreender que a criança adotada é alguém que vivenciou abandono e rejeição pelos pais verdadeiros e tiver uma postura de acolhimento estas dificuldades serão mais facilmente superadas.

Uma questão importante, também, é com relação a revelação: contar ou não que o filho foi adotado? A adoção nunca deve ser omitida ou negada. Embora muitos pais temam revelar a verdade com medo de causar sofrimento ao filho, a mentira provocará um sofrimento muito maior pois gera sentimentos de traição e culpa em relação aos pais originais.

Dessa forma, o conhecimento da condição de adotado e a liberdade de procurar os pais biológicos, são duas condições que contribuem em favor da saúde mental do adotado favorecendo um melhor relacionamento com os pais adotivos. A verdade estabelece um padrão de confiança e sinceridade nesse relacionamento e desperta no filho sentimentos de gratidão, aumentando sua autoestima e seu sentimento de identidade.

Deve-se ter em mente que os problemas e dificuldades sempre existirão, seja numa família naturalmente constituída ou adotiva. O essencial é que o novo lar possa ser um continente afetivo e adequado ao filho possibilitando que ele possa trabalhar seus medos e dores e, principalmente, perceber que é amado e desejado, caso contrário, não estaria nessa família.

É importante ressaltar que os casos de maior sucesso na adoção encontram-se entre os casais que aceitam sua realidade bem como do adotado. Esses casos, possivelmente em consequência de uma melhor relação interna com os pais, apresentam um componente amoroso maior. Ninguém deve ser desaconselhado a adotar, desde que a adoção não tenha o intuito de “resolver” um problema externo ou interno do casal. O adotado deve ser alguém que irá “completar” um par adaptado à realidade e, de forma sadia, desejoso de uma criança.

A VIOLÊNCIA QUE VIVEMOS É ATUAL?

Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Ao ligarmos o rádio, ao sentarmos diante da TV, ao abrirmos um jornal, ao falarmos com amigos, colegas, familiares e até com desconhecidos parece que sempre acabamos no mesmo assunto: a violência no nosso país, no nosso estado, na nossa cidade, diante de nós. São tantas histórias de  corrupção, de miséria, de abandono que nos fazem sentir impotentes, desanimados diante dos fatos.  Tudo isso nos faz pensar, refletir sobre nosso papel como indivíduos, nossa função como terapeutas em uma sociedade que se mostra injusta. Mas será que essas mazelas são algo novo? O homem e a sociedade estão mais violentos e corruptos que em outras épocas? Estamos falando do Brasil, mas e a guerra na Síria tratada como um genocídio? E os atentados terroristas ao redor do mundo? E as matanças em escolas e universidades americanas?

Em 1915, no início da 1ª Grande Guerra, Freud escreveu um ensaio intitulado “Reflexões para os tempos de guerra e morte”, onde inicia falando de sua perplexidade diante da devastação e degradação humana causada pela guerra. Refere “o indivíduo que não é ele um combatente, sente-se atônito em sua orientação e inibido em seus poderes e atividades”. Sente uma aflição mental que provoca desilusão e força uma mudança de atitude diante da morte. Aponta a diversidade de condições dos países, da vida humana, a animosidade pelas diferenças de raça como alguns fatores que levam a guerra.

Nações dominadoras, com desenvolvimento tecnológico e científico, com elevadas normas de conduta moral, comunidades civilizadas, não conseguiram solucionar os conflitos sem guerra. Isso exigiria, conforme Freud, “uma grande dose de autodomínio, de renúncia à satisfação dos instintos”.

Este texto de Freud poderia estar numa das colunas dos jornais ou revistas semanais da atualidade. O homem ainda mata e morre; as diferenças sociais, econômicas, raciais e culturais parecem aumentar cada vez mais. Recebemos informações de guerras aqui e acolá, conflitos e acirramento de ânimos por todo o globo. Sim, vivemos numa guerra que até podemos chamar de “mundial”.

Freud falou em autodomínio e renúncia de satisfação dos instintos para evitar a guerra, podemos então pensar que nossos instintos são maus, destrutivos?! Percorrendo a obra de Freud, ele nos mostra como o homem, desde seus primórdios, precisou de uma força externa para controlar seus impulsos internos. Desde estas proibições iniciais, passando pela religião, a ciência, o homem buscou satisfazer seus desejos e seus pensamentos onipotentes, numa tentativa de dominar o que estava a sua volta, a natureza  –  o próprio homem.

Da necessidade de viver em grupo, surgiu a primeira proibição: a do incesto. Desejos proibidos  sujeitos a tentação, violação sujeita a punição. É o início da civilização. Pequenos grupos se transformaram em povos, que são representados pelos Estados, e estes, pelos governos que os dirigem. Existem leis que os indivíduos têm de obedecer, precisam reprimir os maus instintos. Estes “maus instintos” (egoísticos e cruéis) não são erradicados, fazem parte da essência mais profunda da natureza humana; são domados, reprimidos – mas permanecem ativos.

A transformação dos “maus” instintos depende de sua suscetibilidade à cultura, à civilização, à obediência às leis morais. Mas a tensão é permanente; pois, como vimos, os instintos permanecem ativos no inconsciente.  “O fato da coletividade de indivíduos da humanidade… terem mutuamente ab-rogado de suas restrições morais, naturalmente estimulou esses cidadãos individuais a se afastarem momentaneamente da constante pressão da civilização e a concederem uma satisfação temporária aos instintos que vinham mantendo sob pressão.” Freud estava se referindo a situação da 1ª guerra, mas podemos ver que é atual, vale para “nossa” guerra também, pois a vida instintual não tem idade. O homem tenta aprimorar artifícios para conter os instintos:proibições, regras morais, civilização, sua inteligência. Mas as vicissitudes da vida, o contágio do grupo, podem desfazer estes artifícios.

O processo de civilização é acompanhado de um progressivo deslocamento dos fins instintuais e  de uma limitação imposta aos impulsos instintuais. A obediência às leis morais, ensinadas pelo pai, o amor pelo objeto e o medo de perdê-lo leva o indivíduo à renúncia instintual. Sim, nossos instintos são destrutivos, agressivos, mas também são eróticos, sexuais. Um não anda sem o outro, mas ambos precisam ser limitados, educados. A satisfação precisa ser postergada ou simplesmente proibida, deve ser dado novo destino à pulsão.

A psicoterapia pode ajudar o paciente a reconhecer seus desejos, a buscar o destino mais adequado para suas pulsões e com isso um melhor equilíbrio emocional.