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Sobre a busca por soluções mágicas no mundo contemporâneo e a psicoterapia psicanalítica

Por Letícia Schmitz, Psicóloga – CRP 07/18830

Quem procura um tratamento psicoterápico em busca de ajuda para alívio de sofrimento, entendimento de alguma situação, muitas vezes se encontra frente a um psicólogo pela primeira vez na vida. É comum a pessoa não saber por onde começar a explorar as situações, o que contar ao profissional, ficar um pouco perdido neste início. Geralmente, o psicoterapeuta precisa explicar à pessoa que busca a psicoterapia, como se dá este trabalho, baseado em uma teoria e uma técnica, que aqui, neste artigo, abordarei através do olhar da psicanálise.

Costumo mostrar, sempre que possível, que esta é uma tarefa feita em conjunto, através da dupla, um trabalho feito a dois por quem busca por ajuda e quem se dispõe a ajudar e que, se uma das partes não está disposta, ficará gravemente prejudicado. Resistências inconscientes fazem parte deste processo e são esperadas que apareçam, afinal Freud já nos apontava que estes bloqueios irão acontecer.

No entanto, me refiro aqui, ao quanto as pessoas estão em busca por respostas rápidas e soluções mágicas no mundo contemporâneo. É notável que hoje muitos não apresentam certa paciência para investir tempo e se dedicar ao autoconhecimento, ao entendimento de seus conflitos e como melhorar alguns pontos de sua vida. Apenas desejam que seus problemas sejam solucionados o mais brevemente possível, e de preferência, sem muito esforço.

Para que este trabalho de psicoterapia seja satisfatório, é necessário que a pessoa que busca este serviço esteja disposta, motivada a encarar pontos que, até aquele momento, estavam encobertos, estavam sendo negados. Entende-se que para fazer este mergulho para dentro de si mesmo, no qual é visto o trabalho de uma psicoterapia psicanalítica, o desejo de encontrar as suas verdades esteja presente.

Tenho percebido, cada vez mais, que as pessoas esperam que o profissional dê respostas prontas, diga o que fazer em determinadas situações, diga em pouco tempo o que a pessoa tem e como ela pode melhorar. O que está se apresentando são dificuldades em se deparar, de verdade, com o que está acontecendo em suas vidas, pensar a respeito dos motivos que as fizeram buscar um tratamento psicoterápico. Muitas destas respostas estão dentro do paciente, mesmo que ele não saiba. E é justamente aí que entra a importância da psicoterapia e o quanto ela pode ajudar.

No entanto, para que estas respostas sejam encontradas, se faz necessário o auxílio do profissional com este olhar diferenciado, com uma escuta empática, que este caminho à melhora será trilhado. Apesar de a trajetória de descobertas ser realizada em conjunto com profissional, é imprescindível que a pessoa deseje compreender melhor a si mesmo e não apenas busque um entendimento pronto, que pode até auxiliar em um primeiro momento, aplacando ansiedades momentâneas, mas não fará com que os conflitos sejam solucionados de uma forma profunda.

Caso contrário, se ela esperar que o terapeuta fale tudo o que precisa fazer, não estimulando que a pessoa busque recursos internos para se colocar a pensar sobre suas questões, este trabalho não alcançará o objetivo final. Desta forma, a psicoterapia psicanalítica pode ajudar a pessoa a refletir e perceber quais são as melhores soluções reais para seus conflitos. Este trabalho busca por auxiliar o paciente a ter estas condições, não necessitando esperar do outro uma resposta e mais, tendo a capacidade para refletir e avaliar as possibilidades e fazer escolhas mais saudáveis para si.

SERÁ QUE NÃO ESTAMOS CRIANDO UMA GERAÇÃO DE ANSIOSOS?

Por Larissa Mendonça Lütkemeyer, Psicóloga – CRP 07/16189

Diariamente somos bombardeados por mensagens de que precisamos ser sempre melhores e buscar sempre mais, intelectualmente, emocionalmente, financeiramente… Não nos sentimos suficientemente capazes se não formos graduados, especializados, com mestrado e doutorado. Temos que nos sentir bem e estar felizes o tempo todo, não há lugar para a tristeza e a frustração. Precisamos ter o último modelo de smartphone, o carro do ano…

Diante de tantas exigências, muitas vezes nos deparamos com sentimentos de frustração, insatisfação ou incapacidade. Afinal, de quanto trabalho, tempo, esforço e dedicação precisamos para atingir esses ideais que nos são impostos a todo momento? Será que somos capazes de conquistar tudo isso? Mas, e se não conseguirmos? Então não poderemos nos sentir felizes?

Frustração é um sentimento que surge quando algo não sai conforme a expectativa que criamos ou quando um desejo não encontra satisfação. Saudáveis, as frustrações são passageiras, inevitáveis e necessárias. A partir delas construímos um senso de realidade, entendemos que existem outros além de nós mesmos, aprendemos a ser mais pacientes e tolerantes.

No entanto, são tantas as condições para atingirmos o “ideal”, que é muito comum surgir uma sensação de que nunca temos o suficiente pra nos sentir satisfeitos ou de que não somos bons o suficiente para nos sentir felizes e realizados, fazendo, muitas vezes, com que nos questionemos a respeito das nossas capacidades e gerando um constante sentimento de insegurança. Em função disso, trabalhamos cada vez mais, com o objetivo de conquistar esses ditos “ideais”, e dedicamos cada vez menos tempo para atividades prazerosas e de lazer, para convivência em família e com pessoas importantes. Passamos a nos preocupar mais com o  futuro do que com o presente e a exigir de nós e dos outros um ritmo, por vezes alucinado, porque há muito para conquistar e “não há tempo a perder”. Mas somos continuamente exigidos a lidar com as frustrações decorrentes de todo esse processo, pois não temos o controle de tudo e nem tudo acontece no tempo ou da forma que gostaríamos.

Como consequência, tem sido cada vez mais comum, o aparecimento da ANSIEDADE. Ansiedade é um sentimento normal, que nos põe em alerta frente a uma situação de perigo real ou devido a impulsos indesejáveis (geralmente inconscientes), ativando os mecanismos de defesa mais adequados para o seu enfrentamento. Qualquer situação nova ou desconhecida pode ser potencialmente geradora de ansiedade. Quando a ansiedade se torna muito intensa e aparece de forma abrupta, deixando-nos com a sensação de impotência e bloqueando a nossa capacidade de pensar e reagir adequadamente, configura-se uma patologia, necessitando de atenção e tratamento adequado.

A psicanálise entende a ansiedade patológica como uma revivência de situações primitivas (muito precoces) que, por diversas razões, são reatualizadas em algum momento ou fase da vida. Teorias psicanalíticas enfatizam a importância do ambiente, representado pela mãe, que, sendo capaz de auxiliar o bebê a conter e transformar suas angústia iniciais, proporciona ao recém-nascido condições para lidar com o desamparo com que vem ao mundo. Falhas no processo de acolhimento dessas angústias, resultam em uma falha egóica, que se manifestará, futuramente, em forma de ansiedade.

Segundo dados da OMS, divulgados no início de 2017, o Brasil é o país com a maior taxa de transtorno de ansiedade no mundo. Levando em consideração tudo o que foi descrito acima e pensando nesse sistema, no qual, temos cada vez menos tempo disponível e dedicamos cada vez menos energia para cuidar de nós mesmos e, consequentemente, dos outros (inclui-se aqui os filhos), será que não estamos criando uma geração de ansiosos?

A psicoterapia é um processo de autoconhecimento que nos permite reconhecer o nosso funcionamento, entender as falhas psíquicas que trazemos conosco, identificar nossos sentimentos, questionar pensamentos, compreender motivações e objetivos. Num ambiente acolhedor e sem julgamentos, assim torna-se possível realizar escolhas mais saudáveis, gerando aumento da confiança em si mesmo e de sentimentos como satisfação e felicidade

DPP – Depressão Pós Parto

Por Tanise Gralha Mateus, Psicóloga –  CRP 07/10230

A gestação traz consigo um momento de muita expectativa e mudanças. Além das mudanças físicas na casa, mudanças físicas no corpo, uma carga hormonal invade o corpo da mulher. Novas sensações, sentimentos e emoções são experimentadas e as relações sentem o impacto de todas essas novidades. No artigo anterior, escrito pela Psicóloga Rafaela Hass, as mudanças ocorridas na relação conjugal com a gestação foram explanadas. Neste presente artigo, pontuaremos as questões referentes a depressão pós parto, que pode acometer mulheres gestantes e puérperas.

Os primeiros dias após o nascimento do bebê são um misto de sentimentos, e os hormônios são os principais responsáveis pelas mudanças, já que com o nascimento do bebê há uma nova reorganização hormonal. A chegada do bebê é um momento idealizado e muito esperado pela grande maioria das mães. A imagem de uma mãe feliz, amamentando um bebê tranquilo, num ambiente lindo e colorido está frequentemente associada à que temos de uma mãe com seu recém nascido bebê. Alguns momentos de angústia, tristeza e medo são também experimentados durante o puerpério, mas não devem ser muito intensos ou de longa duração a ponto de prejudicarem o relacionamento entre a mãe e o bebê. Essa tristeza nos primeiros dias é chamada de baby blue e se trata, inclusive, de um momento adaptativo à maternidade, pois possibilita que a mãe fique mais atenta às necessidades e cuidados de seu bebê, evitando que a sensação de euforia tome conta.

Após  cerca de 40 semanas, o bebê que esteve protegido dentro do ventre vem ao mundo e uma certa sensação de despedida é comumente experimentada pela mãe. Neste contexto alguns momentos de tristeza, choro e insegurança podem ser experimentados. O habitual é essa sensação diminuir com o passar dos dias e com a capacidade da mãe de organizar sua rotina com o bebê. A média de duração do baby blue fica próxima aos 14 dias.

Segundo a OMS em cerca de 15% das mulheres esses sentimentos de tristeza evoluem para depressão pós parto (DPP). Mulheres que apresentaram quadros depressivos em algum momento da vida tem maior chance de desenvolver a DPP, assim como mulheres que tiveram DPP possuem mais chances de desenvolver depressão, já que essa é uma doença cíclica. Sentimentos de apatia, tristeza, falta de apetite, insônia e dificuldade de estabelecer uma conexão com o bebê são outros sintomas que caracterizam a depressão pós parto.

Uma a cada 7 mães desenvolve a depressão pós parto (DPP), segundo recente estudo realizado nos EUA. O suicídio é a segunda maior causa de mortes de mulheres após o parto. De acordo com dados do Hospital Israelita A. Einstein mais de 2 milhões de casos são diagnosticados por ano. Normalmente os sintomas são percebidos pela própria mulher, que também apresenta com frequência pensamentos indesejados e vontade de morrer, principalmente por acreditar não estar sendo uma boa mãe. O ganho ou perda significativa de peso, choro, irritabilidade e isolamento social são relatados com frequência. As causas da DPP são multifatoriais, porém, hoje já se sabe que em mais de  50% dos casos de DPP diagnosticados são uma consequências de uma depressão que começou já na gestação.

Embora tenha esse nome, a depressão pós parto pode acontecer ainda na gestação ou anos após o nascimento do bebê. Na gestação, estudos recentes sugerem que entre 10 e 20% das mulheres apresentem essetranstorno psicológico .

Na gestação a DPP pode ainda trazer consequências ao desenvolvimento do bebê, principalmente porque a mulher com depressão pode se alimentar de forma equivocada e insuficiente para o adequado desenvolvimento do feto, tende a não seguir as orientações do pré natal, vivenciam intensos sentimentos de culpa, pânico e a chance de aumento no consumo de álcool, tabaco e outras drogas. Os bebês nascidos de mulheres com depressão durante a gestação tem maior chance de parto prematuro e baixo peso ao nascer, segundo estudos realizados nos EUA.

Dada às especificidades do momento da gestação e do puerpério, a psicoterapia é o primeiro e principal  tratamento.Em função da dificuldade de encontrar medicações psicotrópicas que tenham uma margem de segurança próxima 100% é o tratamento de eleição.

Os grupos de gestantes ou grupoterapia, conduzidas por psicólogos ou psiquiatras, é uma opção que traz bons resultados, tanto para prevenir quanto tratar a DPP em gestantes e puérperas. O processo auxilia no compartilhar experiências, sensações e sentimentos, possibilita a troca de informações, vivências e oferece apoio e acolhimento, suporte necessário para vivenciar de forma saudável a gestação e o puerpério.

Na psicoterapia individual ou em grupo as dificuldades individuais são identificadas e esclarecidas, rompem se esteriótipos, identifica se os obstáculos que impedem o desenvolvimento e torna possível encontrar as próprias condições de resolver ou enfrentar seus problemas.

O impacto da maternidade no casamento

Por Rafaela Haas Oliveira Zanini, Psicóloga – CRP 07/14351

A chegada de um filho muda a vida de um pessoa e o relacionamento de um casal. Um bebê muda a rotina, modifica as prioridades e os valores de uma família.

O primeiro momento da vida de uma criança solicita a entrega da mãe à maternidade. A simbiose que se constrói entre a mãe e o bebê é fundamental neste primeiro momento, onde o filho se alimenta não só do peito mas principalmente do olhar materno. É uma fase incrível mas ao mesmo tempo exaustiva. O pai ainda não tem a mesma entrada na vida deste bebê, mas certamente com o tempo e com tolerância vai encontrando o seu espaço e a sua importância nesta relação.

É preciso uma relação fortalecida e estável para poder suportar as ansiedades inerentes a este primeiro momento, mas também a todas as mudanças que vão ocorrendo gradativamente. Mesmo um casamento que apresenta uma relação saudável está sujeito a passar por dificuldades ou por momentos mais caóticos.

Um filho traz muitas alegrias, nos apresenta a vida por um outro olhar. É a vida com outro sentido. Um filho vem para trazer admiração pelo parceiro, vem para unir e fortalecer um casamento que já tem união e que, então, terá a possibilidade de vivenciar a maternidade como prioridade. É a relação redescobrindo seu sentido também.

Entretanto nem sempre a chegada de um bebê proporciona união. Muitas vezes o desejo de engravidar vem acompanhado por necessidades de outra ordem: preencher vazios, aproximar relações que já vem em crise, entre outros. Talvez para aqueles que ainda não vivenciaram a experiência da maternidade exista a ilusão de que a gravidez possa trazer um elo para a vida inteira. Em parte é correto pensar que traz uma ligação, mas nem sempre esta possibilidade de proximidade se desenrola da forma como se idealiza.

Uma relação que já vem frágil, tende a se fragilizar mais ainda com a jornada exaustiva da maternidade. É preciso disponibilidade para ser pai e mãe, disponibilidade essa que nem todos estão preparados para ter. É preciso ter solidez nesta relação, pois a chegada de um bebê causa um grande impacto no relacionamento de um casal e muitas vezes pode levar a separação. Nem todos conseguem conviver com as transformações inerentes a este momento.

SOBRE O VÍNCULO AFETIVO ENTRE PAIS E FILHOS

Por Maria Rita Beltrão, Psicóloga – CRP 07/06553

Desenvolvida pelo psicólogo inglês John Bowlby a teoria do vínculo afetivo, também conhecida como apego, entende o crescimento de uma criança como resultado da relação que ela mantém com seus pais. De acordo com este autor o apego é uma necessidade tão primária e vital quanto o alimento. Um bebê que se sente protegido terá muito mais chance de se tornar um adulto seguro de si mesmo e capaz de amar e se sentir amado. Bowlby designou como “teoria do apego”, um modo de conceituar a propensão dos seres humanos a estabelecerem vínculos afetivos, bem como, de explicar as múltiplas formas de consternação emocional e perturbações da personalidade a que a separação e a perda involuntária dão origem.

O comportamento de apego pode ser definido como qualquer forma de comportamento que resulta em uma pessoa alcançar e manter proximidade com algum outro indivíduo claramente identificado, considerado mais apto para lidar com o mundo. O conhecimento da existência de uma figura de apego disponível e que oferece respostas, fornece um sentimento de segurança importante que encoraja a pessoa a valorizar e dar continuidade à relação. Assim, os padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de sua vida atual e, em parte, das experiências que teve com as figuras de ligação nos primeiros anos de vida.

O ponto de vista de Bowlby, apoiado por inúmeras pesquisas, é de que o alimento desempenha apenas um papel secundário no comportamento de ligação do bebê à sua mãe. A função básica do comportamento de ligação seria a proteção. Segundo o autor, é tão importante estudar a maneira pela qual uma criança é realmente tratada pelos seus pais, como é necessário estudar as representações internas que a criança tem deles e vice-versa, valorizando a interação de um com o outro, do interno com o externo. Além disso, ressalta a interação afetiva mãe-bebê como formadora do mundo interno da criança, decorrendo daí suas fantasias. Portanto, o modelo que a criança constrói de si mesma também reflete a imagem que os pais têm dela, imagem esta que é comunicada não só pela forma como a tratam, mas também, pelo que cada um diz sobre ela.

No momento do nascimento de um filho, a situação do casamento, da vida da família ou mesmo da sociedade mais ampla, interferem positiva ou negativamente na relação de apego entre pais e filhos. É verdade que as fantasias relacionadas às vivências infantis têm um peso importante na relação dos pais com seus filhos, podendo muitas vezes ser um fator determinante de dificuldades nesta relação. Mas também é verdade que a realidade presente, a relação atual do casal e o momento da família, com todos os seus sentimentos e implicações, pode ser codeterminante no melhor ou pior apego que se estabeleça nesta relação. Também ao bebê, sendo parte ativa neste processo, determinará correções ou reforçará os sentimentos a respeito dele, conforme sua bagagem constitucional. Assim, um bebê ativo e cheio de vida poderá modificar as expectativas negativas que sobre ele são projetadas. Ao contrário, um bebê mais voraz e exigente, corre o risco de confirmar as expectativas negativas oriundas dos conflitos inconscientes de seus pais ligadas as suas vivências infantis.

Quando as expectativas negativas superam as positivas faz-se necessário uma intervenção terapêutica precoce para ajudar os pais a modificarem esta trajetória, possibilitando a estes e ao seu bebê uma interação mais saudável e gratificante.

 

A sexualidade na infância

Por Maíra Pasin Pozzer, Psicóloga – CRP 07/14830

O desenvolvimento do ser humano é pautado por etapas e fases que compreendem a vida como um todo, desde a gestação. Na infância ocorrem as principais aquisições e aprendizados, os quais, serão a base para a formação da personalidade de cada um. Em se tratando de sexualidade, muitos adultos pensam que as crianças não a possuem, confundido a sexualidade infantil com a sexualidade adulta. Porém, a sexualidade na infância pode se manifestar através de brincadeiras, curiosidades e interesse pelas diferenças entre os sexos, diferentemente do que ocorre na vida adulta.

A criança explora seu corpo e questiona os adultos sobre suas dúvidas, percepções e curiosidades. A maneira como os pais e adultos que convivem no seu dia-a-dia vão lidar com estas questões, fará grande diferença em como esta criança irá lidar futuramente com sua sexualidade. Cabe aos adultos compreender a diferença existente entre a sexualidade infantil e a adulta, para que possam orientar da melhor maneira, sem causar censuras desnecessárias para este momento de descobertas.

Gradativamente se dá a descoberta de partes do corpo, juntamente com sensações prazerosas causadas pelo seu próprio toque nas zonas erógenas. Tais descobertas são naturais e saudáveis para o desenvolvimento, sendo constitutivas não apenas do ponto de vista físico, como também psíquico.

Nesta fase do desenvolvimento é comum que os pais se sintam perdidos e sem saber como agir e o que dizer frente os questionamentos de seus filhos. É importante que ajam com o máximo de naturalidade possível e esclareçam aquilo que foi perguntado, sempre com uma linguagem clara e acessível à idade da criança. Sempre lembrando que para a criança a conotação erótica da sexualidade adulta não está em jogo, se fazendo presente apenas as curiosidades presentes nas descobertas infantis.

Uma situação que costuma causar angústia nos pais e adultos em geral é a masturbação infantil na qual, a criança se depara com sensações prazerosas causadas no seu próprio corpo, porém é fundamental ressaltar que tal experiência nada tem em comum com a excitação sexual vivida pelos adultos. Em situações como esta, os pais devem orientar que a criança pode se tocar, porém que o faça quando estiver sozinha, ensinando desta forma que a intimidade deve ser preservada e que nada há de errado em sentir prazer. Assim, a privacidade e cuidado protetivo com seu corpo vão sendo introjetados pela criança desde já.

Por se tratar de um tema que envolve censura, tabus e polêmicas, se faz necessário que quando os pais tenham dúvidas não hesitem em procurar ajuda profissional para lidar com a situação posta em cena. Pois, a sexualidade deve ser tratada e trabalhada com naturalidade, pois é parte fundamental e intrínseca da vida do ser humano. Desta forma, prevenimos que se instaurem traumas e distorções que podem desencadear dificuldades e patologias na vida sexual adulta.

CONVERSANDO SOBRE LUTO

Por Denise Helena Müller de Ávila , Psicóloga  – CRP 07/01582

Quando falamos de luto não nos referimos a perdas apenas por morte, mas sim a todo tipo de perda: fim de um relacionamento amoroso, namoro ou casamento, perda do emprego, briga com amigos ou familiares, esterilidade/infertilidade, doença ou por situações de crescimento como formatura de colégio e/ou de faculdade, mudança de cidade ou de país para exercer um novo emprego ou cargo ou mesmo para estudar e se especializar. Também a aposentadoria é uma situação de luto, quando o indivíduo está deixando sua fase mais produtiva para “descansar”. O que o faz se deparar com o envelhecimento.

Portanto o luto é toda situação de perda que provoca intensos sentimentos de dor, que pode  remeter a  situações anteriores de perdas que não foram elaboradas como o próprio crescimento. Por exemplo, a criança para crescer, na fase da adolescência,  precisa se despedir da infância, é um momento de luto e pode ser bem difícil. E assim são as várias fases : entrada na vida adulta, casamento, nascimento dos filhos, etc., onde sentimentos ambivalentes surgem diante de novos acontecimentos, sentimentos que podem ser de perda por um lado e ganho por outro. Exemplo é o casamento de uma filha onde a mãe pode sentir que está perdendo a filha ou ganhando um filho, conforme suas vivências.

Em várias etapas da vida, para irmos adiante, precisamos nos despedir da fase anterior. Cada situação dessas é um luto que precisamos elaborar e elaboramos muitos deles, mas alguns ficam pra trás. Estas situações “mal resolvidas” podem emergir num momento de dor intensa de uma situação semelhante, ou seja, os sentimentos atuais podem remeter a sentimentos já experimentados. Pode também a perda ser tão difícil, tão dolorosa, que cause sintomas físicos e emocionais tais como ansiedade, depressão, confusão, medo, isolamento,  alteração do sono, perda de apetite, etc.

Em cada etapa, a cada degrau que subimos deixamos um pra trás, cada vez que isso acontece precisamos nos despedir e nos adaptar a uma nova realidade. É comum termos dificuldade nesses momentos de transição e nem sempre nos damos conta que podemos buscar ajuda. A primeira fonte de apoio é a família. Podemos ainda contar com os amigos e com profissionais da área da saúde como os psicólogos. Precisamos nomear os sentimentos, falar de nossas dores, expressar os pensamentos e sentimentos.

“Os tempos de transição são também tempos de oportunidade e qualquer confronto com um mundo desconhecido é tanto uma oportunidade para um domínio autônomo como uma ameaça para o próprio ajustamento à vida.” (Parkes)

Psicoterapia: uma relação de confiança

Por Keylla Jung , Psicóloga – CRP 07/07683

É possível pensar a psicoterapia desde a perspectiva de uma prestação de serviço. No entanto, é assunto delicado estabelecer um valor monetário sobre as intervenções e cuidados que um profissional da saúde oferece à pessoa que o procura. Terapeuta e paciente trabalham, basicamente, no campo das subjetividades, o que torna a tarefa complexa. Psicoterapia, como o próprio termo traduz, significa tratamento da psique através de técnicas específicas, ou, simplesmente, terapia da mente.

Parto do princípio de que a vida emocional de qualquer pessoa é de grande valor. A mente, os pensamentos e as emoções frequentemente dão sinais de interferência em nossa vida prática, tanto no aspecto positivo como no aspecto negativo. Portanto, costumo dizer que psicoterapia é um processo caro, porém insisto que não me refiro ao valor monetário. Psicoterapia é um investimento bilateral que envolve paciente e terapeuta, no qual ambos dedicarão tempo, dinheiro, desejo e expectativas. Nessa relação, o paciente assume certos compromissos diante de combinações previamente acordadas entre ambas as partes, tais como o comparecimento nas sessões, honorários, alterações de horários e faltas. O terapeuta, por sua vez, se compromete com a organização de sua agenda para que o paciente tenha garantido seu espaço e horário. É dever do profissional zelar pela ética e o acesso aos recursos técnicos visando a terapêutica do paciente. Um profissional atento está em constante formação, estudando, pesquisando e se atualizando. São formas de tentar oferecer os melhores recursos e a melhor compreensão para cada caso de seus pacientes.

A formação de um psicoterapeuta, quando comprometido com sua profissão, exige longo tempo, investimento em aulas e supervisões, muito estudo e tratamento pessoal. Tudo justificado pelo fato de que a principal ferramenta de trabalho de um psicoterapeuta é sua própria mente.

No caso dos psicólogos, embora os conselhos de psicologia prestem orientações sobre como formalizar um acordo por escrito entre ambas as partes de um processo terapêutico, o mais comum ainda é o estabelecimento de um contrato apoiado na relação de confiança. Creio que aí se instala um importante desafio.

O paciente, quando procura uma psicoterapia, na maioria das vezes encontra-se em uma situação de fragilidade ou sofrimento. Na melhor das hipóteses busca o autoconhecimento com o auxilio profissional, o que significa um inevitável confronto com aspectos de sua personalidade que talvez preferisse manter em reserva. Esses fatores colaboram para que, nas primeiras sessões, a ansiedade se apresente de forma intensa, o que torna nada fácil a tarefa de pôr em prática uma relação de confiança.

Imagine-se frente a um desconhecido que, por melhor referência que possa ter, está ali com acesso a fatos de sua vida privada e interagindo com suas emoções. Trata-se de uma situação de exposição que pode ser particularmente ainda mais difícil para algumas pessoas. Tudo isso porque a confiança é algo construído, um processo que precisa de tempo e interação. A confiança pode iniciar com a empatia, com o sentimento de ser compreendido, com a certeza de não estar sendo julgado. O espaço terapêutico alia esses fatores ao desejo de transformação em que ambos, paciente e terapeuta, se envolvem numa relação de escuta, acolhimento e respeito ao outro.

AUTONOMIA E SUPERPROTEÇÃO

Por Luciana Pandolfo Camaratta, Psicóloga – CRP 07/05918

O que é cuidar? O que é superproteger? Onde está a linha que marca cuidado e crescimento pessoal ou superproteção e atrasos no desenvolvimento? Este tema sempre trouxe dúvidas! Atualmente ainda mais, em função dos riscos que a vida moderna apresenta. Esta realidade não pode servir como justificativa para encerrar o assunto e evitar outros questionamentos.

Muitos pais acreditam que, sendo  “super presentes”, atuam como melhores pais.  Tornam-se proibitivos e exigentes, eternos acompanhantes para realizar atividades ou resolver problemas para a criança.  Na verdade a tarefa dos pais será identificar  as situações de risco real à serem evitadas e aquelas que devem ser permitidas e até incentivadas. Assim serão bons pais ao proporcionar o desenvolvimento da autonomia. Esta tarefa depende do bem estar emocional dos pais. Muitas vezes, aparecem conflitos! A autonomia da criança, leva a um certo grau de afastamento e quebra de dependência, podendo ser sentida como abandono, rejeição ou perda de controle.

Desenvolver a autonomia da criança, desde as primeiras tarefas do desenvolvimento, proporcionará maiores recursos, capacidades, segurança e adequação para as tarefas futuras, inevitavelmente maiores, mais complexas e algumas vezes mais solitárias.

As crianças demonstram muito prazer quando sentem-se capazes de realizar tarefas sem a ajuda dos adultos. Logicamente às responsabilidades e permissões devem estar em acordo com a etapa de desenvolvimento. Sentir que é capaz é fundamental para que desenvolva boa auto estima, desenvolva habilidades e tenha confiança em si mesmo. Por outro lado, ao perceber que tudo é feito para ela e por ela, aparecem sentimentos de insegurança, desconfiança e intolerância à frustração. Não amadurece! Passa a acreditar, que o mundo está sempre pronto para resolver suas dificuldades, e imediatamente disponível para realizar seus desejos. Ainda poderá sentir o mundo, como um lugar perigoso, sendo melhor não arriscar-se.

Na verdade, os adultos não conseguem impedir a autonomia da criança. Conseguem apenas atrapalhar, mas gerando prejuízos importantes. Poderão aparecer dificuldades variadas e em diferentes intensidades. Dificuldades no relacionamento social, timidez, estados de medo e ansiedade, depressão, dificuldades de aprendizagem, crises de birra, entre tantos outros. Problemas futuros, já na vida adulta, também poderão aparecer, em consequência da superproteção. Pessoas marcadas pela insegurança e medo, sentem-se incapazes para enfrentar os desafios da vida, podendo apresentar insucessos na vida pessoal, profissional e afetiva.

A criança precisa sentir-se competente, capaz de realizar as tarefas de seu desenvolvimento. Precisa também sentir que pode contar com seus pais e buscar ajuda, se necessário. Os pais precisam festejar sua condição de formar um ser independente. Todos precisam confiar na estrutura do vínculo construído e perceber que ele não se perde, apenas se transforma conforme a etapa da vida.

TPM: Mitos e Verdades

Por Ingrid Schonhofen Petracco, Psicóloga – CRP 07/11717

Então, TPM existe mesmo ou é frescura de mulher? Existe sim e, desde o último lançamento do DSM-V em 2012, ela se encontra junto na categoria dos Transtornos Depressivos, logo é séria e precisa ser tratada como tal.

Primeiramente vamos começar falando que a tão conhecida TPM, tensão pré-menstrual, na verdade se divide em duas categorias, a síndrome pré-menstrual e a TDPM (transtorno disfórico pré-menstrual), forma mais intensa da TPM (tensão pré-menstrual). A TPM e a TDPM foram, por muito tempo, erroneamente associada ao temperamento de mulheres mais sensíveis. Contudo, os novos achados mostram que existem causas biológicas e genéticas para as alterações físicas, comportamentais e emocionais por que passam as mulheres com o transtorno.

A TPM atrapalha a vida pessoal e profissional de diversas mulheres por  todos os meses e essa tensão é gerada por alterações hormonais que antecedem a menstruação. Em geral, os sinais da TPM aparecem na metade do ciclo menstrual e desaparecem em até dois dias após o início da menstruação.

A TDPM, que afeta as mulheres em idade fértil, é marcada por sintomas físicos e comportamentais semelhantes aos da TPM, mas muito mais intensos e severos. Além da sensibilidade alterada nas mamas e o inchaço na barriga, a irritabilidade, tristeza e ansiedade chegam a ser tão extremados que incapacitam as mulheres de realizarem suas tarefas de cotidiano, prejudicando a vida destas e, consequentemente, das pessoas que com elas convivem.

Segundo o DSM-V os critérios diagnósticos são:

-A. Na maioria dos ciclos menstruais, pelo menos cinco sintomas devem estar presentes na semana final antes do inicio da menstruação, começar a melhorar poucos dias depois do inicio da menstruação e tornar-se mínimos ou ausentes na semana pós-menstrual.

-B. Um (ou mais) dos seguintes sintomas deve estar presente:

  1. Labilidade afetiva acentuada ( por ex, mudanças de humor, sentir-se triste ou chorosa, sensibilidade aumentada a rejeição)
  2. Irritabilidade ou raiva acentuadas ou aumento nos conflitos interpessoais.
  3. Humor deprimido acentuado, sentimentos de desesperança ou pensamentos autodepreciativos.
  4. Ansiedade acentuada, tensão e/ou sentimentos de estar nervosa ou no limite.

-C. Um (ou mais) dos seguintes sintomas deve adicionalmente estar presente para atingir um total de cinco sintomas quando combinados com os sintomas do critério B.

  1. Interesse diminuído pelas atividades habituais.
  2. Sentimento subjetivo de dificuldade em se concentrar.
  3. Letargia, fadiga fácil ou falta de energia acentuada.
  4. Alteração acentuada do apetite; comer em demasia; ou avidez por alimentos específicos.
  5. Hipersonia ou insônia.
  6. Sentir-se sobrecarregada ou fora de controle.
  7. Sintomas físicos como sensibilidade ou inchaço das mamas, dor articular ou muscular, sensação de inchaço ou ganho de peso.

Nos casos graves, é necessária uma medicação mais específica. Atualmente, o tratamento usado com melhores resultados são os antidepressivos. Estudos recentes mostram que essa medicação usada na menor dose possível e durante a fase de tensão pré-menstrual tem melhorado muito a qualidade de vida das mulheres que experimentam essa disfunção.

Na psicoterapia, a mulher vai compreender sua oscilação de humor e aprender a lidar melhor com suas habilidades de manejo quando as “crises” estiverem chegando, bem como aprender a conhecer melhor tanto a si como o seu corpo, que também faz parte do processo de amadurecimento feminino.